O Instituto de Economia (IE) da Unicamp celebrou, nesta quarta-feira (26), os 50 anos de duas obras basilares do pensamento econômico brasileiro: O Capitalismo Tardio, de João Manuel Cardoso de Mello, e Valor e Capitalismo, de Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo. Os autores foram homenageados em evento realizado no auditório do IE, com a presença de Belluzzo e a participação remota de Mello. Originárias de teses defendidas pelos dois economistas, as obras lançadas em 1975 permanecem como referência de análises econômicas tanto na esfera das políticas públicas do país quanto na esfera acadêmica.
“As obras instituíram uma forma original de pensar o Brasil e o capitalismo, contribuindo para a fundação do pensamento econômico da Escola de Campinas”, disse o professor do IE José Dari Krein, que presidiu a mesa da cerimônia, na presença de estudantes, professores e convidados especiais, como o economista Luciano Coutinho, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), de 2007 a 2016, e professor aposentado do IE. “Celebramos não apenas para rememorar, mas também para refletir sobre o futuro e para renovar nossa capacidade de reflexão, além de reforçar nosso compromisso ético e intelectual com o país”, disse Krein.


Para Coutinho, Belluzzo e Mello foram pensadores que aprofundaram uma reflexão moderna em relação ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil. “João Manuel (Cardoso de Mello) em sua tese ofereceu uma explicação inovadora sobre o desenvolvimento da economia brasileira a partir do complexo do café, quando o capitalismo se enraíza no Brasil e se desenvolve. Ele aborda como essa trajetória levou a um projeto de industrialização do Brasil, com uma interpretação que trouxe uma contribuição original extremamente relevante para a compreensão do país, inclusive no cenário atual. O professor Belluzzo, por sua vez, conseguiu sintetizar uma reflexão sobre como o movimento do capitalismo se faz numa economia onde o sistema monetário é essencial à própria dinâmica do capital e como esse processo se desenvolve numa economia periférica, com uma reflexão em nível teórico que se aplica a essa transição”, discorreu o economista.
“Foram, portanto, contribuições seminais muito relevantes, que inspiraram um grande debate. Não foram as únicas contribuições do Instituto, mas foram duas especialmente luminares. Acho muito justa essa celebração”, disse Coutinho.
“Sou grato pela homenagem, mas sou apenas um militante do Instituto de Economia”, afirmou Belluzzo, que prestou sua homenagem a outros nomes do IE, entre eles Wilson Cano e Maria da Conceição Tavares. “Foi um trabalho coletivo”, defendeu, atribuindo à sua formação jesuítica a postura de não “se bacanear”. “Tenho dificuldade de achar que tenho mérito”, disse o economista, destacando, ainda, a participação de Luciano Coutinho.

Reconhecimento acadêmico
Durante a cerimônia, o diretor do IE, Célio Hiratuka, falou sobre a importância das obras para a atual conjuntura: “Vivemos hoje em um mundo em mudança, que aponta desafios cada vez maiores. São obras que iluminam, como faróis.”
A homenagem também teve a participação de estudantes. A presidente do Centro Acadêmico da Economia (Caeco), Mariane Loss Jardim, falou como representante da graduação. “É uma honra estar diante de pessoas tão importantes que lançaram as bases de uma identidade intelectual. João Manuel, em Capitalismo Tardio, nos mostra uma maneira única de pensar a Economia e nos ensina que interpretar o Brasil é um ato que requer coragem. Nossa história não é um mero reflexo atrasado da história da Europa. Em Valor e Capitalismo, Belluzzo nos ensina que a Economia é um campo de disputa social e política. Esses livros são nossas ferramentas. Por tudo isso, nosso mais sincero agradecimento, pelas obras e pela postura. Vocês nos formaram e continuam nos formando.”
Como representante dos estudantes de pós-graduação, o economista Iago Montalvão destacou a grandeza das teses que, 50 anos depois, são celebradas. “Elas nos deram as raízes críticas que nos fazem enxergar a Economia como instrumento de transformação e não como forma de pensamento estático.”

