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Robert Wayne Andrew Slenes, professor aposentado do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), recebeu o título de professor emérito nesta segunda-feira (24). A cerimônia, presidida pelo reitor Paulo Cesar Montagner, ocorreu no auditório do IFCH e contou com a presença de professores, alunos e funcionários. Já em sessão ordinária realizada nesta terça-feira (25), o Conselho Universitário (Consu) outorgou, a concessão de títulos honoríficos aos docentes Alvaro Penteado Crósta, professor titular do Instituto de Geociências (IG), Claudia Thereza Guimarães de Lemos e Eni de Lourdes Puccinelli Orlandi, que fizeram carreira no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). A cerimônia de entrega dos títulos ainda será definida.

O reitor Paulo Cesar Montagner presidiu a cerimônia de entrega do título a Robert Slenes
O reitor Paulo Cesar Montagner presidiu a cerimônia de entrega do título a Robert Slenes

Estudo da história social da escravidão

Natural dos Estados Unidos, Slenes ingressou como docente na Unicamp em 1983, consolidando uma carreira de mais de 30 anos na instituição. A concessão da honraria, foi proposta pelos professores Ricardo Figueiroa Pirola e Lucilene Reginaldo, foi aprovada no Conselho Universitário em maio deste ano.

O docente é reconhecido por trazer perspectivas e métodos inovadores à análise da história social da escravidão, de africanos e seus descendentes no século XIX no Brasil e na África. Slenes também teve papel central na fundação e na expansão desse campo de estudos e dessa disciplina no país, em especial na Universidade Federal Fluminense (UFF) e na Unicamp — sendo um dos fundadores, em 1995, do Cecult (Centro de Pesquisa em História Social da Cultura), um dos mais importantes núcleos de pesquisa sobre trabalhadores livres e escravizados.

Apesar de aposentado desde 2013, Slenes continua ativo como colaborador do programa de pós-graduação em História da Unicamp. Em discurso no evento, informou que publicará um novo artigo em 2026. Além disso, pretende reunir suas descobertas linguísticas, publicadas ao longo dos anos, em livros. “Pretendo juntar artigos em, pelo menos, dois livros, para torná-los mais acessíveis a não especialistas.”

O reitor, Paulo Cesar Montagner, afirmou que, próximo à comemoração de 60 anos de fundação da Unicamp, esse momento marca a celebração daqueles que ajudaram a construir a Universidade e torná-la reconhecida no Brasil e no exterior. “Ser indicado como professor emérito é ser reconhecido pelos pares como alguém que representa os valores mais nobres da universidade pública: a busca do saber livre, o diálogo plural, a dedicação ao nosso ensino, à extensão e à pesquisa de qualidade, e o compromisso inabalável com o bem comum.”

Conforme o reitor, a concessão da honraria é um ato de gratidão a uma vida inteira dedicada à Unicamp. Montagner relembra, ainda, que o saber não se esgota com o tempo e que a vocação acadêmica é contínua. Enquanto professor emérito, Slenes “continua parte interna da nossa vida universitária, compartilhando sua experiência e visão crítica”.

Cerimônia ocorreu no auditório do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Cerimônia ocorreu no auditório do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas

Inspiração

Escolhida como madrinha para a cerimônia, a professora Raquel Gryszczenko Alves Gomes, do mesmo departamento de Slenes, foi orientada pelo homenageado no mestrado e destacou sua generosidade intelectual, a qual “marcou a formação de gerações de historiadores e historiadoras que, assim como ele, revolucionaram as práticas historiográficas brasileiras de maneira irreversível”.

Gomes falou, ainda, da importância de Slenes para a consolidação de uma linha de pesquisa em história da África na Unicamp. “[Slenes] Defendeu com afinco a ideia de que a história da África fosse uma das disciplinas iniciais oferecidas aos alunos e alunas que ingressam em nossa graduação. Trata-se de uma importante desconstrução das formas de conceber a própria ideia de história, aspecto que segue marcando a formação arrojada de nossos e nossas estudantes.”

O diretor do IFCH, Ronaldo Rômulo Machado de Almeida, chamou a atenção para o percurso interdisciplinar de Slenes – entre a história, a demografia e a antropologia – e comparou o trabalho do homenageado a um artesanato etnográfico que “cavuca” em busca da construção de uma imagem. “Vejo isso tanto no trabalho do historiador quanto na relação com os alunos, lendo seus textos com cuidado. É um trabalho muito minucioso e investigativo.” Almeida mencionou, ainda, a erudição de Slenes, pareada à sua simplicidade e ao seu refinamento.

