Diante de um cenário de aprofundamento da desigualdade social e de ocorrências de tragédias naturais provenientes das alterações climáticas, um novo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) sediado na Unicamp, que começa a operar em março deste ano, pretende apresentar às gerações mais jovens alternativas de organização socioeconômica mais solidárias e sustentáveis, focadas no bem-estar social e na saúde ambiental. O Instituto também se propõe a fomentar a cidadania participativa e democrática por meio da criação de um aplicativo que permite a comunicação entre governo e cidadãos.
O Instituto de Informação para uma Economia Solidária e Sustentável (INE2S) está instalado no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), o primeiro e único Centro Interdisciplinar de Pesquisa da Unicamp a sediar um INCT. Os centros de pesquisa interdisciplinar da Unicamp são subordinados à Coordenadoria de Centros e Núcleos interdisciplinares de Pesquisa (Cocen), responsável hoje por 23 centros e núcleos.
O INE2S, que tem duração prevista de cinco anos, foi aprovado na última chamada do programa, realizada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) em 2024, cujos resultados foram divulgados em 2025. O Instituto foi contemplado com cerca de R$ 10 milhões em recursos.

A interdisciplinaridade é um dos pontos fortes da proposta, que apresenta características incomuns para um INCT. A ideia do projeto nasceu dentro de um grupo interdisciplinar que atua no CLE desde o final da década de 1980, o Grupo Interdisciplinar Auto-Organização, que trabalha temas como teoria de sistemas, auto-organização, informação e complexidade – sob o comando da professora Itala D’Ottaviano, coordenadora do novo INCT.
“Arriscamos duplamente [na apresentação da proposta], porque, além de ser um tema de ponta, uma novidade, também submetemos [a proposta] na área de filosofia – e a grande maioria dos INCT aprovada, em geral, está nas áreas de biológicas e de exatas”, explica D’Ottaviano, que celebra a aprovação do projeto com uma nota alta na seleção.
Outro diferencial é a abordagem extensionista do projeto, uma vez que prevê contato direto com a comunidade a partir da criação de núcleos em diferentes cidades. Até o momento, já existem nove núcleos organizados em Campinas, Botucatu, Marília, São Carlos, Limeira, Rondonópolis, Belém, Rio de Janeiro, Terra Indígena Canauanim e Bonfim (RR), além de outros em análise.
Esses grupos trabalharão diferentes temas em parceria com escolas locais, em especial com as turmas de ensino médio, aproveitando vocações regionais e as áreas de pesquisas dos participantes.
O público-alvo do projeto envolve desde comunidades indígenas, ribeirinhos, comunidades urbanas socialmente vulneráveis, entre outras. “Vamos abarcar várias áreas importantes que afetam questões sociais, de sustentabilidade, minorias, questões de gênero, preservação da vida senciente, desigualdade, questões de etnia e outras”, afirma D’Ottaviano.

Pesquisa-ação
O vice-coordenador do INE2S, Alfredo Pereira, que é docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica que a motivação é conscientizar os estudantes a respeito de novas perspectivas de empreendedorismo que não visem apenas o lucro e o ganho pessoal, incentivando-os a criar iniciativas de geração de emprego e renda e de auto-organização popular.
“Os jovens estão sem perspectivas. A humanidade vive duas crises. Uma delas é a desigualdade e a falta de oportunidades com a introdução da inteligência artificial. A outra é a ambiental, que gera a necessidade de mudarmos o modelo econômico e termos práticas mais sustentáveis”, argumenta Pereira.
Para o desenvolvimento do trabalho, o INCT planeja utilizar a metodologia da pesquisa-ação, que combina a investigação de um tema com o diálogo com a sociedade. “Estamos muito animados com a possibilidade de trazer a nossa expertise – que é mais teórica, mais ligada ao pensamento crítico, à complexidade – e fazer essa ponte com o concreto, a ação. E não tem ninguém que conhece melhor os problemas locais do que a comunidade, então essa troca é fundamental”, destaca Fábio Bertato, pesquisador, vice-diretor do CLE e tesoureiro do INE2S.
Bertato pontua, ainda, que essa ponte teoria-prática exige formação dos participantes. Nesse contexto, os envolvidos nos núcleos participarão anualmente de ações de capacitação ofertadas pelo Instituto, tanto presenciais quanto virtuais. O projeto conta, também, com verba para a disponibilização de 200 bolsas em diferentes níveis, podendo contemplar desde alunos do ensino médio, professores municipais até pós-doutorandos.
“O INCT estar sediado em um centro de pesquisa coaduna com os objetivos da Universidade de potencializar suas ações com a sociedade. Isso dá um grau ainda maior de institucionalidade para todo o processo”, destaca o secretário executivo do INCT, Marcelo Phaiffer.
Apesar de os institutos estarem instalados fisicamente em instituições brasileiras de excelência, os trabalhos são interconectados com várias regiões e pesquisadores. O INE2S é composto por cerca de 30 pesquisadores de diferentes instituições. Além do CLE, também da Unesp – Campi Marília e Botucatu; Universidade de São Paulo (USP); universidades federais de São Carlos (UFSCar), de Rondonópolis (URF, no Mato Grosso), do Pará (UFPA), de São João del Rei (UFSJ, MG), de Uberlândia (UFU), do Paraná (UFPR), do Mato Grosso do Sul (UFMS), de Minas Gerais (UFMG), da Paraíba (UFPB) e de Pernambuco (UFPE).

Cidadania
Além da interlocução direta com a juventude, o INCT também atuará na divulgação de informações via redes sociais. “Vamos agir circulando informações que mostrem essas possibilidades, a fim de incentivar as novas gerações a se tornarem empreendedoras, dentro do chamado empreendedorismo social”, esclarece Pereira.
Somado a isso, o docente destaca como um dos resultados principais do INCT a criação de um canal de comunicação “de baixo para cima” entre o povo e os governantes. Por meio de um aplicativo, a ser desenvolvido e vinculado ao sistema informatizado governamental, os cidadãos poderão enviar suas demandas e reinvindicações. Essas informações serão compiladas e organizadas em relatórios, com o auxílio da inteligência artificial, e encaminhadas para a esfera pública pertinente.
“Não existe, hoje, uma ferramenta para a população, continuamente, participar [da gestão pública] por meio das suas avaliações, sugestões e solicitações. Acreditamos que a inteligência artificial pode ser usada em prol da democracia. Essas informações fornecerão subsídios para que a sociedade possa cobrar condutas mais eficazes e eficientes dos governantes”, afirma Pereira.
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