
Quando o desenho ganha movimento
Pesquisa aborda história e analisa produção do Núcleo de Cinema de Animação de Campinas

Em frente a uma mesa de luz, pequenas mãos desenham, construindo cada frame do que virá a ser uma animação. Essa cena já se repetiu centenas de vezes, em salas de aula de aldeias indígenas e de escolas de diversos municípios, sob a supervisão dos cineastas Wilson Lazaretti e Maurício Squarisi, diretores do Núcleo de Cinema de Animação de Campinas (NCA). A liberdade de imaginar e criar, guiada por esses profissionais, deu origem a mais de 400 curtas-metragens, produzidos com a colaboração de milhares de pessoas.
Em 1975, Wilson Lazaretti, então estagiário da TV Cultura, foi convidado para dar aulas de cinema no Conservatório Carlos Gomes, em Campinas, e percebeu o interesse das crianças pelo desenho animado. Aquele momento é considerado o embrião do NCA, que em 2025, ano do seu cinquentenário, foi tema de uma dissertação defendida no Instituto de Artes (IA) da Unicamp. Na pesquisa, João Pedro Silva, orientado pelo professor Marcius Freire, analisa a história e a produção do Núcleo, oriunda majoritariamente das oficinas, com técnicas que a distinguem das animações comerciais.
Oficialmente registrado em 1980, o Núcleo de Cinema de Animação de Campinas é um dos mais antigos centros do mundo dedicados à animação. Além de Lazaretti, que se tornou docente da Unicamp em 1990, o NCA tem como um dos seus pilares o animador Maurício Squarisi, que se uniu ao colega na liderança do grupo em 1979. Os idealizadores do NCA, conforme Silva, calculam que já foram ministradas mais de 3 mil oficinas de animação, no Brasil e no exterior. Os públicos são variados e incluem estudantes, educadores e comunidades indígenas.
“Um dos trabalhos que eu destaco do núcleo é esse realizado com comunidades que às vezes não têm contato direto ou a possibilidade de entrar em um cinema”, indica o autor do estudo, que também atuou em oficinas ministradas pelo NCA. Nesses encontros, observa, os participantes são incentivados a refletir sobre seu cotidiano, trazendo às animações algumas temáticas importantes para suas realidades. “Tem exemplos muito interessantes de jovens que, de repente, numa animação, expõem aquilo que é um problema na realidade deles, como o desemprego”, pontua o professor Freire, referindo-se ao curta Ex-desempregado (2023), resultado de uma oficina em escola. Nele, um jovem busca uma ocupação em um supermercado, evidenciando, para o autor da pesquisa, a tensão entre estudo e trabalho.


Apesar da vasta produção, há um fio que une todas as obras realizadas: a didática, com um processo de construção que valoriza a identidade gráfica de cada participante, segundo Silva. Outra característica do NCA, para o pesquisador, é a valorização dos elementos regionais. Na Amazônia, por exemplo, o núcleo realizou oficinas em São Gabriel da Cachoeira (AM), em 1991 e em 2023, resultando nas animações Çuikíri (1991) e Prai Prai (2024), respectivamente, que tratam do meio ambiente, do problema do desmatamento e das relações sociais nas aldeias. Já a ida à Terra Indígena Rio Silveira, em Bertioga (SP), resultou nos filmes Piragui (2023) e Urutau (2023), retratando lendas e contos da comunidade.
Na Unicamp, as produções incluem um filme desenvolvido pelos estudantes do IA na pandemia, Quando tudo isso passou (2021), uma das animações do grupo com maior audiência nas redes sociais, ultrapassando 240 mil visualizações no canal da TV Unicamp no YouTube. As oficinas no ambiente universitário resultaram também em um curta realizado por crianças indígenas e não indígenas do Programa de Integração e Desenvolvimento da Criança e do Adolescente (Prodecad). Neste, intitulado Buya wasu (“cobra grande”, em idioma nheengatu), as próprias crianças narram um conto indígena sobre as cheias do rio Negro.
A principal técnica trabalhada pelo NCA é o desenho animado, com a utilização de mesa de luz. Para entender o conceito, os alunos são apresentados a brinquedos ópticos, como zootroscópio, um tambor cilíndrico com janelas recortadas que permite visualizar desenhos dispostos em tiras. Ao girá-lo, a ilusão de movimento é criada.
De acordo com Silva, são valorizadas também outras técnicas não comerciais, como stop motion e pixilation. Ambas criam uma ilusão de movimento ao utilizar fotografias sequenciais de objetos ou outros elementos, no caso do stop motion, e de pessoas, no caso do pixilation. As escolhas do Núcleo, para o autor da pesquisa, priorizam a singularidade e os contextos de produção, diferentemente do cinema comercial, que estaria voltado à perfeição estética.


Longas-metragens
Além de examinar os curtas-metragens e a história do NCA, João Pedro Silva realizou uma análise fílmica dos dois longas-metragens produzidos por seus fundadores, ambos de 2014: Café, um dedo de prosa, dirigido por Squarisi, e História antes de uma história, dirigido por Lazaretti. “A pesquisa é interessante porque, além de retratar uma história, também se debruça sobre as técnicas usadas e sobre a própria produção de sentido desses filmes”, diz o orientador da dissertação.
O primeiro, narrado por Wandi Doratiotto e Vera Holtz, trata do impacto da cultura do café no Brasil, trazendo críticas ao modelo agroexportador com um tom humorístico. “O Café, um dedo de prosa de certa forma ampliou as temáticas de outros curtas-metragens que eu cito também na dissertação, falando sobre os símbolos regionais e sobre a história do Brasil”, aponta Silva.
O segundo opera no plano da metalinguagem ao trazer a reflexão sobre o fazer da animação. Nele, o senhor Doutor K começa a desvendar as técnicas de criação de um desenho animado e ensina às crianças Laurinha e Matias que o desenho “vem de dentro para fora”, trazendo a metáfora do “lápis como voz da alma”. O filme conta com a participação das cantoras Elza Soares e Ná Ozzetti na dublagem de personagens. “O longa do Lazaretti mostra bem o olhar dele para o processo de animação baseado tanto nas oficinas quanto nas formas mais poéticas e mais livres. Ele mostra os brinquedos ópticos e os personagens sendo criados ao longo do filme”, indica o autor da pesquisa.
Wilson Lazaretti, que também foi professor de Silva na graduação, comenta a contribuição da pesquisa para o NCA. “O trabalho do João Pedro tem imensa valia e consolida o trabalho do Núcleo, que, em muitos casos, vai além da animação, porque toda arte tem de extrapolar as fronteiras de sua técnica e cumprir a função social engendrada na natureza humana”.
O fundador do grupo destaca, ainda, a importância da coletividade nessas mais de cinco décadas de história. “A passagem das pessoas pelo Núcleo sempre contribui para o enriquecimento da instituição. O Núcleo é o resultado de todas essas passagens.”