Ricardo Figueiroa Pirola, que foi aluno de mestrado e doutorado de Slenes e estava presente no evento, reiterou que o professor emérito é uma referência incontornável. “Ele promoveu inovação metodológica no uso de fontes e, depois, na forma como passou a olhar para a África para pensar a história do Brasil. O trabalho dele é fundamental dentro da historiografia.”

Trajetória

Em seu discurso, Slenes ressaltou o ambiente estimulante de trabalho no Cecult, devido à convivência e à troca de experiências entre os departamentos. “Aprendi muito com os antropólogos daqui.”

Também contou um pouco da sua trajetória de vida. Slenes passou parte da infância em Portugal e no México, acompanhando o pai militar, quando teve os primeiros contatos com as línguas portuguesa e espanhola. Formou-se em Liberal Arts no Oberlin College (Estados Unidos), em 1965, onde estudou literatura espanhola e história. “É uma universidade pequena, mas de alto nível. Foi a primeira do país a aceitar mulheres e negros e, ao longo de sua história, mantém ativamente essa ênfase na igualdade intelectual entre os sexos e entre as raças. Isso me marcou profundamente”, destacou.

Na cerimônia de graduação, em 1965, Slenes recebeu o diploma das mãos de Martin Luther King Jr. – que, na ocasião, recebeu o título de doutor honorário pela instituição e foi orador principal no evento. Acompanhando as mudanças em curso com a integração dos negros na sociedade norte-americana, Slenes decidiu estudar a história da América Latina.

Durante doutorado em Stanford (EUA), realizou um trabalho de pesquisa em história brasileira utilizando fontes em português do século XVIII e do início do XIX, optando por se especializar em escravidão. “Acabei me interessando em como os africanos e seus descendentes haviam lidado com a escravização e o preconceito racial.”

O mais recente professor emérito da Unicamp, Robert Slenes é referência no estudo da história social da escravidão
O mais recente professor emérito da Unicamp, Robert Slenes é referência no estudo da história social da escravidão

A tese defendida na instituição, denominada The demography and economics of Brazilian Slavery: 1850-1888, é uma de suas contribuições para a historiografia. Sua principal contribuição é o livro Na Senzala, uma Flor: Esperanças e Recordações na Formação da Família Escrava, publicado em 1999, com uma segunda edição expandida em 2011.

“É um livro que acabou com a tese de que os escravos no Brasil sofriam de anomia [falta de regras e valores sociais] causada pela destruição de sua vida familiar. Ao contrário, os documentos sobreviventes existentes nos arquivos cartoriais de Campinas mostram altos índices de casamento, ou seja, ambientes propícios para a transmissão da cultura africana entre as outras gerações”, explicou o professor, destacando ainda a influência da cultura centro-africana, em especial, no sudeste brasileiro.

Foi durante uma temporada de estudos no Brasil que Slenes conheceu a esposa, Eliana Cotta de Faria, professora aposentada da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). O professor contou que permaneceu no Brasil tanto pelo casamento com Faria quanto pelo casamento com os arquivos históricos do Rio de Janeiro e São Paulo.

Slenes participou da Aula Inaugural do curso de História em março de 2025, onde falou mais de sua trajetória. A gravação do evento está disponível no canal do Youtube do IFCH, assim como a cerimônia completa de concessão do título de professor emérito (disponível aqui).

Consu aprova concessão a três novos docentes

Durante a sessão, o professor Paulo Cesar Montagner, reitor da Unicamp, destacou que, com a aproximação dos 60 anos da Universidade, profissionais que tiveram papel relevante para a fundação da instituição estão sendo homenageados. “Essas pessoas estão sendo homenageadas por seus pares com um título de máxima relevância acadêmica. É importante que este momento seja celebrado”, afirmou o reitor.

