
O geólogo Álvaro Penteado Crósta foi homenageado nesta quinta-feira (12) ao receber o título de professor emérito da Unicamp. Aos 71 anos, natural de Ribeirão Preto (SP), o professor do Instituto de Geociências (IG) desde 1983 vem colecionando conquistas em sua área e não pretende parar tão cedo. “É emocionante. Dediquei mais de 40 anos à Universidade e agora recebo esta homenagem. Para um geocientista acostumado a medir o tempo em milhões ou bilhões de anos, as poucas décadas de uma carreira acadêmica podem parecer um breve piscar de olhos”, comentou.
O reitor da Unicamp, Paulo Cesar Montagner, que presidiu a cerimônia, destacou a trajetória do homenageado. “Ser professor emérito é uma das mais altas distinções que um docente pode receber. É um ato de gratidão institucional. Mais do que uma distinção formal, é o reconhecimento institucional de uma contribuição que ultrapassa a sala de aula e se projeta na formação de pessoas e no fortalecimento da universidade”, afirmou.


“O professor Álvaro construiu uma carreira de grande impacto nacional e internacional. Formou mestres, doutores e pesquisadores que atuam no Brasil e no exterior, levando a marca da Unicamp, e também teve atuação destacada na vida administrativa, sempre com diálogo, equilíbrio, firmeza de princípios e defesa da universidade pública, gratuita e de qualidade”, completou o reitor.
Crósta continua atuando como professor na graduação e na pós-graduação e fazendo pesquisas no IG. Em 2026, adiantou que já tem dois compromissos no exterior. “Estou dando continuidade a um projeto de estudo de crateras de impacto meteorítico, uma área à qual me dedico junto com grupos internacionais, e agora vou para um congresso na Escócia, porque estamos estudando crateras no fundo do mar. Tenho também uma ida à China em agosto para falar em um congresso de mineralogia”, contou.
O professor destaca-se por seu pioneirismo nos estudos sobre geologia planetária. “Na graduação, implantei a disciplina de Introdução à Geologia Planetária, que é a única do Brasil. Nos países do Hemisfério Norte, por exemplo, já é uma disciplina comum no currículo, mas aqui não havia. Resolvi começar a oferecer a disciplina há cinco anos, e tem tido uma boa aceitação”, ressaltou.
Crósta começou a se interessar por geologia ainda na adolescência. “Fui capturado pela imaginação de Julio Verne, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e outros autores de ficção científica. Talvez eu tenha escolhido estudar a geologia da Terra inspirado por eles, ao olhar para os astros e desejar compreender como os mundos são moldados. Ou, quem sabe, já estivesse predestinado à geologia por causa do meu sobrenome”, brinca.
O professor ressalta “o enorme privilégio de ser formado integralmente na escola pública, da pré-escola à pós-graduação”. Graduou-se na Universidade de São Paulo (USP) e fez seu mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “Foi sob orientação do professor Gilberto Amaral, que me estimulou a investir no sensoriamento remoto por satélite como tecnologia inovadora para o levantamento de recursos naturais e o avanço do conhecimento geológico do Brasil.”

Após o doutorado no Imperial College London, no Reino Unido, orientado pelo professor John Moore, com quem se relaciona até hoje, foi pesquisador-visitante no Laboratório de Propulsão da Nasa (EUA), na Universidade de Nevada (EUA), e também nas universidades de Viena (Áustria) e Humboldt (Alemanha), além de ter atuado como professor convidado do Instituto de Petróleo da Universidade Khalifa, nos Emirados Árabes Unidos.
“Ingressei na Unicamp em 1983, convidado pelo professor Bernardino Figueiredo. O Instituto de Geociências era pequeno, com estrutura limitada, mas havia enorme entusiasmo. Foi um período desafiador e, ao mesmo tempo, extremamente fértil em ideias, planejamento e construção coletiva”, lembrou. Na Unicamp, participou da implantação do Laboratório de Processamento de Informações Georreferenciadas (Lapig), do IG, que se tornou referência brasileira em pesquisas e aplicações em geoprocessamento, e ainda fundou um grupo de pesquisa em geotecnologia.
Crósta testemunhou o crescimento da Unicamp e trabalhou na gestão universitária, com os reitores Hermano Tavares e José Tadeu Jorge. “Tenho orgulho de ver a Unicamp ampliar o acesso e investir fortemente em permanência estudantil, garantindo que estudantes de diferentes origens possam não apenas ingressar, mas concluir sua formação”, completou.

Fernando Coelho, coordenador-geral da Unicamp, destacou a atuação de Crósta na Unicamp. “Vejo algo que considero fundamental: a combinação entre excelência acadêmica e compromisso institucional. O professor Álvaro construiu uma carreira científica de alto nível e, ao mesmo tempo, dedicou-se à gestão universitária. Uma coisa não atrapalha a outra — pelo contrário, se complementam”, afirmou.
Contribuição
O diretor do IG, Emilson Leite, destacou duas das muitas contribuições de Crósta para a área. “A primeira é o livro publicado em 1992 pela Editora da Unicamp, Processamento Digital de Imagens e Sensoriamento Remoto, obra que teve grande impacto na formação de alunos da área. Mesmo publicada em português, alcançou mais de 1.100 citações na literatura científica — um número extremamente expressivo para o campo das geociências”, afirmou.
A segunda contribuição é o que a literatura internacional passou a chamar de “técnica Crósta”, apresentada em 1989, em uma conferência no Instituto de Pesquisas Ambientais de Michigan (EUA). “Trata-se de uma metodologia aplicada a imagens de satélite para identificar, por meio de análise espectral, zonas de alteração hidrotermal associadas a depósitos minerais de grande importância econômica”, explicou.
“Ver o nome de um pesquisador brasileiro associado a uma técnica amplamente citada internacionalmente é muito significativo, especialmente em um país que historicamente importou metodologias e tecnologias desenvolvidas no exterior. Ter uma contribuição reconhecida com identidade própria é motivo de grande orgulho para a ciência brasileira.”
Os professores Cleyton Carneiro, da Escola Politécnica da USP, e um dos muitos alunos de Crósta, e João Frederico da Costa Azevedo Meyer, do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc), padrinhos de Crósta, destacaram o homenageado. “É com enorme orgulho que agradeço, em nome de todos que formou, por sua trajetória, sua obra, sua humanidade e, sobretudo, sua luz. Que ela continue a percorrer o universo, inspirando e transformando”, declarou Carneiro.
“Tenho orgulho de dizer: Álvaro é um grande homem, um notável companheiro, um docente exemplar e um ser humano profundamente exigente consigo mesmo e generoso com os outros. É alguém de quem aprendemos ciência — e, sobretudo, humanidade”, completou Meyer.
Ao apresentar o homenageado, o professor Luiz Carlos Dias, do Instituto de Química (IQ), destacou ainda o trabalho do geólogo na identificação e caracterização de crateras de impacto no Brasil. “É uma grande honra vê-lo reconhecido como professor emérito da Unicamp. Que esta homenagem reflita todo o respeito e admiração que sentimos por sua trajetória — tão impactante quanto as crateras que ajudou a descobrir.”
Confira a cerimônia
