(Continuação de: Entre a metafísica e o poder das palavras)

Notas do passado de uma poeta
Em São João da Boa Vista, moradores mantêm viva a história da conterrânea

Rua Oscar Janson, número 18. A campainha toca, e uma senhora de cabelos brancos vem à porta. É dona Eunice Rabello Ciacco, que mora ali desde 1964. Aos 93 anos, ela ainda se recorda da época em que a casa era habitada pela família de Orides Fontela, nascida no mesmo endereço, em 21 de abril de 1940. “A gente não foi colega [de classe na escola], mas sabe o que ela gostava muito de fazer? Acróstico [poemas em que as iniciais de cada verso formam uma palavra ou frase]. Lembro que uma vez fez um com meu nome. Mas não tenho mais. É uma pena, a gente não guarda as coisas”, lamenta.
Fincada aos pés da serra da Mantiqueira, próximo à divisa com Minas Gerais, São João da Boa Vista (SP) tinha cerca de 40 mil habitantes naquela época, mas já possuía tradição artística – de lá também saíram a escritora Patrícia Galvão (Pagu) e a pianista Guiomar Novaes. A cidade não preservou apenas raridades que Orides escreveu enquanto aprimorava sua poesia, mas também memórias sobre a infância e a mocidade dela.
Na sede da Academia de Letras da cidade, uma roda de moradores de diferentes gerações atende ao chamado para falar de Orides. Ao fundo, vê-se a urna funerária com os restos da escritora, a estatueta do Prêmio Jabuti que ela recebeu por Alba (1983) e sua antiga cadeira de balanço. O encontro foi organizado por Neusa Menezes, responsável pelo site Mulheres de São João, e reúne pessoas que conviveram com ela na infância ou na juventude, outras que a conheceram de vista e passaram a admirá-la e entusiastas que descobriram sua obra posteriormente.
“Sempre ouvi minha avó e minha tia-avó [primas da escritora] contando histórias da Orides Fontela. Minha tia se lembrava perfeitamente de quando a Orides começou a ser alfabetizada pela mãe, Laurinda, aos 4 anos. Minha avó contava que, às vezes, ela parava uma brincadeira e corria a escrever qualquer coisa. Ainda não era poesia, mas de alguma forma já existia um interesse pelas letras por volta dos 5, 6 anos”, conta o músico Fabio Nogara, hoje gestor dos direitos autorais da poeta, que lamenta a ausência da obra oridiana nos currículos escolares.


No pai analfabeto, Orides reconhecia o primeiro mestre literário. Carpinteiro, Álvaro Fontela foi figura central na vida da poeta, inventando as histórias que alimentaram a criatividade da menina. “Eu via os dois andando sempre de braços dados pela cidade, ele segurando um guarda-chuva, mesmo em dias de sol. Aquilo parecia uma figura mítica, mexia com a minha imaginação. Eles eram completamente diferentes de tudo”, descreve a professora de sociologia Maria Célia Marcondes. As idas da dupla ao cinema sanjoanense se tornaram parte da memória coletiva: Orides e o pai tinham por costume falar alto durante a exibição dos filmes, muitas vezes dirigindo-se aos personagens na tela. “Se era faroeste, ela apontava para a tela e avisava o caubói que o bandido estava chegando”, lembra o artista plástico José Marcondes, que foi colega de classe dela no Ginásio São João.
Nas escolas por onde passou, a menina miúda de origem humilde impressionava pela facilidade em aprender e o gosto pela leitura. Naquele tempo, Marcondes notava que, embora respeitassem a colega brilhante, os outros alunos se sentiam intimidados e se mantinham distantes. “A maioria evitava até conversar com ela no intervalo das aulas, porque a Orides tinha muito conhecimento, e ninguém conseguia acompanhar o raciocínio dela, ninguém tinha argumento. Era de uma inteligência fora dos padrões para a cidade.” Solitária, a futura escritora devorava livros das bibliotecas, dedicando-se cada vez mais ao estudo autodidata de poetas.


Diante da presença de Orides, alguns professores também se sentiam inseguros, já que ela costumava corrigi-los no meio da aula, caso pescasse algum erro na explicação – “Mas sempre com muita educação”, garante Marcondes. “Uma das professoras de música disse para minha tia que tinha medo de dar aula para ela, ser confrontada e não saber o que responder”, completa Nogara.
Além de ser conhecida pela falta de tato, Orides sofria de uma dificuldade desconcertante em conter as emoções e reconhecia ter mais facilidade com as palavras, mas não é verdade que não tivesse amigos. Professora de língua portuguesa, a prima Ana Maria Salomão Prizendt talvez tenha sido a amizade mais próxima e longeva. “A Ana foi a primeira leitora e a única que ficou por perto dela até o fim, dando apoio, já que a Orides costumava ser mais agressiva com os amigos mais próximos”, aponta a sanitarista Marta Salomão, irmã de Ana Maria (que morreu em 2025). Com o tempo, a personalidade errática de Orides, acentuada pelo uso abusivo do álcool, serviu de combustível para que a mídia construísse uma imagem estereotipada e lhe conferisse uma aura de figura marginal. O tratamento revoltava a artista, que via sua poesia ser ofuscada.
A médica conta que as duas primas ficavam horas na casa da família Salomão, conversando sobre livros e compartilhando textos que escreviam. Em depoimento a Maria Célia Marcondes, Ana Maria revelou que Orides costumava falar detalhes sobre seu processo de escrita, como o cuidado com cortes nos versos (a forma como fragmentava palavras e pontuação para estruturar o poema). “Ela me disse uma vez que a Orides estudava muito como ia dividir e não admitia que não fosse do jeito como tinha imaginado”, esclarece. “No evento de lançamento do livro Teia aqui em São João, a Orides pegou o meu exemplar, contando que a editora tinha cometido um erro. Abriu na página do poema e fez um risco, corrigindo onde estava o erro.”
Maria Célia coleciona cartas, fotografias, livros e recortes de jornais e revistas sobre a escritora, além de toda a obra dela (inclusive traduzida para outros idiomas). Em um encontro com Orides, a professora de sociologia comentou que tinha um recorte do poema “Origem”, publicado em 1963 em São João da Boa Vista. A poeta, surpresa, perguntou se ela poderia lhe enviar o registro original, pois tinha reescrito o poema recentemente e não se lembrava da versão anterior. “Ela disse que queria fazer uma comparação. Mandei o poema, e ela me escreveu, depois, agradecendo”, recorda-se, explicando que, embora houvesse interesse em publicar as duas versões na coletânea Trevo, 1969–1988, não houve tempo: o livro já estava na gráfica. “O interessante é que são dois momentos da vida dela: um foi publicado nos anos 1960, e o outro, já na década de 1980.”


Em 2018, 20 anos após a morte da poeta, foi lançado na cidade o documentário Orides, onde ninguém mais, dirigido por David Ribeiro. As sessões do filme causaram um impacto maior entre a população local do que a notícia de que Orides seria homenageada pela Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), concorda o grupo. “Depois começou a entrar em contato gente das universidades de Pernambuco, de Minas Gerais, e o filme também foi exibido na USP, na Unicamp e na TV Cultura”, diz o cineasta. A obra ganhou o prêmio argentino Nuevas Miradas en la Televisión. “Orides é uma personagem muito interessante, com uma inteligência soberba e, ao mesmo tempo, uma pessoa sempre em busca de algo, numa jornada interior. Foi monja budista. Uma pessoa tempestuosa, mas também agradável, engraçada em alguns momentos e aflita em outros. Como todos nós”, resume.