Uma ciência social
Por videoconferência, Mello agradeceu a homenagem: “Muito obrigado a todos. Mas gostaria de despersonalizá-la. Eu era apenas um jovem de 33 anos de idade.” Segundo Mello, duas grandes correntes do pensamento deram base à sua formação, desde as décadas de 1960 e 1970: a Economia política da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal) e as ideias da escola de sociologia do Instituto de Filosofia e Ciência Humanas (IFCH), onde começou a germinar o que viria a ser o IE, primeiro como Departamento de Economia e Planejamento Econômico (DEPE) do IFCH.
“Essa confluência nos deu a base para repensar a economia fazer a crítica ao capitalismo”, disse Mello. “Economia é uma ciência social. Não é, não pode ser, nem será uma ciência dura, porque é permeada por valores conflitantes. Há os que querem conservar e os que querem transformar”, completou o economista, que chegou à Unicamp em 1967, um ano antes de Belluzzo. “Fui o décimo professor do Instituto”, recordou Mello.
Mello celebrou a própria criação da Unicamp, “que foi pensada para ser uma universidade de pesquisa e de reflexão”, mencionando Zeferino Vaz como grande fundador e dirigente. “Conservador, é verdade, mas um homem de alta sabedoria.” Após recordar episódios vividos na universidade, Mello falou que considera as atuais condições políticas e sociais ainda mais adversas que nas últimas décadas do século passado. “O Brasil hoje é um desafio. É necessário revitalizar. Tudo precisa ser discutido”, avaliou.
“O conhecimento é uma coisa que você não pode congelar. Você tem sempre que estar pensando ou desconfiar daquilo que você escreveu, se não a ciência não avança.” Belluzzo voltou ao assunto de sua obra em um livro mais recente, O Capital e suas metamorfoses, que é uma extensão de Valor e Capitalismo.
Nos tempos da ditadura
Belluzzo lembrou das circunstâncias em que foram lançados os livros, marcadas pela ditadura militar no Brasil. “Vale lembrar que eu, César Lattes e Hilda Hilst fomos ameaçados de morte. Estávamos marcados para morrer.” O professor também recordou, durante entrevista minutos antes da cerimônia, que as obras foram lançadas no mesmo ano em que foi morto pela ditadura o jornalista Vladimir Herzog, em 1975.
De acordo com o economista, os livros foram publicados também graças ao então reitor da Unicamp, Zeferino Vaz, que se empenhava na autonomia universitária. “Quem garantiu nossas teses, que comemoramos hoje, foi Zeferino Vaz. Naquele momento, era um risco escrever citando alguns autores”, lembrou Belluzzo. “Zeferino Vaz nos deixou fazer teses que eram subversivas. Ele foi muito importante na criação do DEPE; foi um construtor dessa universidade sob qualquer ponto de vista. Tenho uma grande identificação com a Unicamp, de cuja construção participei. Não é uma questão de orgulho, mas é uma sensação de ter prestado um serviço.”
O economista recorda o ambiente de diálogo que existia entre os professores do Instituto naquele momento. “Discutíamos as ideias.” Para Belluzzo, é importante contar as histórias que poucos conhecem. Ele lembra que, em 1968, Dilson Funaro, então secretário de Planejamento de São Paulo, convidou-os para assessorá-lo. “Ele perguntou como estava a Unicamp, recém-criada. Dissemos que estava sem dinheiro, porque Zeferino vagava atrás de recursos para a universidade. Funaro falou com o governador Abreu Sodré, e, a partir dos anos 1970, assistimos à construção do campus que vemos aqui.” Nos anos 1980, Belluzzo também foi assessor econômico de Ulysses Guimarães.
“Fico satisfeito de saber que vocês estão aqui sob o manto da Unicamp. A mensagem que quero deixar é que exercitem sempre a dúvida. Se você não tem dúvida, você fica dogmático, e o dogmatismo é uma prisão. O importante é não ser arrogante, não ser individualista e respeitar a opinião alheia, porque o individualismo te aprisiona na ideia de que você tem que ter certeza.” O economista disse que queria concluir com um conselho aos futuros economistas: “Recomendo que leiam O Capital. Vejam que (Karl) Marx não rejeitou os clássicos. Foi a partir do que escreveram que ele fez a crítica. Marx era um jovem hegeliano (Georg Hegel), antes de ter desencontros com Hegel. Mas em O Capital ele é hegeliano. Ele analisou o objeto de pesquisa e foi reconstituindo as formas que constroem e definem a estrutura e a dinâmica dessa economia capitalista. Daí ele é imbatível”, concluiu.

Missão do Instituto
Como professor aposentado do IE, Luciano Coutinho tem participado, nos últimos anos, da articulação dos professores na promoção do debate sobre a conjuntura econômica e social do país. “Temos tentado reavivar esse espírito de missão do Instituto, que não pode se omitir de um debate público sobre o destino do país, sobre a economia nacional, sobre reformas e ideários que nós devemos propor. Precisamos nos pronunciar.”
No período de redemocratização do Brasil, diz Coutinho, o Instituto ofereceu “um projeto novo de inclusão e de avanço social, industrial e econômico”. “Projeto que infelizmente foi truncado, desde a crise da dívida externa brasileira, e depois descarrilado por uma onda liberal conservadora, que se rendeu ao paradigma de enxergar o Brasil como uma economia subordinada periférica, acomodando-se a essa visão, deixando que as forças de mercado prevaleçam e que o estado se demita da função de articular um projeto para o país e assim por diante. A reflexão dessa história é útil para o presente. Talvez as novas gerações devam se inspirar nela para retomar essa tarefa importante da economia política, que é compreender a economia não só como simples técnica, mas como uma ciência social, como uma disciplina que precisa olhar a sociedade como um todo, entender todo o contexto histórico, entender a necessidade das respostas à nação, à sociedade, à exclusão social, à desigualdade profunda que nunca nos abandonou.”
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