A indicação de Crósta – que também é membro do Conselho Científico e Cultural do Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA) – foi apresentada pelo professor do IG Emilson Leite, que ressaltou a dimensão da contribuição científica e da produção acadêmica do seu trabalho para a academia internacional. “É uma liderança na área de geologia planetária no mundo, referência mundial no estudo de crateras de impacto e pioneiro no sensoriamento remoto aplicado à exploração mineral. Foi responsável por descobertas fundamentais no Brasil”, aponta Leite. Já Montagner recordou uma convivência próxima com Crósta, entre 2012 e 2017, quando o geólogo ocupou a posição de Coordenador Geral da Universidade. “Fico feliz com essa indicação, tivemos um ciclo robusto, aqui.”

Durante a sessão, o reitor Paulo Cesar Montagner,  destacou que, com a aproximação dos 60 anos da Universidade, profissionais que tiveram papel relevante para a fundação da instituição estão sendo homenageados
Durante a sessão, o reitor Paulo Cesar Montagner, destacou que, com a aproximação dos 60 anos da Universidade, profissionais que tiveram papel relevante para a fundação da instituição estão sendo homenageados

Ao apresentar os trabalhos construídos pelas professoras Lemos e Orlandi, o docente do IEL Petrilson Pinheiro trouxe à tona a necessidade de ampliar o reconhecimento acadêmico das mulheres na Universidade. “Considero hoje um dia muito especial, por estar defendendo o título de mulheres, quando na maioria das vezes os homenageados são professores homens. Cada título vai coroar uma carreira excepcional. São muito merecedoras e fazem parte da história do IEL e da Unicamp”. Pró-reitora de Graduação, a professora Monica Cotta reforçou a fala do docente. “Precisamos nos lembrar de que não existem muitas professoras eméritas porque não temos muitas titulares. Às vezes, por falta de incentivo. Temos de ficar atentos o tempo todo e lembrar que existe um plano de equidade de gênero sendo discutido nas universidades paulistas.”

A relevância da atuação de Orlandi na disciplinarização da análise do discurso e na formação de corpos docentes em diversas universidades brasileiras, mesmo depois de se aposentar, foi lembrada por Pinheiro. A dedicação de Lemos ao campo da aquisição da linguagem também foi mencionada pelo professor, citando a importância de sua atuação no projeto de Aquisição da Linguagem. “Criando não somente um grupo de pesquisadores, mas um acervo excepcional de aquisição da linguagem no CEDAE.”

Crateras de impacto

O professor Alvaro Penteado Crósta: grupo de pesquisa em Geotecnologias
O professor Alvaro Penteado Crósta: grupo de pesquisa em Geotecnologias

Graduou-se geólogo pela Universidade de São Paulo (USP) e recebeu o título de mestre no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), na área de processamento remoto. Ingressou na Unicamp em 1983, como professor do Instituto de Geociências (IG). Em 1986, realizou seu doutorado no Imperial College of Science, Technology & Medicine (em tradução livre, Faculdade Imperial de Ciência, Tecnologia & Medicina), da Universidade de Londres. Foi pesquisador-visitante no Laboratório de Propulsão da NASA (Estados Unidos), na Universidade de Nevada (Estados Unidos), e nas universidades de Viena (Áustria) e de Humboldt (Alemanha), além de ter atuado como professor convidado do Instituto de Petróleo da Universidade Khalifa, nos Emirados Árabes Unidos.

Na Unicamp, participou da implantação do Laboratório de Processamento de Informações Georreferenciadas (Lapig), do IG, que se tornou referência brasileira em pesquisas e aplicações em geoprocessamento, e fundou o grupo de pesquisa em Geotecnologias. Atuou para a consolidação do departamento de Metalogênese e Geoquímica e do programa de pós-graduação em Geociências. Foi pioneiro na identificação e no estudo de crateras de impacto, resultantes de colisões de grandes corpos celestes, como meteoritos e asteroides, com o planeta Terra, tendo descoberto e caracterizado nove crateras meteoríticas de grandes dimensões no Brasil, que têm servido de referência para estudos de análogos terrestres. Atualmente, dedica-se à pesquisa sobre a formação de crateras no Titã, maior satélite natural de Saturno, um trabalho que pode contribuir para a investigação das possibilidades de criação de condições do surgimento de vida em outros corpos planetários.

