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Pessoa de costas usando jaqueta preta com emblemas e texto colorido, segurando capacete branco com detalhes em vermelho e azul, em ambiente externo com motocicleta parcialmente visível ao fundo e estruturas metálicas laterais.
Entregadores estão entre os grupos dispersos que podem se tornar força social reconhecível, segundo Pochmann

Para uma nova roupagem, um novo sujeito coletivo

Livro do economista Marcio Pochmann examina a formação social no Brasil em três tempos do capitalismo

Pessoa de costas usando jaqueta preta com emblemas e texto colorido, segurando capacete branco com detalhes em vermelho e azul, em ambiente externo com motocicleta parcialmente visível ao fundo e estruturas metálicas laterais.
Entregadores estão entre os grupos dispersos que podem se tornar força social reconhecível, segundo Pochmann

Por meio de uma abordagem histórica e analítica, o livro Novo sujeito coletivo constrói um panorama da sociedade brasileira em diferentes tempos a partir das formas de governança e das transformações sociais presentes em cada um deles. O capitalismo agrário, o capitalismo urbano-industrial e o capitalismo digital formam essa linha temporal das pesquisas de Marcio Pochmann. O autor destaca a transição para a Era Digital vigente e alerta para o risco de repetição dos padrões de dominação da Era Industrial, caso não haja preocupação com um projeto nacional popular e democrático.

Marcio Pochmann é economista, professor, pesquisador e político. Atualmente, é presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e professor colaborador do Instituto de Economia (IE) da Unicamp. Na entrevista a seguir, ele comenta os principais conceitos de seu livro e desenvolve reflexões acerca dos principais temas abordados.

Jornal da Unicamp – No contexto atual, uma governança contra-hegemônica ou a superação do sistema econômico são condições para um novo modelo?

Marcio Pochmann – Sim. Sem uma governança contra-hegemônica, não há novo modelo econômico e social em plena transição para a Era Digital, portadora de um significativo excedente de força de trabalho em relação aos requisitos do capitalismo financeirizado. O que se tem notado ao longo do ciclo político da Nova República, iniciado em 1985, é a prevalência de modalidades distintas, porém adaptativas, de reprodução da dominação mediante novas tecnologias.

O capitalismo brasileiro sempre produziu sujeitos sociais subordinados e sobrantes em seus distintos momentos históricos: o escravizado e a mão de obra livre no longevo e primitivo agrarismo; o operariado urbano na sociedade industrial; massas sobrantes no campo; e, agora, o trabalhador precarizado, endividado, conectado e monitorado em plena transição para a Era Digital. Em cada momento, o sistema reorganizou o padrão de governança da população no território nacional segundo as necessidades de acumulação e geração de excedente econômico, geralmente a partir de processos de contrarrevolução preventiva.

Por isso, não basta remediar os efeitos sociais do modelo atual. É necessário disputar a própria forma de governar a população, o território, o trabalho, os dados e a riqueza. Uma governança contra-hegemônica significa retirar a vida social do comando exclusivo do mercado, das plataformas, das finanças e dos algoritmos.

A superação do sistema econômico, nesse sentido, não é uma palavra de ordem abstrata, mas a condição concreta para impedir que a Era Digital transforme o Brasil em uma imensa população administrada pela precariedade, pela dívida, pela informalidade e pela vigilância tecnológica, uma espécie de fazendão do mundo.

Jornal da Unicamp – Em poucas palavras, o que seria o sujeito coletivo? De que maneira o coletivo precarizado, um “agregado social”, torna-se um sujeito político ativo?

Marcio Pochmann – O sujeito coletivo é a parte da população total que deixa de sofrer isoladamente para passar a reconhecer sua dor como uma condição comum, histórica e política. Ele nasce quando indivíduos dispersos percebem que seus problemas não são fracassos pessoais, mas efeitos de uma forma social de dominação. O desempregado, o entregador por aplicativo, a trabalhadora doméstica, o jovem endividado, a mãe solo, o morador da periferia, o idoso precarizado e o trabalhador informal deixam de aparecer como casos isolados e passam a formar uma força social reconhecível.

