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Atualidades Cultura e Sociedade

Mito da democracia racial é tema de aula magna com Lilia Schwarcz

Historiadora e antropóloga participou de evento que comemorou os 50 anos do Instituto de Estudos da Linguagem

A historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz ministrou nesta segunda-feira (9) uma aula magna sobre o mito da democracia racial e o papel das imagens na história brasileira, durante evento que celebrou os 50 anos do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). Em sua apresentação, ela propôs uma reflexão sobre a relação entre a linguagem escrita e a linguagem visual na construção de narrativas sociais.

Autora de mais de 30 livros nas áreas de antropologia, história e história da arte, a professora-sênior do Departamento em Antropologia Social na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) é membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2024 e atualmente leciona como professora visitante na Universidade Princeton, nos Estados Unidos.

A historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz ministrou aula magna do IEL, nesta terça-feira, dia 10, no Centro de Convenções
A historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz ministrou aula magna do IEL, nesta segunda-feira, dia 9, no Centro de Convenções

Diante do auditório lotado do Centro de Convenções, Schwarcz destacou, no início da aula, sua relação com a universidade pública e com a própria Unicamp. “Toda a minha formação se deu na escola pública e tenho plena convicção da importância da universidade pública na produção republicana e cidadã de um país tão desigual como o Brasil”, afirmou. Ela também lembrou sua trajetória na Universidade: “Fui aluna do mestrado na Antropologia e depois dei aula por vários anos. A Unicamp sempre teve um papel formativo muito importante na minha vida.”

Durante sua apresentação, Schwarcz ressaltou que, em uma sociedade que vive da imagem, é preciso entender que documentos visuais não são apenas ilustrações. “Eles produzem valores, significados e também desigualdades. A palavra ‘imagem’ tem a mesma raiz de ‘magia’. As imagens produzem imaginação e naturalizam percepções”, explicou.

A professora Adriana Nunes Ferreira, do Instituto de Economia (IE), que representou o reitor da Unicamp, Paulo Cesar Montagner, destacou o papel simbólico da aula magna e a importância de discutir o mito da democracia racial no contexto das transformações recentes nas universidades brasileiras. “Sabemos que a ideia de democracia racial muitas vezes foi celebrada como marca da singularidade brasileira, mas também operou como um mecanismo de silenciamento”, disse.

Da esquerda para a direita, as professoras Adriana Nunes (IE) e Lúcia Granja (IEL) e o diretor do IEL, Petrilson Pinheiro da Silva
Da esquerda para a direita, as professoras Adriana Nunes (IE) e Lúcia Granja (IEL) e o diretor do IEL, Petrilson Pinheiro da Silva

Petrilson Pinheiro da Silva, diretor do IEL, ressaltou a ligação histórica de Schwarcz com a Universidade. “Parte dessa história, tanto da Unicamp quanto do IEL, passa pela professora Lilia Schwarcz”, afirmou. Lúcia Granja, coordenadora de graduação do curso de Teoria Literária do IEL, também destacou a trajetória da convidada. “É uma pessoa que abriu trilhas, ampliou debates e consolidou uma presença feminina forte e incontornável no pensamento brasileiro”, definiu.

Construção de sentidos

Schwarcz citou reflexões de pensadores como Ludwig Wittgenstein, Roland Barthes e Michel Foucault para discutir como texto e imagem podem se complementar ou até se contradizer na construção de sentidos. Segundo ela, compreender essa relação é essencial para analisar a formação de narrativas sobre a história do Brasil.

Um dos pontos centrais da apresentação foi a discussão sobre o chamado mito da democracia racial, conceito associado às interpretações da sociedade brasileira formuladas ao longo do século 20. Para Schwarcz, o termo “mito” não deve ser entendido apenas como uma falsidade. “Mito não é mentira. Mito é contradição”, afirmou. “Ele nasce, cresce e se desenvolve a partir de tensões históricas.”

Público lotou o auditório do Centro de Convenções para a aula magna "Imagens da branquitude: o mito da democracia racial como linguagem"
Público lotou o auditório do Centro de Convenções para a aula magna “Imagens da branquitude: o mito da democracia racial como linguagem”

A professora destacou ainda que a construção dessa narrativa está ligada a estruturas de poder e a posições sociais específicas. Ao longo da aula, apresentou diferentes obras visuais para discutir como as representações artísticas contribuíram para consolidar determinadas interpretações sobre o país. “Quando uma imagem aparece uma vez, pode ser coincidência. Quando aparece repetidas vezes, percebemos que existe um projeto narrativo”, destacou.

Entre os exemplos analisados estava a gravura “América”, do artista flamengo Jan van der Straet, de 1589. A obra representa o encontro simbólico entre o colonizador europeu e o continente americano. Na gravura, o continente é representado como uma mulher nua, deitada em uma rede em meio a uma paisagem paradisíaca. À esquerda está o colonizador europeu, vestido e acompanhado de instrumentos científicos, bandeiras e uma caravela — símbolos associados à ideia de civilização. A análise das imagens levou a pesquisadora a discutir como, no século 19, essas narrativas passaram a integrar projetos de construção da identidade nacional.

