A economista e socióloga goiana Sabrina Fernandes é a nova cientista residente do Programa Cesar Lattes do Instituto de Estudos Avançados (IdEA) da Unicamp. Na residência, entre 16 de março e 16 de maio, sua proposta é tocar corações e mentes a respeito das múltiplas crises do mundo contemporâneo, a chamada “policrise planetária”, tema que permeia sua estadia na Unicamp.
Com mestrado em Economia Política e doutorado em Sociologia pela Universidade Carleton, no Canadá, Fernandes é atualmente chefe de pesquisa do Instituto Alameda e assessora-sênior de pesquisa do centro Technology & Industrialisation for Development da Universidaede de Oxford, no Reino Unido. Na residência, que inclui palestras, bate-papos e oficinas abertas ao público, ela pretende aprofundar questões que envolvem desordens e catástrofes, abordar conceitos como ecocídio e ecoceno, e trocar experiências sobre ativismo digital e o embate entre a linguagem do conhecimento e a linguagem do engajamento
Fernandes sustenta que, apesar do pessimismo que assola os pensamentos, ainda é possível manter um olhar apaixonado para o futuro. “É esse olhar apaixonado que vai dar energia para a gente construir alternativas”, afirma.
O Jornal da Unicamp conversou com a nova cientista residente sobre suas ideias, projetos e a programação que preparou.

Jornal da Unicamp (JU) – Como recebeu o convite para ser a nova cientista residente do IdEA?
Sabrina Fernandes – Fiquei muito animada porque é um programa que realmente permite interação e é voltado para a valorização da transdisciplinaridade. Normalmente, na universidade, ainda somos muito voltados a pensar dentro da nossa própria disciplina. O economista é economista, o sociólogo é sociólogo, o geólogo é geólogo e o matemático é matemático. O maior desafio de todos é construir uma linguagem comum. Como eu tenho formação em economia e sociologia, tive a oportunidade de ver formas diferentes de pensar quando estou em cada um desses lugares e tentar encontrar essa linguagem comum. Sinto que essa residência científica vai ter um efeito pessoal em mim, não só como cientista. Acho que consegui montar um programa bastante diverso, que toca em vários temas, todos relacionados à minha pesquisa.
JU – Do que trata a sua pesquisa?
Sabrina Fernandes –- Há alguns anos venho tentando compreender como as propostas de transição — muitas vezes tratadas como transição ecológica, transição climática ou transição justa — precisam ser melhor integradas para que possamos lidar com várias crises ao mesmo tempo. Em vez de falar apenas em crises múltiplas ou crises simultâneas em diferentes áreas, entendemos que essas crises interagem entre si e acabam piorando umas às outras. Uma solução parcial ou equivocada para um problema pode acabar agravando outro. Isso expande o nosso entendimento do que é uma solução e faz com que a gente tenha que avaliar também os riscos e perigos associados aos projetos alternativos que são apresentados.
JU – Sua palestra de abertura leva o título de “O desafio da policrise planetária e as visões de túnel que confundem caminhos”. O que vai apresentar?
Sabrina Fernandes – Quando falamos de policrise planetária, estamos olhando para além da nossa geografia local e entendendo que existe um ecossistema e um metabolismo da natureza que são globais. Não tem como escapar disso. Também precisamos rever como pensamos cooperação, solidariedade e responsabilidade, para que não seja apenas com interesses locais ou mais imediatos. As responsabilidades precisam estar atreladas também aos outros povos e países, para que possamos pensar caminhos de cooperação baseados em interesses comuns. Muitas vezes esses interesses são esvaziados ou ignorados porque a lógica global predominante é uma lógica de competição.
JU – Diante dessa policrise, como está o seu olhar para o futuro?
Sabrina Fernandes – Acho que vale a pena olhar para o futuro com um olhar mais carinhoso e apaixonado, porque infelizmente a nossa realidade anda um pouco contrária a isso. A gente está com um olhar muito pessimista para o futuro — e eu concordo, porque eu mesma sou muito pessimista — mas isso não exclui ter um olhar apaixonado. É esse olhar apaixonado que vai dar energia para a gente construir alternativas.
