
O documentário Nãsêpôtiti, rio, terra e luta Panará, produção da Secretaria Executiva de Comunicação (SEC) da Unicamp e da Associação Iakiô, estreia nesta quarta-feira (26 de novembro), às 19h, no Auditório Inés Joekes, do Instituto de Química (IQ). O documentário será apresentado em sete sessões em diferentes locais de Campinas até o dia 18 de dezembro (veja programação abaixo).
Com direção da jornalista da SEC Hebe Rios, responsável também pelo roteiro e edição de texto, com apoio do ex-presidente da Associação Iakiô, Pasyma Panará, o documentário de 63 minutos concretiza o desejo de uma das principais lideranças Panará, o ancião Akââ Panará, de levar ao conhecimento das autoridades as ameaças ao rio, ao seu povo e território. A captação das imagens pela SEC é do repórter cinematográfico Marcos Botelho Jr. e o trabalho de edição foi conduzido pelo editor Kleber Casabllanca, com finalização de Diohny C. Andrade. A supervisão foi da coordenadora de audiovisual da SEC, Patrícia Lauretti.
Rios visitou a terra indígena Panará em julho de 2024. “Desde o início, deixei claro que não sou cineasta e sim jornalista. Levei nove meses para decupar o material, produzimos uma série de reportagens para o especial 360 [formato que reúne textos e vídeos] da SEC e comecei a esboçar o roteiro do documentário”, conta.
A partir de três propostas de roteiro, a diretora, em um trabalho conjunto com Pasyma, optou pelo formato mais longo. “Era o meu desejo, porque esse realmente iria contar a história e o problema que os Panará estão vivendo.” Pasyma veio duas vezes à Unicamp, para acompanhar a edição e fazer as traduções. “Foi uma experiência muito intuitiva, com base na experiência que tenho como editora, buscamos a coesão, a continuidade, as quebras de emoção, para tornar o documentário atrativo e fazer com que o espectador fique com vontade de chegar até o fim”, completa Rios.
Além da versão que será exibida em Campinas, há uma segunda, com os trechos em português traduzidos para a língua Panará, que será apresentada entre os dias 8 e 11 de dezembro na Assembleia Geral da Associação Iakiô.

Registro oral
O documentário reúne registros da história oral Panará, que além de atender ao desejo de Akââ, manifestado para as pesquisadoras da Unicamp durante uma conversa na aldeia Nãsêpôtiti, compõem parte do projeto de pesquisa coordenado pela professora Cassiana Montagner, do Instituto de Química. Entram em cena a história do primeiro contato com o homem “branco”, a ida forçada para o Parque Indígena do Xingu, a mortandade de peixes no rio Iriri e as investigações sobre as suspeitas de contaminação da principal veia hídrica do povo Panará.
A convite da Associação Iakiô, desde 2023, o projeto avalia a segurança hídrica da bacia do rio Iriri, envolvendo alunos de pós-graduação e diversos bolsistas Panará. A partir do contato de Montagner com a SEC, a equipe esteve na terra indígena (TI) Panará para a realização do documentário e das reportagens.
A terra indígena Panará foi homologada em 2001 e está localizada na Amazônia Legal, incluída em parte dos Estados do Mato Grosso e do Pará, nos municípios de Guarantã do Norte (MT), Matupá (MT) e Altamira (PA). A população indígena é de cerca de 700 habitantes, hoje representados pela Associação Iakiô, criada na década de 1990 para receber uma indenização da União e da Funai pela morte de centenas de Panará durante a construção da BR-163 (Rod.Cuiabá Santarém), na década de 70, que culminou no primeiro contato do povo Panará com os não indígenas.
Os anciãos e anciãs indígenas (os tapuntun e as tuatun, respectivamente), conhecem aquele território desde antes da tomada das terras pela política desenvolvimentista do governo da ditadura militar. A abertura da BR-163, na década de 1970, cortou a terra indígena Panará, expulsou seus moradores e provocou mortes, abrindo espaço definitivo para a exploração descontrolada e predatória, por meio do garimpo e, mais tarde, do agronegócio. De uma população de cerca de 800 indígenas, ficaram apenas cerca de 70.