Sua carreira foi marcada, também, pela dedicação a atividades de gestão, seja em diferentes esferas da Universidade, seja em instituições de fomento ao ensino e à produção científica. Foi assessor e chefe-adjunto do gabinete do reitor e pró-reitor de desenvolvimento universitário, além de coordenador geral da Universidade, quando criou o Programa Campus Tranquilo – Universidade Viva, que serviu de embrião para a criação da Secretaria de Vivência dos Campi da Unicamp (SVC). Presidiu o conselho curador da Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp) e participou de conselhos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). No IG, ocupou os postos de chefe do departamento de Metalogênese e Geoquímica, coordenou e dirigiu o programa de pós-graduação em Geociências.  

Aquisição de linguagem

A professora Claudia Thereza Guimarães Lemos: professora voluntária
A professora Claudia Thereza Guimarães Lemos: professora voluntária

Professora voluntária na Unicamp, possui uma carreira marcada pelo pioneirismo no campo da aquisição da linguagem. Sua trajetória compreendeu não apenas a produção científica e cultural e a formação de pesquisadores, mas também a construção de um acervo de relevância internacional. Graduada em Letras Clássicas pela USP, antes mesmo de ingressar na carreira acadêmica destacou-se como leitora em língua portuguesa na Universidade de Tóquio (Japão). Contratada pelo então Departamento de Linguística do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), pôde participar das discussões institucionais que precederam a criação do IEL.

Em Linguística, é referência por tratar a aquisição de linguagem sob uma perspectiva diferenciada, que inclui a psicanálise como abordagem. Entre os temas abordados por seus estudos, estão a crítica à noção de desenvolvimento dominante na aquisição de linguagem; a questão do erro na fala de crianças; e a posição da criança com relação à fala do outro e à sua própria fala. Atualmente, tem se dedicado às discussões sobre possíveis relações entre linguística e psicanálise, sobretudo para se pensar uma releitura do erro na fala da criança.

Seu doutorado sobre o uso dos verbos ser e estar no português brasileiro, com ênfase no processo infantil de aquisição de linguagem, foi realizado na Universidade de Edimburgo (Escócia) e foi publicado na Alemanha. Lemos foi professora visitante na USP e, no Brasil, ainda atuou Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e de Campinas, bem como na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e na Universidade Federal de Alagoas (UFA). Fora do Brasil, esteve na Universidade de Oxford (Inglaterra) e estagiou na Université Sorbonne Nouvelle (Nova Universidade de Sorbonne, em tradução livre), na França, além de ter colaborado com a Universidade de Roma La Sapienza (Itália). Entre suas publicações, está o livro “Questions on Social Explanation, Piaget Themes Reconsidered” (Considerações sobre Explicação Social, Temas de Piaget Reconsiderados, em tradução livre), que organizou com a autora italiana Luigia Camaioni.

A professora colaboradora Eni de Lourdes Puccinelli Orlandi: história das ideias linguísticas
A professora colaboradora Eni de Lourdes Puccinelli Orlandi: história das ideias linguísticas

Análise do discurso

Professora colaboradora da Unicamp, participou da criação e consolidação do campo da história das ideias linguísticas na Unicamp e em diversas universidades da América Latina. Sua carreira é marcada tanto por um trabalho pioneiro na área da análise do discurso – onde exerce liderança – como pela dedicação à formação e à pesquisa, o que se reflete na orientação de 51 pesquisas de mestrado, 49 doutoramentos e na supervisão de 8 trabalhos de pós-doutoramento. Impulsionada por uma constante reflexão crítica e pela formulação de novas perspectivas de análise, a professora coordenou iniciativas que inauguraram práticas e abordagens inovadoras no campo da pesquisa, como o projeto “História das Ideias Linguísticas: Construção do Saber Metalinguístico e a Constituição da Língua Nacional”, que promoveu o diálogo entre a Unicamp e pesquisadores de diferentes instituições francesas.

Em 1992, publicou seu livro mais significativo, “As formas do silêncio”, que além de ter sido traduzido para os idiomas italiano, francês e espanhol, inspirou o espetáculo “Je ne sais quoi”, do coreógrafo francês George Appaix. Autora de outros 13 livros, assina a organização de 28 obras coletivas, 94 capítulos de livros e cerca de 133 artigos em periódicos científicos. Na Universidade, atuou na renovação do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri), ficando à frente da fundação do seu Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb), onde estruturou o campo de estudos Saber Urbano e Linguagem. Também é responsável pela introdução, na Unicamp, dos estudos do filósofo francês Michel Pêcheux, coordenando coletivos de tradução de obras seminais do autor francês, considerado um dos pais da análise do discurso.

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