JU – Você incluiu o tema do ecoceno em um dos bate-papos. Pode explicar o que vai ser abordado?
Sabrina Fernandes – O ecoceno é uma lente sobre a existência futura da sociedade humana que entende que não basta salvar o planeta — o planeta continuará existindo independentemente de nós. O que precisamos salvar é o planeta que permite a nossa vida. É interessante pensar no Antropoceno como um momento em que, por mais que seja extremamente perigoso e delicado, nós, como espécie humana, temos o privilégio de poder ver o que está acontecendo e tentar desenvolver ferramentas para lidar com isso. Infelizmente, esse privilégio muitas vezes não está sendo aproveitado por causa das estruturas de poder que acabam piorando a situação. O programa que montei começa pelo problema, pelo desafio, e depois tenta costurar possíveis alternativas.
JU – Quais seriam essas alternativas?
Sabrina Fernandes – Na imaginação popular, muitas vezes influenciada pela ficção científica e pelas distopias, existe a ideia de um apocalipse em que sobra um pequeno grupo de heróis para reconstruir a humanidade. Isso mostra como temos dificuldade de imaginar utopias. Há valor nisso, no sentido de resistências, mas da mesma forma como a gente se coloca facilmente em narrativas distópicas, o objetivo também deveria ser pensar em como evitar o fim do mundo e como construir uma sociedade melhor a partir disso. Esse deslocamento de perspectiva também é um dos objetivos das discussões que vamos fazer na Unicamp nestes próximos dois meses.

JU – Em 2019, você lançou o livro Sintomas Mórbidos, e, um ano depois, Se quiser mudar o mundo. Do que tratam esses livros? E sobre o seu terceiro livro, que você acaba de finalizar, qual é o tema?
Sabrina Fernandes – O meu primeiro livro foi escrito a partir de uma pesquisa de campo que conduzi durante o doutorado, e também um pouco depois dele, que analisa a organização política no Brasil desde junho de 2013, a fragmentação e a despolitização, além das contradições entre campos mobilizados e desmobilizados. O segundo livro é um trabalho mais introdutório, voltado para o letramento político da população. Ele explica, por exemplo, o que é um sindicato, o que é um movimento social, o que é o capitalismo e o que são as mudanças climáticas. A ideia é mostrar que tudo é político. Nem tudo é explicitamente político o tempo todo, mas nossas ações e decisões acontecem dentro de um sistema político. Agora estou finalizando um novo livro, que será publicado pela editora Planeta e que se relaciona com a temática da policrise planetária ao trazer uma perspectiva do Sul Global, olhando para a América Latina, para o Brasil e para países periféricos.
JU – Qual será sua abordagem a respeito dos conflitos de soberania que assolam o mundo?
Sabrina Fernandes – Uma das atividades que vou desenvolver na Unicamp se chama “Pesquisa estratégica entre a desordem e a catástrofe”. Será uma atividade híbrida no IdEA. Um dos convidados é o Juliano Fiori, diretor do Instituto Alameda, onde trabalho, e também teremos a participação da pesquisadora Vanessa Oliveira. Queremos criar uma ponte entre a Unicamp e o instituto, para que a troca não fique restrita apenas à minha presença. Nossa linha de pesquisa trata de conflitos de soberania, incluindo temas como soberania digital, militarismo, novas invasões e o enfraquecimento do multilateralismo e do direito internacional. É um campo de estudo que está mudando muito rapidamente, com novos dados e acontecimentos surgindo o tempo todo. Essa atividade será uma oportunidade para tentar construir coletivamente um entendimento sobre essas transformações e também discutir o papel do Brasil nesse cenário, incluindo, por meio do meu trabalho, a perspectiva da “soberania ecológica”.
JU – Você manteve um canal de sucesso na internet, o Tese Onze, cujo nome é uma referência à obra Teses sobre Feuerbach, escrita por Karl Marx em 1845, e passou a ser identificada como influencer, mas decidiu se retirar do mundo online. O que a levou a essa decisão?