Outro exemplo citado foi o do naturalista alemão Carl Friedrich von Martius, que participou de um concurso promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1844 sobre como escrever a história do Brasil. No ensaio vencedor, Martius propôs a metáfora dos “três rios”, segundo a qual a formação do país resultaria da contribuição de três matrizes: portuguesa, indígena e africana. Para Schwarcz, embora o texto seja frequentemente interpretado como uma valorização da mistura, ele também revela a hierarquia racial presente na época. “A mestiçagem não significava igualdade. Nesse modelo, a mistura era vista como caminho para o branqueamento”, afirmou.

À esquerda a reprodução da obra A Pátria, do artista Pedro Bruno (1919); à direita Cena da Família, de Adolfo Augusto Pinto (1891)
À esquerda a reprodução da obra A Pátria, do artista Pedro Bruno (1919); à direita Cena da Família de Adolfo Augusto Pinto (1891)

Segundo a historiadora, essa ideia aparece de forma explícita na pintura “A redenção de Cam” (1895), do artista espanhol Modesto Brocos. A obra foi utilizada pelo diretor do Museu Nacional, João Batista de Lacerda, durante o Primeiro Congresso Universal das Raças, realizado em Londres em 1911. “Na ocasião, Lacerda defendia a tese de que a população negra desapareceria no Brasil em poucas gerações por meio da mestiçagem. Na pintura, aparecem três gerações de uma família: uma avó negra, uma mãe mestiça e uma criança branca de olhos azuis”, explica. Para Schwarcz, a imagem sintetiza visualmente o ideal de branqueamento que marcou o pensamento racial brasileiro no final do século 19 e início do século 20.

Schwarcz também analisou a obra “Cena da Família de Adolfo Augusto Pinto”, de 1891, do pintor Almeida Júnior, destacando como elementos da composição revelam hierarquias sociais e de gênero presentes na sociedade brasileira do período. Para a pesquisadora, a repetição desses elementos em diferentes representações visuais indica a existência de narrativas estruturadas sobre identidade, civilização e poder.

Ao comentar a pintura “A Pátria”, de 1919, do artista Pedro Bruno, a professora destacou como a obra expressa uma visão alegórica da República brasileira e da construção da identidade nacional. Produzida no contexto das comemorações republicanas de 1888, a tela apresenta uma cena que, segundo ela, “não poderia ter um título mais evidente”. Na pintura, mulheres e crianças aparecem costurando a bandeira do Brasil e posicionando as estrelas que representam as antigas províncias, hoje estados da República. Os homens, por sua vez, não participam diretamente da cena: estão representados apenas em retratos pendurados na parede, entre eles figuras históricas como Deodoro da Fonseca e Tiradentes.

Na análise, Schwarcz chamou a atenção para a composição da imagem. “As mulheres retratadas são todas brancas e de aparência europeia. A criança que ocupa o centro da tela é descrita como muito branca, loira e de olhos azuis — características que, segundo a interpretação apresentada, reforçam uma representação idealizada do futuro da nação brasileira. Essa imagem vai se afirmar cada vez mais: a projeção do brasileiro como criança branca e loira”, explicou. No chão, a bandeira em elaboração sugere a ideia de que a própria nação estaria sendo “costurada” naquele momento. “Esse é o Brasil que costura sua nacionalidade”, afirmou.

À esquerda, pintura “A redenção de Cam”, do artista espanhol Modesto Brocos (1895) e à direita campanha publicitária de 2019, no qual uma estudante negra, após formada, segura diploma com mão de pessoa branca
À esquerda, pintura “A redenção de Cam”, do artista espanhol Modesto Brocos (1895) e à direita campanha publicitária de 2019, no qual uma estudante negra, após formada, segura diploma com mão de pessoa branca

Durante a aula, Schwarcz exibiu um trecho do filme “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade, de 1969, adaptado na obra de Mário de Andrade. Na narrativa, três irmãos se banham em uma água encantada e, após o mergulho, emergem com cores de pele diferentes — um branco de olhos azuis, outro de tom bronzeado e o terceiro permanecendo negro. Para a pesquisadora, essa passagem “dialoga com representações recorrentes na cultura brasileira que associam mistura racial à hierarquia e ao branqueamento”.

A pesquisadora também mostrou exemplos de campanhas publicitárias, especialmente em anúncios de sabonetes, que prometiam “branquear” a pele. “As mais famosas eu não trouxe porque elas são muito perversas”, afirmou. Também exibiu uma propaganda de 2019 do governo Bolsonaro no qual uma estudante negra, após formada, segura seu diploma com a mão de uma pessoa branca. “É um detalhe apavorante.”

“Não existe pensamento sem palavras, e eu diria que também não existe pensamento sem imagens”, concluiu, citando a educadora Ana Mae Barbosa.

Foto de capa:

Ao longo da aula, apresentou diferentes obras visuais para discutir como as representações artísticas contribuíram para consolidar determinadas interpretações sobre o país
Ao longo da aula, apresentou diferentes obras visuais para discutir como as representações artísticas contribuíram para consolidar determinadas interpretações sobre o país
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