
Reforma agrária ajuda a preservar cultura alimentar negra
Pesquisa da Feagri mostra como assentamentos mantêm e adaptam receitas ancestrais

Além de facilitar o acesso à terra, a reforma agrária pode funcionar como um importante instrumento de preservação de tradições alimentares de populações negras. Essa é uma das principais conclusões de uma pesquisa de mestrado que acaba de ser defendida na Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp. Conduzido pela engenheira-agrônoma Sandy Arguelho, o estudo investigou como agricultores familiares pretos e pardos preservam e transformam seus hábitos alimentares, mostrando que o acesso à terra contribui para a manutenção da ancestralidade, da identidade cultural e dos conhecimentos transmitidos entre gerações.
Filha e neta de camponeses sem-terra, Arguelho desenvolveu sua pesquisa com moradores do assentamento Comuna da Terra Milton Santos, localizado nos municípios de Americana e Cosmópolis, na Região Metropolitana de Campinas (RMC). O objetivo foi analisar se a cultura alimentar da população negra local se transformou depois da chegada ao assentamento, buscando identificar quais mudanças ocorreram na alimentação das famílias, quais costumes se mantêm presentes e se existem receitas e práticas ancestrais que continuam sendo propagadas entre pais e filhos.
De forma geral, a pesquisa descobriu que algumas tradições ficaram apenas na memória dos entrevistados. Em algumas situações, eles tinham condições de preparar a receita, mas haviam perdido o hábito com o tempo; em outras, havia dificuldade de obter determinados ingredientes. “Muitas dessas pessoas, principalmente a população preta, vieram do Nordeste — que tem um solo, clima e alimentação diferentes da região Sudeste. O assentamento fornece instrumentos para a continuidade de alguns hábitos, mas, por questões territoriais, nem sempre é possível manter aquilo que existia anteriormente na vivência delas”, explica a pesquisadora.


Exemplo disso é o relato de dona Josefa, que raramente come melancia — um alimento comum em sua infância na Bahia — porque o solo do assentamento não é o mais apropriado para sua produção: a fruta estoura quando atinge determinado tamanho, explicou a agricultora em entrevista incluída na dissertação. Ao mesmo tempo, Norberto, que também nasceu na Bahia, deixou de comer carne seca por ser diabético e hipertenso, além de relatar que às vezes precisa comprar abóbora porque não consegue cultivar o vegetal no seu terreno.
Por outro lado, o estudo também constatou que muitas tradições alimentares dos moradores pretos e pardos continuam vivas, mas foram adaptadas às novas realidades ambientais, territoriais, tecnológicas e sociais. O cuscuz nordestino, recorrente na alimentação da maioria dos assentados, sofreu alterações que incluem a adição de leite, margarina, calabresa e opções veganas. Já o beiju — cuja produção envolve ralar, lavar e espremer a mandioca para depois peneirar e assar a massa — foi substituído pela farinha de tapioca pronta.
Outro caso de mudança entre gerações é uma receita de peixe ao molho de coco, que o agricultor Leonardo aprendeu com seus pais. Sua filha também costuma preparar o prato, mas com uma alteração significativa: o uso da panela elétrica. “Esse exemplo é muito emblemático para mostrar que a cultura alimentar não se perdeu. A gente precisa entender o assentamento rural e a reforma agrária nesse contexto também, de um território que pode preservar essa cultura, essa memória, essas raízes, mesmo que elas sejam transformadas”, afirma a professora da Feagri Vanilde Esquerdo, que orientou a pesquisa.
Metodologia
A dissertação de Arguelho representa o primeiro trabalho de pós-graduação da Feagri a abordar a relação entre raça e alimentação. De acordo com o último censo agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 71% dos assentados do país se declararam pretos ou pardos, mas ainda existe uma grande lacuna de conhecimento sobre essa população. No próprio assentamento Milton Santos, composto por 68 famílias, não existem dados sistematizados sobre a quantidade de moradores negros, motivo pelo qual a ideia inicial da pesquisa era realizar um censo demográfico dessa população.
Como tal tarefa não caberia no escopo de um mestrado, a pesquisadora decidiu realizar o levantamento dos assentados negros que possuíam a titularidade de lotes, identificando, inicialmente, 55 agricultores com essas características. Após ajustes, a amostra final ficou composta por 47 agricultores. Dentre eles, 63,8% eram mulheres, dado que reflete a prioridade de gênero definida pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) nos processos de regularização fundiária. O levantamento ainda demonstrou que 25% de cada grupo se declararam pretos, enquanto 46,4% das mulheres e 56,2% dos homens se consideram pardos.
Para desvendar a cultura alimentar dessas pessoas, Arguelho realizou entrevistas semiestruturadas com dez agricultores pretos e pardos, conduzidas no formato de “prosa” — termo utilizado no meio rural para se referir a uma conversa informal. “O assentamento Milton Santos está localizado em uma região muito próxima de várias universidades, então é um lugar que elas acessam para fazer pesquisas e eu achei que seria um pouco cansativo ficar na mesmice de pergunta e resposta. Além disso, como eu possuía uma familiaridade com o assentamento, a ideia foi ter uma conversa descontraída, estar aberta ao que poderia surgir”, explica a autora.


Arguelho conheceu o assentamento Milton Santos por meio do Programa Terra, um projeto de extensão da Unicamp voltado a fortalecer a transição agroecológica e a agricultura familiar nas regiões de Campinas e Limeira. Isso permitiu a ela criar um vínculo com seus moradores e entender a forma como eles organizam a cultura alimentar, mas também resgatar memórias da sua própria infância e das tradições alimentares de sua família. Quando Arguelho era criança, em Mato Grosso do Sul, sua avó servia farinha com mel no café da tarde para que a neta “ficasse sabida”, repetindo uma combinação de origem indígena que a própria avó também consumia desde a infância.
A lembrança, junto com o que observou na pesquisa, trouxe a constatação de que, para os assentados, o ato de comer representa uma atividade coletiva. Isso não significa que os momentos de alimentação ocorram sempre em grupo, mas que há uma preocupação em pensar a comida como uma demonstração de afeto. “Uma situação muito bacana nesse sentido foi a defesa da Sandy. As agricultoras vieram assistir e trouxeram cuscuz e arroz doce. Então essa questão da alimentação como ato coletivo está presente em comemorações, reuniões, conversas. Sempre haverá alguma receita ou alimento para compartilhar”, finaliza a professora.
