(Continuação de: A máquina do tempo de Orides Fontela)
Entre a metafísica e o poder das palavras
Poemas revelam facetas desconhecidas da escritora, entre as quais a concisão, o domínio do silêncio e o uso de símbolos

obra oridiana é frequentemente apontada como uma das mais sofisticadas e originais da literatura brasileira contemporânea – não se vê paralelo em nenhuma corrente literária. “A poesia dela inaugura uma linha que é difícil de ser definida. A meu ver, há uma divisão, grosso modo. Ou seja, são duas grandes vertentes, uma em que ela trabalha a ideia do espírito, da metafísica, do ser, e outra em que ela reflete sobre o poder da palavra, da linguagem verbal – até onde pode nomear as coisas”, sintetiza Alcides Villaça, professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP) que conheceu Orides quando eram ambos estudantes dessa universidade e, mais tarde, acompanhou de perto o trabalho dela.
A obra de Orides costuma ser definida por uma aversão a sentimentalismos e excessos, que ela combate com a concisão e a precisão nos versos e pelo domínio do silêncio, somado ao uso intenso de símbolos. No entanto, com o passar dos anos, admitiu ter se aberto para o mundo concreto e permitiu um certo lirismo em algumas composições.


Biógrafo de Orides, Gustavo de Castro ainda se surpreende com a maturidade de uma escritora que, aos 18 anos, já havia produzido grande parte de seus poemas. “O Antonio Candido a chamava de Rimbaud brasileiro exatamente por isso. Eu me pergunto como essa jovem estava tão madura para a poesia, quando nós sabemos que a poesia é alguma coisa que exige tempo de maturação, aperfeiçoamento do texto. Porque não existe formação de poeta”, reflete.
Sterzi afirma que a poeta não apenas se influenciou pelas referências que a ajudaram a desenvolver seu trabalho – e que incluem desde a poesia modernista, simbolista e concretista brasileira até os grandes poetas internacionais, assim como a filosofia de Kant, o catolicismo e o zen-budismo. Ela também teve a capacidade de estar em comunicação com inúmeras experiências poéticas, literárias e artísticas de seu tempo e de momentos anteriores, e de encontrar soluções singulares. “Fazendo coisas que nenhum outro fez. Que só ela fez. É isso que faz dela uma grande poeta, lida até hoje.”


Aos 27 anos, a autora deixou São João da Boa Vista para cursar Filosofia na USP, o que serviu para engrossar o arcabouço teórico gerado já na cidade do interior, como revela em um raro ensaio escrito nos anos 1990. Em São Paulo, seus textos logo chamaram a atenção de Antonio Candido, Marilena Chauí e José Aderaldo Castello. Um ano após a mudança para a capital, Orides fez sua estreia editorial com Transposição (1969), seguido de Helianto (1973), Alba (1983), ganhador do Prêmio Jabuti, Rosácea (1986) e Teia (1996), premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Se na escrita ela se norteou pela razão e pela ordem, atrapalhava-se com a vida prática, segundo o ensaio biográfico O Enigma Orides, lançado por Castro, e relatos de conterrâneos e críticos contemporâneos dela. Desde criança, preferia os livros a interações sociais e tinha dificuldade em reprimir as emoções, que por vezes transbordavam. “Sabemos que ela era meio idiossincrática, no que diz respeito ao convívio, e por muito tempo essa pauta foi muito presente na mídia. Mas isso precisa ser desconstruído, pois tira a luz da grande poesia que ela deixou. Ela era realmente genial”, defende o pesquisador.