Hoje, os Panará vivem em um território cada vez mais ameaçado pela proximidade com as grandes fazendas e pelas técnicas de manejo do solo, como a aplicação intensiva de agrotóxicos, por exemplo. Agrotóxicos e fertilizantes podem ter provocado mortandades de peixes e uma série de consequências para a vida do povo Panará. As mais recentes foram registradas em junho de 2025, em 2017 e em 2003. As mudanças climáticas também têm alterado o regime de chuvas e a produção das roças, afetando diretamente o sustento das aldeias que vivem exclusivamente dos recursos naturais da terra indígena Panará.



AGENDA
Nãsêpôtiti, rio, terra e luta Panará – 63 minutos
DIA 26/11 – 19H – INSTITUTO DE QUÍMICA – UNICAMP
Auditório Inés Joekes – Rua Josué de Castro, s/n – Cidade Universitária
DIA 27/11 – 19H – ESPAÇO CULTURAL CASA DO LAGO
Av. Érico Veríssimo, 1011 – Cidade Universitária
DIA 03/12 – 19H – ADUNICAMP
Av. Érico Veríssimo, 1479 – Cidade Universitária
DIA 04/12 – 19H – PAVÃO CULTURAL
Rua Maria Tereza Dias da Silva, 708 – Cidade Universitária
DIA 11/12 – 19H – MUSEU DA CIDADE
Av. Dr. Heitor Penteado, 2145 – Parque Taquaral, Campinas
DIA 14/12 – 19H30 – MUSEU DA IMAGEM E DO SOM DE CAMPINAS (MIS)
Rua Regente Feijó, 859 – Centro, Campinas
DIA 18/12 – 19H – CASA DE CULTURA AQUARELA
R. Antônio Carlos Neves, 338 – Chácaras Campos Elíseos



‘Quem ofende um rio, ofende Deus’
Daniela Prandi
Visto de cima, o rio Iriri segue seu curso confundindo os olhos com os reflexos do sol, do verde ao redor, da vida que insiste. “Quem ofende um rio, ofende Deus”, diz um provérbio africano. O Iriri foi ofendido, já não tem o “cheiro gostoso” de antes, conta um dos indígenas entrevistados no forte e sensível documentário Nãsêpôtiti, rio, terra e luta Panará.
Das lembranças de antes da chegada de “vocês, os brancos”, o Iriri remete aos sabores e as texturas dos seus peixes, suculentos, que vão sendo enunciados em um banquete perdido, cheio de saudade, de tempos de fartura, de água limpa, de quando se matava a sede nos igarapés. Da memória vem a água fresca que sustentava, limpava, refrescava e divertia as crianças, antes do lamento e da constatação de que “hoje não tem mais”.
Os Panará eram muitos e a riqueza natural de seu território era o seu tesouro. Do primeiro contato com os brancos, em 1973, veio a doença, a remoção forçada, a imensa tristeza pelas perdas de pais e filhos. “A gente sabia que vocês iam nos contaminar.” Eles relutaram, lutaram e retornaram, mas, apesar de tudo, o rio continuou ofendido.
Os peixes suculentos hoje são deformados, intragáveis e grandes mortandades são a prova de que há algo muito errado ali. As grandes fazendas, com seus agrotóxicos e fertilizantes, as mudanças climáticas, tudo contribui para um clima de fim de mundo. “Não chove mais no tempo certo.” A equipe da Unicamp aparece, testa a água, inicia um monitoramento. A busca pela sobrevivência é latente.
No documentário, indígenas falam de luta, mas estão sentados, sob a sombra de uma grande árvore, com os ombros arqueados, talvez pelo peso de carregar a dor do rio ofendido; veem-se latas de alumínio boiando, o gado muito próximo das margens, as provas de mudanças indesejadas, nefastas, que transformaram tudo e são irrefutáveis. “A gente planta, mas não nasce”.
De repente, um dos líderes Panará se levanta, resoluto, em um momento de pura emoção, gesticulando muito, com a mais importante das mensagens: “Estou aqui com o meu povo para continuar cuidando.” É o mesmo que, em cenas anteriores, enumerou seus peixes favoritos. “Precisamos do apoio de vocês.”
Corte Panará
Tanael Cesar Cotrim
Que esforço de fé a imagem provoca? Qual razão educa o olhar do observador? Há sentido criar narrativas audiovisuais num regime hegemônico de espetacularização do real? Pois Nãsêpôtiti, rio, o rio Iriri, provoca a aldeia Nãsêpôtiti, sociedade Panará, a entender seu remanso. Cheia inesperada, cheiros inóspitos, sabores putrefatos, barulhos estranhos, calor excessivo, águas rebarbativas.
A mensagem captada é que o mundo se desfaz, o tempo apaga as formas de vida e urge legar uma memória. Krekiô, cinegrafista Panará, pressagia que a oralidade, espontânea entre as gerações, como suporte de preservação da história do povo enfraquece. Tende a desaparecer. Não restarão sequer vestígios de seu povo. É preciso guardar a memória para o futuro, esforço coletivo de permanência. O passado presente como presente do passado.
O documentário Nãsêpôtiti – Rio, Terra e Luta Panará resulta numa audaciosa e prodigiosa inversão de perspectiva. O observado, refugiado em seu tempo, constrito no território sob avanço forasteiro, açodado pelas forças usurpadoras do grande capital, convida o observador a partilhar o registro do real. A armadilha Panará sucede na captura da narrativa. A janela como metáfora que permite ao espectador assistir ao mundo é a mesma que o convoca a se ver no outro.
Se a troca e o intercâmbio constituem a base das alianças sociais indígenas, eles também estão presentes na estrutura do documentário. Ao “feitiço”, impregnado em panela, miçanga, machado, ferramentas agrícolas e facões, que atraiu os Panará no primeiro contato com o homem branco na década de 70, quase dizimado por doenças, desvela-se o “feitiço” da montagem do filme. Fatos engendram memórias, que engendram depoimentos, que engendram palavras. Palavra falada, corpórea, física, que denuncia o conflito, a barbárie, mas anuncia um diálogo.
Se forma e conteúdo mantêm uma relação de interdependência, o conflito está impresso no ecrã. À aparente placidez da composição dos enquadramentos geométricos, dos ângulos estáveis, da profundidade em camadas, do ritmo compassado, a palavra Panará impõe-se, desestrutura o plano cinematográfico, desarranja a solidariedade entre as imagens e faz nascer a tensão necessária. A palavra Panará sabe que aquilo que passa pelo cinema já não é real, está transformado.
Nãsêpôtiti – Rio, Terra e Luta Panará é uma forma de luta. Luta que move um paradoxo. A sociedade, que para ser como é, segundo Pierre Clastres em sua Antropologia Política, luta “contra o Estado, contra a Escrita e contra a História” é a mesma que, diante da possibilidade de extermínio, repelida pelo Estado, negligenciada pela Lei, fraturada pelo Progresso, clama por proteção do próprio Estado e da Lei.
No entanto, a imagem vale por si mesma. Abaixo de uma frondosa mangueira, Akââ Panará, identificado pela pintura corporal, cocar plumário e colar clânico, põe-se de pé com sua lança, tateia imaginariamente com a mão o redor, encontra a câmera e pondera aos pesquisadores da Unicamp e à equipe técnica, na diplomacia Panará: “O rio, Nãsêpôtiti, precisa ser protegido…Quero que vocês entendam… Continuem esse trabalho com a gente. Somos nós os moradores daqui. Precisamos cuidar do rio, cuidar da floresta.”