O “agregado social” é apenas uma multidão administrada, composta de pessoas contadas, endividadas, monitoradas, governadas e dispersas. O sujeito político nasce quando esse agregado cria consciência, linguagem, organização, conflito e projeto. Ele se torna ativo quando transforma sofrimento em reivindicação, fragmentação em solidariedade, indignação em organização e presença estatística em presença política.

Jornal da Unicamp – Tendo em vista os impactos da desindustrialização no país, que consequências se esperam para esta nova Era Digital?

Marcio Pochmann – A desindustrialização colocou o Brasil em posição perigosa diante do ingresso na Era Digital. O país entrou no século 21 sem completar plenamente a condição de sociedade urbana e industrial e agora se submete aos riscos da reconfiguração imposta pela economia digital, enquanto mero consumidor subordinado às tecnologias estrangeiras e propagador do esvaziamento da soberania nacional de dados.

A consequência mais grave tem sido a substituição do antigo projeto nacional de desenvolvimento por uma sociedade de serviços hiperconectada, precarizada, com plataformas importadas, baixa produtividade, dependência tecnológica e trabalho desprotegido. Ao deixar de disputar a fábrica do futuro, em razão da dominância do receituário neoliberal, o Brasil se submete à disputa por uma vaga no cenário mundial concorrido de países usuários, entregadores, consumidores e fornecedores de dados que sustentam a nova fase do subdesenvolvimento.

Sem indústria forte, ciência, tecnologia, infraestrutura digital soberana e capacidade de inovação, a Era Digital tende a aprofundar a dependência. O país exporta commodities, importa tecnologia, entrega seus dados às big techs e organiza sua população em torno de aplicativos, informalidade, crédito caro, endividamento e da difusão de antidepressivos diante de expectativas decrescentes e sem horizonte futuro.

A nova Era Digital pode produzir crescimento sem desenvolvimento, conectividade sem cidadania, inovação sem soberania e trabalho sem direitos. O problema nacional não se resume à tecnologia, mas é de natureza política e está associado à necessária formação de uma nova maioria política antineoliberal. Por isso, a pergunta decisiva para o Brasil que avança na Era Digital, neste segundo quarto do século 21, é se haverá um novo sujeito coletivo da emancipação ou apenas a submissão exploratória a ela e, nesse sentido, o fundamento para uma nova contrarrevolução preventiva.


Capa de livro com fundo dividido em três seções horizontais nas cores bege claro, marrom avermelhado e preto, com o nome do autor "MARCIO POCHMANN", o título "NOVO SUJEITO COLETIVO" e o subtítulo "A governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil", com a logo da editora "EXPRESSÃO POPULAR" na parte inferior.
Capa de livro com fundo dividido em três seções horizontais nas cores bege claro, marrom avermelhado e preto, com o nome do autor "MARCIO POCHMANN", o título "NOVO SUJEITO COLETIVO" e o subtítulo "A governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil", com a logo da editora "EXPRESSÃO POPULAR" na parte inferior.

Título: Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil 
Autor: Marcio Pochmann 
ISBN: 9788526818019
Edição: 1ª
Ano: 2025
Páginas: 200
Dimensões: 21 x 14 cm

Cartaz de fundo vermelho apresentando cinco lançamentos editoriais da Editora Unicamp organizados horizontalmente: à esquerda, livro "Reconstrução Negra" de W.E.B. Du Bois com capa preta e amarela; ao centro-esquerda, livro "Augusta Candiani" de Andrea Carvalho Stark com capa em tons claros; ao centro, livro "Funcionalidade Harmônica em Música Popular" com capa branca e vermelha; à direita, livro "Funcionalidade Harmônica em Música Popular" de Carlos Almada com diagrama em tons cinzas e azuis; cada obra apresenta título, autor e especificações técnicas em branco; rodapé contém logotipo da Editora Unicamp, endereço da livraria na Rua Sérgio Buarque de Holanda 421, e informações de contato com website e email em branco.
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