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Atualidades Cultura e Sociedade

Livro aborda polarização, discurso de ódio e fake news no governo de Prudente de Morais

‘1897 - A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais’, de autoria do professor da Unicamp Ely Carneiro de Paiva, será lançado 15 de novembro

Após dez anos de pesquisas e dois anos de escrita, o professor da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) da Unicamp Ely Carneiro de Paiva lança, no dia 15 de novembro, o livro 1897 – A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais (Editora Ayran). A tarde de autógrafos será na Livraria da Vila, no Shopping Iguatemi Campinas, a partir das 16h.

Em entrevista ao Jornal da Unicamp, Paiva fala sobre as pesquisas relativas ao conturbado mandato de Prudente de Morais (1841-1902), terceiro presidente do Brasil e primeiro civil a ocupar o cargo, que governou de 1894 a 1898. Sua presidência marcou a transição do governo militar, conhecido como “República da Espada”, para a chamada “Política dos Governadores” (1898-1930). Em 5 de novembro de 1897, durante uma cerimônia militar, Morais sofreu um atentado, mas escapou ileso.

Segundo o autor, o período tem paralelos com a história recente do Brasil. Polarização política, nostalgia do governo militar, traições do vice-presidente, discurso de ódio, teorias da conspiração e fake news marcaram a trajetória do primeiro presidente brasileiro eleito pelo voto direto.  

Capa do livro que será lançado em 15 de novembro; período tem paralelos com a história recente do Brasil
Capa do livro que será lançado em 15 de novembro; período tem paralelos com a história recente do Brasil

Jornal da Unicamp (JU) – O que o motivou a escrever o livro, já que o senhor é da área de engenharia?

Ely Carneiro de Paiva – Sempre gostei de história, de pesquisar e escrever. No começo da década de 2010, comecei a pesquisar a história do bisavô da minha esposa, que resultou no livro Jean Serrou Camy – Um francês dos Pirineus no coração do Brasil. Também escrevi sobre o estelionatário brasileiro Afonso Coelho de Andrade, no livro O Homem do Cavalo Branco. Durante as pesquisas, li muito sobre a história do Rio de Janeiro daquela época. Andrade fugiu em 1897, um dos anos mais turbulentos da presidência de Prudente de Morais. Aquilo foi ficando interessante, e decidi me dedicar ao estudo do período.

JU – Como foi o trabalho de pesquisa?

Ely Carneiro de Paiva – Pesquisei em mais de 5 mil páginas de jornais na riquíssima hemeroteca da Biblioteca Nacional. Também usei como referências os livros Como se faziam presidentes: homens e fatos do início da república, de Dunshee de Abranches (Editora José Olympio), e Histórias de presidentes: a República do Catete, de Isabel Lustosa (Editora Vozes). O livro foi editado pela Ayran, do Rio de Janeiro, cuja editora-chefe é a Lená Medeiros de Menezes, professora emérita da UERJ [Universidade Estadual do Rio de Janeiro], e passou por um comitê de historiadores. Fiquei feliz de ter sido aprovado. Ela ficou surpresa com a profundidade do livro, que passou pelo crivo de quem é da área, já que não sou historiador. 

JU – O que o senhor destaca do período e quais os paralelos com a história política atual? 

Ely Carneiro de Paiva – O Brasil vivia uma polarização. De um lado estavam os monarquistas, e do outro, os republicanos, que se dividiram entre moderados e jacobinos. Para os jacobinos, porém, quem não era jacobino era monarquista, não existia isso de ‘republicano moderado’. Até mesmo o Prudente de Morais era chamado de monarquista, algo como o bolsonarista raiz de hoje, que chama todos que não são bolsonaristas de comunistas. Bolsonaro, aliás, já foi chamado de jacobino moderno. Naquela época, havia muito discurso de ódio, muita gente queria a volta do militarismo, e o desequilíbrio entre as forças políticas era grande.

JU – Quais os desafios enfrentados por Prudente de Morais?

Ely Carneiro de Paiva Seu antecessor era Floriano Peixoto, militar, que tinha reprimido várias revoltas populares e não quis recebê-lo para tratar da transição de poder. Na época, a imprensa tinha sido censurada. Quando Prudente de Morais assumiu, encontrou o palácio presidencial destruído e sem funcionários. Logo de cara, tentou diminuir a importância do Ministério da Guerra e restaurou a liberdade de imprensa, mas enfrentou muita reação contrária, já que a maioria dos parlamentares era militar. Morais era muito contemporizador, muitos o acusavam de ser fraco e cobravam pulso firme. Em 1896, foi obrigado a se afastar para uma cirurgia nos rins e teve que enfrentar seu principal adversário, seu próprio vice-presidente, Manoel Vitorino (1853-1902).

JU – Como o vice-presidente Vitorino agiu para prejudicar o governo?

Ely Carneiro de Paiva – Vitorino era um médico baiano muito vaidoso, que queria ser presidente. Quando Morais se afastou, ele se aliou aos jacobinos e desfez tudo o que o presidente tinha feito para enfraquecer os militares. Ficou quatro meses no poder e enviou uma terceira expedição federal para Canudos, sob o comando do coronel Moreira César, que morreu tragicamente na ocasião. A cidade foi abaixo, e Vitorino era um ídolo e um possível próximo presidente. Sua estratégia, pelo que pesquisei, era que, se vencesse em Canudos, ficaria com os louros. Caso fracassasse, a culpa seria de Morais. Na época, os jornais foram nessa linha, e a imagem do presidente, que voltou ao cargo quatro dias antes do anúncio da morte de Moreira César, ficou desgastada quando Vitorino passou a fazer ataques violentos contra ele. Naquele momento, a economia do Brasil estava terrível, o país estava endividado. 

O professor Ely Carneiro de Paiva: conturbado mandato de Prudente de Morais (1841-1902)
O professor Ely Carneiro de Paiva: conturbado mandato de Prudente de Morais (1841-1902)

JU – Durante suas pesquisas, o que mais encontrou nos jornais da época que fazem paralelo com o Brasil de hoje?

Ely Carneiro de Paiva Encontrei frases em jornais e em relatórios que mostram o preconceito contra o negro, o nordestino, o nortista e os indígenas, além do tratamento dado aos Estados Unidos. Por exemplo, Joaquim Murtinho, ministro da Fazenda de Prudente de Morais, declarou que “o Brasil não deve igualar o progresso dos Estados Unidos, pois acredito que o sucesso americano se deve ao fato de se tratar de um povo de raça superior”. Bernardino de Campos, que foi governador de São Paulo, afirmou que “se os estados do Norte e Nordeste querem gozar dos mesmos benefícios, eles devem seguir o exemplo paulista e trabalhar duro”. Ainda, dos jornais da época, destaco a frase de embaixadores estrangeiros na inauguração do Palácio do Catete: “Este é o país dos macacos”. São coisas que a gente ainda ouve hoje e que trazem reflexões sobre a república e a incompatibilidade da ideia de igualdade e justiça para todos.

JU – O senhor afirma que as notícias falsas e teorias de conspiração eram comuns naquela época, inclusive durante a Guerra de Canudos. Qual era a principal?

Ely Carneiro de Paiva – A maior notícia falsa era a de que o Conde d’Eu e a Princesa Isabel eram financiadores de Antônio Conselheiro. O congresso estava assustado, acreditando que o Brasil seria invadido. Encontrei um texto em um jornal que começa assim: “Sabe-se que o Conde d’Eu tem remetido dinheiro ao Conselheiro.” Pela primeira vez, um jornal levantava suspeita de que a Princesa Isabel e seu marido, exilados na Europa, estariam financiando Canudos e que tudo era um plano para restaurar a monarquia. A teoria da conspiração explicaria a sucessão de derrotas dos militares no meio do sertão.

JU – Quais outras fake news o senhor identificou?

Ely Carneiro de Paiva Havia uma grande competição entre os jornais para sobreviver. A imprensa misturava editorial com notícias, e os jornais eram todos de políticos. Na minha pesquisa, via vários jornais com notícias sobre o mesmo acontecimento para ter acesso a todas as versões. Há uma história curiosa sobre o aparecimento de uma mulher fantasma no bairro das Laranjeiras, uma mulher sem cabeça que assustava as pessoas e que chegou a atrair multidões. O jornal O Jacobino relata que Deocleciano Martyr, apontado como um dos supostos mentores intelectuais do atentado contra Morais, estava no meio do povo e foi detido por baderna, uma semana antes do atentado. O Jornal do Brasil alegou ter recebido uma carta muito perfumada da mulher fantasma pedindo para pararem com a perseguição, e o próprio jornal organizou uma visitação para que as pessoas pudessem ver a carta e sentir o perfume. Na ocasião, um senhor passou mal, e o jornal cancelou a visitação.

JU – Há algum documento ou levantamento histórico inédito relatado no livro?

Ely Carneiro de PaivaSim. Além de vários bastidores do Congresso, há um depoimento inédito de Morais, publicado um ano antes de sua morte, e aparentemente desconhecido da historiografia, no qual relata suas impressões sobre aquele momento de polarização da República. Sua manifestação foi publicada em novembro de 1901, em dois jornais distintos, um paulista e outro carioca. O jornalista Carlos de Laet havia acusado Morais de ter as “mãos sujas de sangue” por não ter reprimido os atentados contra os monarquistas, ocorridos no começo de 1897, que acabariam culminando no atentado a sua própria vida em 5 de novembro. Ele respondeu com quatro justificativas, que são rebatidas, uma por uma, por Carlos de Laet, como apresento no livro.

JU – O livro deixa algum mistério ou alguma pergunta sem resposta?

Ely Carneiro de PaivaSim, posso apontar duas, a primeira é o comportamento ambíguo de Bernardino de Campos, que ora estava do lado dos jacobinos, ora estava do lado de Morais. Apesar de ministro de Morais, ele repassava informações aos jacobinos e evitou que republicanos radicais fossem condenados pela morte de um jornalista monarquista. Outro mistério é o real grau de envolvimento do vice-presidente no atentado. Se foi conivente, cúmplice ou se participou do plano, ainda há controvérsias.

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