8 de Março, um dia
para celebrar mais mulheres nas
salas de aula,
na pesquisa e
na extensão
Universidade promove ações afirmativas como editais, eventos e disciplinas sobre gênero a fim de apoiar protagonismo feminino no universo acadêmico
O Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, é uma data para lembrar lutas e celebrar avanços frente às desigualdades de gênero que ainda persistem. Na Unicamp, o incentivo às ações afirmativas para ampliar a participação feminina na produção acadêmica – como o “Mais Mulheres na Pesquisa”, da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP), que terá sua segunda edição em 2026, depois de contemplar 25 projetos no ano passado –, a inclusão de disciplinas sobre gênero nos catálogos da universidade e o avanço de projetos de extensão voltados para o universo feminino estão entre os exemplos dessa busca por equidade.
Apesar da presença das mulheres nas salas de aula da Unicamp ser cada vez mais representativa, elas continuam minoria. Entre 2015 e 2025, o número de universitárias matriculadas aumentou 7%, de 1.504 para 1.610, enquanto a porcentagem masculina caiu 2%, de 1.991 para 1.941 matrículas, segundo dados da Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest).
Na comparação entre os cursos, há grandes disparidades. Em 2025, as mulheres seguiam minoria em Engenharia de Computação (11,96%), Engenharia Mecânica (20,57%) e Estatística (25,35%), por exemplo. Já nos cursos historicamente associados ao cuidado e à saúde, como Medicina (55,3%), Enfermagem (75,6%) e Pedagogia (87,7%), as mulheres são maioria.
Conforme os indicadores estratégicos do Planes construídos pelo Escritório de Dados e Apoio à Transformação (Edat), na análise do percentual de alunos matriculados, entre o período de 2019 a 2026, os homens representam 55,4% e as mulheres 44,6% dos estudantes. Na carreira docente, os homens também predominam, com 60,6% contra 39,4%. Já entre os Profissionais de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (Paepe), 59,7% são mulheres e 40,3% homens.

Longo caminho
Karla Bessa, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, professora da pós-graduação em Multimeios no Instituto de Artes (IA) e do doutorado em Ciências Sociais no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), destaca que ainda há “um longo percurso para a equidade de fato acontecer”.
Bessa ressalta que ainda é preciso ampliar a presença feminina nas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), reduzir a disparidade nas bolsas de produtividade e criar políticas específicas para mulheres negras, quilombolas, trans e indígenas, além de ser necessária uma maior integração entre dados, financiamento e avaliação institucional. “Só assim saberemos se as iniciativas que temos feito estão sendo eficientes e quais áreas precisamos aprimorar.”
Atualmente, como vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio (Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências), voltado à equidade de gênero e étnico-racial nas ciências, Bessa diz que a preocupação central é garantir condições adequadas para que mulheres possam estudar e trabalhar. “A violência de gênero no ambiente de trabalho desencadeia sucessivas consequências”, enfatiza. Por isso, o Observatório Caleidoscópio, que Bessa coordena juntamente com as professoras Margaret Lopes (Pagu/Unicamp) e Joana Pedro, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), tem monitorado indicadores relevantes e desenvolvido pesquisas nessa área.
Segundo Bessa, a Unicamp é pioneira com ao menos quatro equipamentos estruturais importantes para receber denúncias, como o Serviço de Atenção à Violência Sexual (Savs), desvinculados dos departamentos. “Ainda há desafios, mas a criação da Diretoria de Direitos Humanos e de uma comissão especializada em sexualidade e gênero para pensar as políticas de equidade e o enfrentamento das violências foram fundamentais”, afirma.
Entre os avanços recentes, Bessa cita a implementação do “botão do pânico” e a criação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab) e do Núcleo da Consciência Trans, que representam “uma conquista relevante, especialmente como espaço de produção acadêmica de mulheres negras e mulheres trans”. Para ela, enfrentar desigualdades estruturais exige ir além do acesso. “As políticas de cotas modificaram o perfil da Universidade, com vestibular indígena e cotas para pessoas negras e trans, mas é preciso garantir permanência e pertencimento”, destaca.

O cenário é complexo, continua a professora. “Persistem disparidades raciais, especialmente no acesso aos cargos de maior prestígio na carreira científica. O número de mulheres negras ainda é reduzido; na pós-graduação, onde as mulheres são maioria, há concentração em áreas como humanidades e saúde, enquanto as áreas tecnológicas ainda apresentam déficit feminino”, completa.
Na área de Exatas, há iniciativas na Unicamp para atrair mais alunas, como o projeto de extensão Elas na Engenharia, da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM), que tem como missão inspirar mais meninas a seguirem carreira nas áreas STEM, além de prestar apoio às alunas do curso, de modo a evitar a evasão e a capacitá-las para futuros cargos de liderança no campo profissional.
Vale destacar que, no ano passado, os cursos de graduação em Engenharia de Controle e Automação e Engenharia Mecânica tiveram aumento no número de ingressantes mulheres. Em 2023 e 2024, elas representavam cerca de 14% do total de ingressos, correspondendo a 26 mulheres em cada ano. Em 2025, a porcentagem chegou a 20%, ou seja, 39 mulheres.
Entre os projetos de extensão, há o M.A.F.A.L.D.A., voltado a estudantes do Ensino Médio de escolas públicas, que tem como objetivo estimular meninas a ingressarem em carreiras nas áreas STEM. O nome é um acrônimo para Meninas na Química, Física e Engenharia para Liderar o Desenvolvimento em Ciência e sintetiza a proposta central do projeto: ampliar a presença feminina em áreas historicamente marcadas pela desigualdade de gênero.
Diversos movimentos e redes têm contribuído para ampliar o debate, como as Mulheres Cientistas da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Parents in Science, as Mulheres Acadêmicas na Unicamp e outros coletivos. Agências de fomento também começam a incorporar medidas de equidade, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que lançou um programa de diversidade e inclusão em 2023. “Além disso, o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] passou a considerar períodos de maternidade na avaliação curricular, e a Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] criou um censo demográfico da pós-graduação, instrumento visto como fundamental para produzir métricas e monitorar desigualdades”, completa.
“A transformação profunda e estrutural da desigualdade de gênero na ciência não acontece apenas aumentando matrículas. Ela exige rever critérios de avaliação, financiamento, cultura institucional e redes de apoio, visto que a permanência e a inserção no circuito acadêmico, ou seja, o reconhecimento das trajetórias é um dado fundamental para avaliarmos a equidade de gênero de modo interseccional e abrangente nas diferentes áreas de conhecimento”, completa Bessa.