Sabrina Fernandes – Eu decidi me aposentar desse trabalho em 2023. Eu nunca gostei muito do rótulo de “influencer”, porque não acho que era exatamente isso que eu fazia. Influenciadores normalmente trabalham a partir da própria vida pessoal, e esse nunca foi o meu caso. O que eu fazia era divulgação científica e divulgação política. O Tese Onze era um projeto voltado a explicar conceitos políticos e debates contemporâneos para um público mais amplo, com o objetivo de transformação da sociedade, e trabalhei nele enquanto fazia dois pós-doutorados e escrevia meus dois livros. Então senti que estava pesando muito tentar conciliar tudo isso. O papel que eu queria cumprir era ensinar que é possível fazer um debate na internet que envolva a política de forma respeitosa e de forma responsável. Isso foi possibilitado justamente pelo vínculo com a pesquisa. Foi gostoso enquanto durou, mas eu nunca pretendi fazer isso para o resto da vida, porque o meu trabalho é como pensadora.
JU – Uma das oficinas na Unicamp vai tratar justamente sobre linguagem, conhecimento e engajamento. O que pretende apresentar?
Sabrina Fernandes – No IEL [Instituto de Estudos da Linguagem] eu vou fazer uma oficina de divulgação científica com a ideia de mostrar que nós temos o potencial de ocupar bem esse espaço, mas ele não pode ser ocupado simplesmente visando à maximização do engajamento a todo custo. Se isso acontece, a gente acaba se assemelhando àqueles que estão vulgarizando o conhecimento, divulgando fake news e promovendo desinformação. Então, se o seu objetivo — e você tem que saber qual é o seu objetivo — é realmente informar e educar, você precisa de projeto, estratégia e metodologia para fazer isso de forma adequada. As métricas serão outras, não mais a quantidade de likes ou visualizações de vídeos, mas a criação de comunidades ou o quanto aquele debate foi replicado organicamente pelas próprias pessoas. Precisamos ter nossos objetivos muito claros.
JU – Além de sua produção autoral, você é responsável por reedições das obras de Karl Marx e Friedrich Engels no Brasil, incluindo o Manifesto Comunista, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte e um box especial com os três volumes de O Capital, com introdução, revisão técnica e notas originais. Como foi esse trabalho?
Sabrina Fernandes – Foi um processo muito interessante. O grupo editorial Record é detentor de alguns direitos de tradução dessas obras no Brasil. Minha editora me procurou porque existe um interesse renovado por essas obras, mas era necessário contextualizá-las. Não basta simplesmente colocar um livro do século 19 na mesa do leitor atual. É preciso ajudar a interpretar o texto a partir dos desafios do século 21, como as mudanças climáticas, por exemplo. Colaborei na reedição do box com os volumes 1, 2 e 3 de O Capital. Dentro da ecologia marxista e da economia ecológica, que são campos em que trabalho, o volume 3 tem uma importância muito grande, porque traz uma crítica ecológica ao sistema produtivo. Foi muito especial participar desse processo. Eu passei um período na Alemanha e na Áustria, o que também me ajudou na revisão técnica das traduções. Para alguém que leu Marx pela primeira vez aos 18 ou 19 anos, ter um livro de Marx e Engels com seu nome na capa é algo muito simbólico.
Programação
17 de março, às 14h | Instituto de Economia (IE)
Palestra “O desafio da policrise planetária e as visões de túnel que confundem caminhos” (Inscrições)
1º de abril, às 14h | Instituto de Estudos Avançados (IdEA)
Oficina sobre divulgação científica (Inscrições)
9 de abril, às 14h | Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)
Roda de conversa: “Da linguagem do conhecimento à linguagem do engajamento: refletindo sobre a comunicação nas plataformas digitais” (Inscrições)
10 de abril, às 14h | Instituto de Estudos Avançados (IdEA)
Bate-papo “Pesquisa estratégica entre a desordem e a catástrofe” (Inscrições)
11 de maio, às 14h | Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)
Bate-papo “Ecocídio e genocídio na periferia do mundo” (Inscrições)
14 de maio, às 18h | Instituto de Economia (IE)
Palestra de encerramento “Ecoceno: a transição como um desvio ao futuro” (Inscrições)
Foto de capa:

