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AEL e Me Too Brasil assinam convênio para tratamento do maior acervo de lutas feministas da América Latina

Coleção do Centro de Informação Mulher reúne cartazes, vídeos e grande volume de documentos  

O Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, e a ONG Me Too Brasil assinaram um convênio para acelerar o tratamento do acervo do Centro de Informação Mulher (CIM), considerado o maior conjunto documental da América Latina dedicado às lutas feministas, doado à Universidade em 2023. 

Pelo acordo, a ONG, que atua no enfrentamento à violência sexual e no apoio jurídico, psicológico e social de mulheres, vai apoiar ações de preservação, higienização e acondicionamento do material, enquanto o AEL segue com a responsabilidade pela orientação técnica, restauro e elaboração da listagem para acesso público. 

“Tendo em vista o volume de documentos, ainda vai demorar para todo o acervo ser devidamente inventariado, mas o AEL dá acesso a consulentes interessados, seguindo as regras do arquivo, enquanto o material é processado. Neste momento, estão sendo feitas as primeiras etapas de tratamento, de higienização e acondicionamento do material em áreas específicas de guarda de acervos. À medida que o trabalho avançar, e também sob demanda, serão feitas exposições e debates”, adianta o diretor do Arquivo, Mário Medeiros. 

A advogada Marina Zanatta Ganzarolli: reconhecimento dos direitos humanos
A advogada Marina Zanatta Ganzarolli: reconhecimento dos direitos humanos

A iniciativa do convênio foi proposta pela presidente da ONG, a advogada Marina Zanatta Ganzarolli. “Para a Me Too Brasil, essa parceria com o Arquivo Edgard Leuenroth se insere no contexto da preservação da memória e da conservação não apenas dos movimentos de mulheres e feministas e do movimento LGBTQIAPN+, mas, especialmente, dos movimentos sociais populares que se organizaram em torno da defesa e do reconhecimento dos direitos humanos desses movimentos. Esse é um campo de interesse direto da instituição, considerando sua missão de acesso à justiça e de defesa dos direitos humanos das mulheres”, afirma. 

“Os documentos do CIM estavam armazenados em um contêiner. A nossa atuação entra justamente com esse aporte para que a conservação e a catalogação desse material sejam iniciadas, possibilitando que os documentos fiquem disponíveis para o maior público possível. Isso permite o desenvolvimento de mais pesquisas e estudos em torno da preservação e conservação dessas memórias, que são extremamente importantes.

Descobri que esse acervo estava armazenado em um contêiner porque tentei acessá-lo para o trabalho de campo do meu doutorado e não consegui”, ressalta Ganzarolli.

Além do tratamento do acervo, o acordo prevê a formação de uma rede de pesquisa dedicada à preservação da memória feminista e à prospecção e captação de novos acervos ligados ao combate à violência contra as mulheres. “A parceria com a Me Too Brasil vai possibilitar minimamente o acesso a essa documentação”, comemora a supervisora da preservação e difusão do AEL, Castorina Augusta Madureira de Camargo. 

Marta Baião, diretora do CIM, e Mario Medeiros, diretor do AEL, durante assinatura do acordo de doação do acervo
Marta Baião, diretora do CIM, e Mario Medeiros, diretor do AEL, durante assinatura do acordo de doação do acervo (Foto: Divulgação AEL)

História preservada

Duas pesquisas foram fundamentais para a doação do acervo do CIM ao AEL. “Sob minha orientação, a aluna de mestrado Milene Marques Matos estudava a organização de mulheres negras em São Paulo no contexto da redemocratização após a ditadura e necessitava de material sobre o Conselho da Condição Feminina de São Paulo [que se tornou a dissertação “O feminismo é negro: Sueli Carneiro, ativismo intelectual e políticas para mulheres no Brasil”, 2022]. Na mesma época, a estudante de doutorado Iasmim de Araújo Vieira, sob orientação da professora Bárbara Castro, também buscava documentação sobre organizações feministas em São Paulo [que se tornou a tese “Entre conflitos e diálogos: demarcações de diferenças nas relações políticas e raciais entre mulheres nos Fóruns de Discussão Feminista em São Paulo (1981-1985), 2025]”. Assim, ambas as pesquisadoras chegaram ao CIM, onde encontraram o material e nos informaram da importância do centro e também das dificuldades pelas quais passava”, conta o diretor.

Chegada do acervo no AEL em março de 2023 (Fotos: Divulgação AEL)
Chegada do acervo no AEL em março de 2023 (Fotos: Divulgação AEL)

Na época, a sede do CIM, no centro de São Paulo, ficava em um prédio em litígio com o governo federal. “O acervo do CIM é certamente um dos grandes conjuntos documentais que preservam a memória de organizações de mulheres no Brasil. Desde 1981, quando foi criado, o CIM se propôs a preservar cartazes, livros, atas de reuniões e fotografias, entre outros materiais, não apenas do território nacional. Nele também existe farta documentação do continente americano, europeu, africano e asiático”, explica Medeiros. “O CIM foi criado por Miriam Botassi, Rosa Beatriz Gouvêa e Sônia Cailó, mulheres que infelizmente já faleceram, e o acervo estava sob a responsabilidade da atriz e ativista feminista Marta Baião e do ator e produtor cultural Décio Filho quando foi recebido pelo AEL. Após meses de entendimentos, recebemos o material, antes que o centro sofresse a ação de despejo. Isso ocorreu entre 2021 e 2022. O acervo chegou na Unicamp em 4 de março de 2023”, lembra o diretor. 

No ano passado, Ganzarolli entrou em contato com o Arquivo para saber das possibilidades de apoio ao tratamento do acervo. “Ela conhece bem o AEL também pelo fato de ser filha de uma antiga funcionária do arquivo, Elaine Zanatta. Para nós, essa cooperação é muito importante, pois fortalece o compromisso do arquivo com a preservação de histórias de mulheres e fomenta pesquisas e difusão pública”, diz Medeiros.

O acervo tem 238 metros lineares, incluindo 105 metros de documentação textual, 92 metros lineares de revistas e folhetos encadernados, 14 metros de jornais, 7 metros de fotografias, 10 metros de cartazes
O acervo tem 238 metros lineares, incluindo 105 metros de documentação textual, 92 metros lineares de revistas e folhetos encadernados, 14 metros de jornais, 7 metros de fotografias, 10 metros de cartazes

“Em relação a essa parceria especificamente, o meu envolvimento familiar com o Arquivo Edgard Leuenroth e com a Unicamp certamente teve uma influência significativa. Cresci acompanhando minha mãe, mãe solo, em seu trabalho entre os arquivos e junto aos estudantes que atuavam na conservação da documentação. Ela foi diretora do AEL por muitos anos, o que estabeleceu uma relação pessoal profunda com esse arquivo, reconhecido como o maior acervo de movimentos sociais da América Latina”, destaca Ganzarolli.

“Quando falamos de preservação, conservação e memória, faz muito sentido que esses acervos estejam reunidos em um único lugar. Na nossa opinião, o AEL é esse lugar, pois já abriga o acervo do Geledés Afro-Memória e o acervo do CIM, incorporado após o despejo da organização. Temos interesse que outros acervos também sejam encaminhados para o AEL, para que ele se consolide ainda mais como um grande polo de memória dos movimentos sociais”, completa a advogada.

Após a chegada do acervo, o AEL passou também a integrar a Rede de Arquivos de Mulheres (RAM). “É uma importante rede de instituições públicas e privadas que se dedica a salvaguardar e dar acesso à memória social de mulheres e produzir referências para o tempo presente e futuro”, destaca Medeiros.

Salvaguarda da memória

No Arquivo, a unidade de medida usada é o metro linear, que corresponde aproximadamente a uma prateleira de estante, explica o coordenador de Serviços, Humberto Innarelli. “O acervo do CIM é de grande porte. Estima-se um prazo de cerca de três anos para a organização completa. Hoje, o foco do AEL é a salvaguarda da memória. O acesso pleno vem depois.”

Segundo Marcos Vinícius Lopes, supervisor da seção de tratamento da informação, o acervo tem 238 metros lineares, incluindo 105 metros de documentação textual, 92 metros lineares de revistas e folhetos encadernados, 14 metros de jornais, 7 metros de fotografias, 10 metros de cartazes, com aproximadamente 5 mil itens, e 10 metros lineares de registros multimídia. 

O coordenador de Serviços, Humberto Inarelli e a supervisora da preservação e difusão, Castorina Augusta Madureira de Camargo
O coordenador de Serviços, Humberto Inarelli e a supervisora da preservação e difusão, Castorina Augusta Madureira de Camargo: unidade de medida é o metro linear

Cartazes que contam histórias

Entre os destaques do acervo estão cartazes que retratam momentos históricos do movimento feminista. “Tudo foi preservado com muita luta”, contou Marta Baião na ocasião da doação. “Os cartazes são preciosos, talvez uma das maiores coleções de cartazes feministas do Brasil, possivelmente da América Latina. Esse volume expressivo também se explica pela efervescência militante dos anos 1980, no contexto da transição democrática. Mais recentemente, com novos ataques a movimentos sociais, muitos acervos passaram a ser doados ao AEL, que hoje guarda cerca de 4 mil metros lineares de documentação”, destaca Innarelli.

Em visita ao AEL, o Jornal da Unicamp conferiu alguns dos cartazes da coleção. “Muitos dos nossos acervos têm bastante documentação textual, jornais e boletins, mas não têm o mesmo impacto visual que um cartaz. Para a comunicação nas redes sociais, cartazes e fotografias fazem muita diferença”, diz Marina Rebelo, da equipe de Difusão. Quando começaram o tratamento do material, “a sensação foi de que se abriu um universo novo para pensar a divulgação”, contou. 

“Nesse recorte de gênero, receber um conjunto com cerca de 5 mil cartazes é algo inédito. Para a Difusão, os cartazes são uma preciosidade, porque carregam a linguagem estética de cada geração, articulam pautas e comunicam rapidamente”, destaca. 

Além dos cartazes, há também fanzines, jornais, boletins, vídeos, DVDs, gravações e muito mais. “Muitas vezes, no calor da militância, não se percebe a singularidade histórica do material produzido. Nem todos os grupos e militantes têm essa consciência. O CIM tinha essa preocupação, o que permitiu um processo sistemático de captação”, completa Rebelo.

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Foto de capa:

A servidora Marina Rebelo, da equipe de Difusão: 5 mil cartazes
A servidora Marina Rebelo, da equipe de Difusão: 5 mil cartazes
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