Estudantes da Fecfau elaboram plano de melhorias
para o Residencial Jardim Bassoli, em Campinas
Projeto foi desenvolvido a partir das demandas da comunidade, em especial das crianças
Estudantes e docentes do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unicamp (Fecfau) apresentaram, aos moradores do conjunto habitacional Jardim Bassoli, na região oeste de Campinas, e a representantes do poder público municipal, ideias de melhorias para os espaços comuns e condomínios. O trabalho é resultado de uma ação de extensão, iniciada no primeiro semestre de 2025, em parceria com o Grupo Institucional do Poder Público (GIPP) do Jardim Bassoli, e foi desenvolvido a partir das demandas da comunidade, em especial das crianças.

A reunião ocorreu no Condomínio R, um dos 19 condomínios residenciais do bairro, em novembro. A expectativa é que a iniciativa sirva como um projeto piloto para a criação de uma metodologia replicável em outros territórios, com foco na ocupação mais sustentável dos espaços. “Essa foi uma primeira aproximação, porque pretendemos fazer um trabalho contínuo, de modo a colaborar e apoiar a governança [municipal]”, explicou a professora da Fecfau Fabricia Zulin.
Os projetos foram desenvolvidos por alunos da disciplina AU144 – Arquitetura de Interesse Social– ministrada pelas professoras Zulin e Silvia Mikami –, que conta com um vetor extensionista e já tem um longo histórico de trabalho com outras comunidades. Além disso, três alunas estão desenvolvendo seus projetos de Trabalho Final de Graduação (TFG), com base no Jardim Bassoli.
A disciplina uniu a proposta de pensar a expansão do bairro para uma nova área adjacente, ainda não urbanizada, com outra voltada para melhorias nos espaços públicos do atual Residencial Jardim Bassoli e nas áreas coletivas dos condomínios, a partir de um diagnóstico de campo.
Algumas das soluções das cinco equipes incluíam, por exemplo, áreas específicas para comércios, espaços de lazer e convivência e melhorias nas rotas até as escolas. A conexão do local com outros bairros seria solucionada por meio de uma passarela de ligação, e os estudantes projetaram uma nova sede do Projeto Gente Nova (Progen) – organização da sociedade civil que desenvolve trabalhos de convivência e fortalecimento de vínculos com crianças, adolescentes e adultos no Jardim Bassoli há quase 12 anos.
Dentro dos condomínios, pensou-se na criação de pequenos depósitos, pintura dos prédios, espaço para oficinas e reformas pontuais. “O trabalho se encaixa com o que está sendo discutido nas reuniões do GIPP e nas oficinas com as crianças”, reiterou a docente.
Para o aluno Isaac Silva, a disciplina descortinou uma nova visão da arquitetura e dos desafios de lidar com questões sociais complexas, a exemplo do grande número de moradores no conjunto habitacional – cerca de 7.500 – e da criminalidade presente no cotidiano da comunidade. “Ter essa noção, dentro da habitação social, é muito importante para nossa formação como arquitetos e urbanistas.”

Silva destacou o projeto do parque de lazer infantil, que contemplou medidas para lidar com o problema de saneamento, utilizando áreas verdes. “Conseguimos solucionar isso de uma forma legal com fitorremediação, plantas que eles podem plantar, além das hortas, que já são uma atividade comum aqui.”
Visibilidade
Elisângela da Costa é síndica do Condomínio R e se engaja nos assuntos da comunidade. Ela acompanha o projeto da Unicamp desde o início e conta que, quando os moradores se mudaram para o bairro (a partir de 2012), não havia serviços como posto de saúde, escola e creche. Apesar de algumas melhorias, “tem muita coisa que precisa ser adaptada ainda, porque o bairro não tem uma escola própria [somente creche]; o Cras [Centro de Referência de Assistência Social] foi colocado lá no Parque Floresta [bairro próximo] e fica longe para irmos. Também estamos lutando por um ecoponto.”
Para a assistente social e coordenadora do Progen, Rita Gonçalves, os projetos apresentados pela Unicamp reconhecem as demandas locais e a necessidade de políticas públicas para garantir o acesso a direitos. “Ainda que [o bairro] esteja em Campinas, está em um território muito distante. A Unicamp estar aqui traz visibilidade para essa comunidade que tem suas vulnerabilidades, mas também é potente. Envolver e ouvir a população constrói cidadania.”
Conforme Conceição Pires, servidora da secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Urbano da Prefeitura de Campinas, o GIPP do Jardim Bassoli – que foi instituído em 2024 e conta com representantes de diferentes secretarias municipais – é um caminho para construção dessas políticas públicas. “Não há solução pronta, esses espaços estão abrindo condições para um trabalho conjunto na construção de um plano de bairro, e a Unicamp pode colaborar nesse sentido.”

Olhar infantil
A interação com a comunidade aconteceu em diferentes momentos. Durante atividade do programa estadual “Viva o leite”, por exemplo, a turma aplicou um questionário e entrevistou mães. Em outras duas visitas, em abril e em junho, foram realizadas oficinas utilizando uma metodologia participativa de projeto de bairro com e para crianças e adolescentes, desenvolvida pela professora Matluba Khan, da Cardiff University (Reino Unido).
Na ocasião, devido a um convênio com a Unicamp, Khan estava em Campinas, com articulação do professor da Fecfau Sidney Bernardini. A professora treinou os alunos para a aplicação da metodologia e participou das oficinas no Jardim Bassoli, realizadas com aproximadamente 50 jovens de 7 a 14 anos.

Estudante da disciplina, Raíssa Demattê relatou que aprendeu a olhar para o planejamento urbano a partir da perspectiva e das escalas infantis, com atenção para demandas como bebedouros nas quadras, espaços de convivência, escolas, banheiros, pomares e outras. “Tudo isso faz parte de um planejamento que contempla todos os que convivem na comunidade. As crianças têm muito a acrescentar com esse olhar da rua em uma ‘altura menor.’”
“É impressionante como se interessam em mostrar seu cotidiano. Muitas vezes, essa visão é ignorada, então essa metodologia mostra a potência dessa percepção sobre os espaços”, ressaltou Zulin.
Nas oficinas, as crianças demarcaram em mapas áreas de que gostam e de que não gostam, fotografaram espaços do bairro durante uma caminhada e criaram maquetes e desenhos para simbolizar o bairro que desejam para o futuro. Depois, votaram as propostas que consideravam prioritárias a curto, médio e longo prazos. Em curto prazo, priorizaram a melhoria do parquinho ao lado do Progen, o fornecimento de água para todos (devido a problemas com as caixas d’águas de alguns condomínios) e o conserto das escadas de prédios, que apresentam problemas estruturais.

Continuidade
A partir dessa primeira experiência com a metodologia proposta por Khan, Zulin conta que a ideia é expandir esse projeto para incluir todas as crianças matriculadas nas escolas públicas no entorno do Jardim Bassoli – cerca de 1.500 jovens de 6 a 14 anos.
A proposta foi contemplada pelo edital da Pró-reitora de Pesquisa (PRP) “Mais Mulheres na Pesquisa” e prevê o fortalecimento da cooperação internacional entre a Unicamp e a Cardiff University, adaptando a metodologia ao contexto brasileiro.
Por meio da escuta das crianças, a partir de 2026, espera-se consolidar um Plano de Bairro preliminar colaborativo e autogerido. “Queremos criar uma plataforma em que seja possível a manutenção desse plano de forma que os moradores possam interagir, atualizar e aprimorar”, informou Zulin.
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