Conquistas históricas
A professora Helena Altmann, da Faculdade de Educação Física (FEF), que ministra a disciplina “Gênero e sexualidade nas práticas corporais”, destaca que o 8 de Março é uma data histórica importante para se olhar para o que já foi conquistado, como a própria existência de uma disciplina obrigatória sobre gênero no curso de Educação Física.
“Há muito a ser comemorado, porque a sociedade mudou muito. Mas, muitas vezes, a forma de comemorar recoloca a mulher em um lugar estereotipado, fragilizado, que o movimento feminista justamente reivindicou superar. A data significa a luta das mulheres para ocupar outros lugares: o direito ao voto, ao mercado de trabalho, ao esporte, a cargos de comando, além da luta contra o feminicídio e a violência contra a mulher, que ainda são questões muito presentes”, afirma.
A professora lembra que a disciplina na FEF nasceu da pauta das questões das mulheres dentro do campo da Educação Física e das Ciências Sociais. “Muitas vezes, gênero e sexualidade são marcadores de desigualdade no acesso, na permanência e na profissionalização dentro da Educação Física e dos esportes”, destaca.

Altmann lembra que pesquisas comprovam que as mulheres praticam menos atividades físicas e esportivas do que os homens. “A inatividade aumenta a partir de marcadores sociais como renda, escolaridade e raça. Mulheres negras, com menor escolaridade e com renda mais baixa apresentam menor frequência de prática”, afirma.
A professora enfatiza que o direito das mulheres de praticar esportes “foi uma conquista histórica”. Vale destacar que a legislação brasileira proibiu a prática em dois momentos distintos, em 1941 e em 1965. “A legislação de 1941 dizia que as mulheres não podiam praticar esportes ‘incompatíveis com a sua natureza’. Havia a ideia de que a prática esportiva poderia afetar a capacidade reprodutiva, um tipo de preocupação que nunca foi formulada em relação aos homens.” Em 1965, a legislação explicitou que as mulheres não podiam praticar esportes como futebol, rugby, polo aquático e halterofilismo, modalidades consideradas perigosas para elas. “Isso caiu por volta de 1979, num contexto de abertura política no Brasil.”
Feminismo de dados
Sandra Avila, professora do Instituto de Computação (IC), co-coordenadora do projeto de extensão Meninas SuperCientistas, defende que as ações afirmativas precisam ocorrer em diferentes esferas. “É importante destacar que não começamos do mesmo lugar, já que as mulheres nem sempre tiveram direito de estudar, trabalhar ou votar. Não temos o mesmo histórico.”
Sobre o Dia Internacional da Mulher, Avila reforça que não se trata apenas de uma data simbólica. “É um momento de luta. Não é um dia só, são todos os dias.” A reflexão sobre desigualdades de gênero também atravessa sua atuação docente, com a criação da disciplina “Feminismo de dados”, ministrada na pós-graduação do IC.
“A disciplina discute inteligência artificial (IA) a partir da noção de que dados são poder. Se as pessoas não estão representadas nos dados, não estarão representadas nos modelos. A proposta não se restringe às mulheres, mas às pessoas minorizadas socialmente – mulheres, pessoas negras, indígenas, periféricas, LGBTQIA+, trans, com deficiência, corpos fora do ‘padrão’ e outros grupos marginalizados”, explica.

A primeira turma, em 2025, contou com estudantes de diferentes cursos, com homens e mulheres em número equilibrado, “além de alunos especiais e profissionais do setor privado interessados na discussão”. A disciplina será novamente oferecida no segundo semestre de 2026.
A professora, contemplada na primeira edição do projeto Mais Mulheres na Pesquisa, relata que passou a atuar mais intensamente para enfrentar a desigualdade de gênero na área acadêmica nos últimos anos, com o fortalecimento de iniciativas voltadas à permanência de mulheres na ciência.
Avila destaca que, no projeto Meninas SuperCientistas, criado em 2019, iniciativa que aproxima estudantes do Ensino Fundamental II de pesquisadoras científicas, a ideia é apresentar possibilidades: “São cientistas mulheres apresentando o que fazem para meninas que talvez não se enxerguem nesse mesmo lugar. É clichê, mas é isso: mostrar que elas podem ser o que elas quiserem.”
Foto de capa:

