Restrição de proteínas na gestação pode causar osteoporose nos filhos

Pesquisa com camundongos identifica genes ligados à perda de massa óssea na velhice

A osteoporose é uma doença silenciosa que afeta cerca de 10 milhões de pessoas no Brasil, segundo estimativa do Ministério da Saúde. Ela se caracteriza pela redução da massa óssea, que torna os ossos mais porosos, frágeis e suscetíveis a fraturas. A osteoporose atinge, sobretudo, pessoas acima dos 50 anos, devido principalmente aos efeitos do envelhecimento, e é mais comum entre mulheres. De acordo com a Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo (Abrasso), em média, um em cada cinco homens e uma em cada três mulheres acima dos 50 anos enfrentarão em algum momento da vida fraturas relacionadas à osteoporose.
Apesar da influência de fatores ligados à idade, o desenvolvimento da osteoporose pode estar associado a condições às quais os indivíduos são submetidos ainda na barriga das mães – uma conclusão compatível com a consolidada abordagem teórica conhecida como DOHaD (“origens da saúde e das doenças no desenvolvimento”, na sigla em inglês), segundo a qual diversas doenças e outras características de saúde desenvolvidas ao longo da vida têm origem na gestação, devido a fatores como deficiência de nutrientes ou estresse.


Cientistas da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp encontraram, a partir de modelos experimentais com roedores, uma relação entre dietas restritas em proteínas durante a gestação e o possível surgimento da osteoporose na velhice. Experimentos realizados com camundongos mostraram que filhotes de fêmeas que ingeriram menos proteínas durante a gestação apresentaram, na velhice, ossos com características da osteoporose, como menor densidade, maior porosidade e maior fragilidade. A partir de exames de sequenciamento de RNA, o estudo também mostrou uma ativação maior de células responsáveis por degradar a matriz óssea, favorecendo o início da osteoporose.
A pesquisa foi realizada no Laboratório de Metabolismo Hidrossalino e Programação Fetal (LHS) da FCM e integra o doutorado do biomédico Bruno Calsa, com orientação da professora Patrícia Aline Boer. Os resultados foram publicados na revista Calcified Tissue International e tiveram colaboração de pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em São José dos Campos.
Causas da osteoporose
Os pesquisadores explicam que, dentro dos estudos relacionados à DOHaD, há uma série de evidências que relacionam condições de saúde com a restrição de proteínas na alimentação das mães, mas que não havia registros na literatura médica relacionando essa deficiência alimentar à osteoporose nos filhos. “É uma coisa que não se espera”, resume Boer. “Geralmente, atribuímos a osteoporose apenas aos fatores acumulados durante a vida, como a ingestão de cálcio, a síntese de vitamina D, ou até fatores genéticos.” A proposta do estudo surgiu no decorrer das pesquisas de Calsa, que já analisava o efeito da restrição proteica durante a gestação em outros tecidos mineralizados, como os dentes. “Geralmente pensamos que o tecido ósseo é inerte, mas, pelo contrário, ele é muito ativo”, explica.
O experimento foi conduzido com fêmeas de roedores separadas em dois grupos logo após a detecção da gestação. Um grupo passou a receber uma dieta reduzida em proteínas, com apenas 6% do nutriente, e o outro grupo recebeu alimentação normal, com 17% de proteínas. Após o nascimento dos filhotes, todas as fêmeas passaram a receber a dieta normal, para que a amamentação não sofresse influência da restrição proteica. Após esse período, os filhotes também foram alimentados com uma dieta padrão, com níveis adequados de proteínas, e avaliados aos 12 e aos 18 meses de vida, o equivalente à meia-idade e à velhice em humanos.
Nesses dois períodos, os fêmures dos camundongos foram submetidos a exames de microtomografia computadorizada (para analisar a arquitetura dos ossos), a testes mecânicos (para verificar quanta força suportavam), à análise com microscopia eletrônica de varredura (para observar fatores como porosidade e fissuras), e à análise da organização das fibras de colágeno nas estruturas. Aos 12 meses, não foram observados quadros significativos de perda óssea nos animais. Porém, aos 18 meses, os camundongos cujas mães sofreram restrição proteica apresentaram menor massa e densidade mineral óssea, além de menor espessura e volume cortical, com mais porosidade e microfissuras. Os fêmures também apresentaram redução na quantidade de fibras de colágeno e uma perda significativa de resistência mecânica. Ambos os grupos, detalha o biomédico, nasceram com a mesma massa óssea, “mas houve uma perda mais acelerada no grupo de restrição proteica”.
Para verificar os fatores que causaram a perda óssea, sequenciou-se o RNA dos fêmures e foram encontrados 125 genes expressos de forma diferente entre os dois grupos. Nos animais do grupo gestado sob restrição proteica, houve uma expressão maior de genes ligados à ativação de vias inflamatórias. Esses genes também favoreceram a diferenciação de macrófagos — células de defesa do sistema imunológico — em osteoclastos, responsáveis pela reabsorção óssea na dinâmica de remodelação do tecido, o que contribuiu para a perda de massa óssea.


Olhem para as gestantes
A associação entre a saúde gestacional e o surgimento de doenças no decorrer da vida dos filhos se consolidou a partir dos estudos de David Barker, que desenvolveu, a partir dos anos 1980, estudos relacionando o histórico médico de desenvolvimento infantil com a incidência de doenças entre os mesmos indivíduos já adultos. Nos anos 1990, ele trabalhou em uma pesquisa com pacientes nascidos no período conhecido como Fome Holandesa, durante a Segunda Guerra Mundial. Ele constatou, baseado nos registros médicos dessas pessoas, que os filhos de mães privadas de uma alimentação adequada estavam mais propensos a desenvolver doenças como diabetes tipo 2, esquizofrenia e cardiopatias.
Hoje, diversos médicos e pesquisadores se apoiam na abordagem DOHaD para desenvolver estudos de coorte, que acompanham a saúde de grupos populacionais da infância à velhice. “Muitas doenças podem ter tido origem durante a gestação, por diversos fatores que alteram o fluxo placentário e a nutrição das mães”, avalia José Antônio Rocha Gontijo, professor da FCM e coordenador do LHS, ressaltando que essa abordagem evidencia a importância dos cuidados com a saúde gestacional. “A prevenção de doenças futuras está no bem-estar das mães, seja nutricional, psicológico e em vários outros aspectos.”