“A um passo de”
Tonon iniciou a busca pelos monólitos oridianos em 2019, logo após ingressar no curso de Letras da Unicamp (e duas décadas após a morte de Orides). À época, especulava-se na academia sobre a possibilidade de existir um material escrito pela poeta quando jovem, sobre o qual não se tinha conhecimento e que estaria esquecido na cidade onde nasceu. “Ela própria tinha mencionado, em entrevistas, a existência de poemas publicados no jornal de São João que ficaram por lá”, afirma o pesquisador, que foi financiado pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Conterrâneo de Orides, ele se baseou em dois eventos-chave para estruturar o projeto. Primeiramente, a data de publicação do poema “Elegia” (1965), que arrebatou o crítico literário Davi Arrigucci Jr. (então estudante de Letras), transformando a vida da escritora definitivamente. Além disso, a descoberta da publicação original de “Cena” (1956) pelo jornalista Hediene Zara, no arquivo do próprio O Município, em 2012. “A notícia não repercutiu fora da cidade, tanto que ‘Cena’ não entrou na coletânea Poesia Completa, lançada em 2015.”
Na companhia de Zara, o professor de língua portuguesa examinou o poema e confirmou a autoria (devidamente creditada na página do jornal). “Arte Plástica”, “Fruto” e “Poema do Natal” foram descobertos por Tonon, após uma busca minuciosa na mesma hemeroteca, durante a qual esquadrinhou todas as edições d’O Município publicadas entre 1956 e 1967. Os três eram de 1965. O jornal tinha publicado outros, naquele mesmo intervalo, mas eram os que apareceram nos livros que ela lançaria depois, como “Torres” e o próprio “Elegia”, explica.


Monólitos oridianos
“Cena” foge ao que se espera da poesia oridiana – na forma, na estrutura ou no conteúdo. Revela, diz o pesquisador, uma poeta ainda em construção, mas em busca de sua voz. “Há uma voz lírica, um aspecto subjetivo que ela ainda não havia depurado”, aponta ele, referindo-se a uma das marcas que definem a poética da escritora sanjoanense: a abstração. A concretude do tema e a presença de versos mais longos do que ela viria a criar também denotam imaturidade.
Em contrapartida, aparece aquela que talvez seja a principal semente da poética oridiana: seu gene filosófico. Ele é notado, indica o professor de língua portuguesa, na presença de uma realidade que escapa à razão. “O poema traz uma carga de profundidade reflexiva que vai marcar a obra de Orides mais tarde. Elementos estruturais de sua obra, como a economia de imagens, ou temas como a transitoriedade, vão reaparecer depois em Transposição, Helianto e Alba, que ganhou o Prêmio Jabuti”, observa.


Do conjunto pesquisado, “Arte Plástica” foi o primeiro registro descoberto por Tonon na hemeroteca. Publicado em 1965, pouco após “Elegia”, foi escrito por uma Orides mais madura, aos 25 anos. “Talvez seja o melhor dos quatro. Era diferente de tudo o que estava saindo no jornal naquela época”, conta. Já não há um eu lírico: “Ela fugiu do confessional, tinha certa aversão à ideia de que sua poesia fosse identificada como feminina, no contexto da época. Portanto, eu sabia que, se encontrasse algo, o eu lírico se daria de forma diferente”.
Trabalhando com formas plásticas e versos enxutos – mais uma peça essencial para o trabalho dela –, a poeta se aproxima da filosofia e cria uma obra difícil, reconhece o pesquisador. Para analisá-la, ele recorreu a depoimentos antigos da autora. “Esse poema não é uma sequência de palavras; é mais palpável, quase tridimensional, uma escultura de linguagem”, descreve. A pista veio de um diagnóstico psiquiátrico de 1961: “A Orides dizia que o doutor Helinho, psiquiatra dela, tinha conseguido diagnosticá-la com hipertrofia de símbolos, ao ver que ela tinha muita facilidade com símbolos”. A condição foi transformada em influência e, desde então, ela disse ter buscado a abstração.


Jovem e distante dos grandes centros, sem conviver com outros artistas nem participar de correntes literárias, ela foi, porém, uma artista afinada com seu tempo, pontua Sterzi. A maneira como trabalhava os elementos gráficos em suas criações poéticas desde a mocidade, indica o orientador, é prova de que estava atenta ao que havia de novo. “É o caso do concretismo, que também estava aparecendo naquele momento. Os elementos gráficos deixam de ser apenas acessórios ao texto para ter um peso em si mesmos. Eles significam.” A imaginação plástica e a abordagem filosófica sugerem que ela estava em consonância com as artes visuais. “Há afinidades entre a imaginação plástica dela e a imaginação dos artistas de sua época, como Lygia Clark ou Hélio Oiticica”, sinaliza.
Em “Fruto”, a linguagem aparece pela primeira vez na pesquisa como temática – também algo que ela aperfeiçoou com o passar dos anos e incorporou à sua escrita. “Aqui é Orides madura”, reconhece Villaça. Segundo Tonon, é um poema metafísico, no qual o fruto serve como símbolo para uma especulação sobre a natureza do real. “O verbo não consegue decifrar o real, que se posiciona além dos limites do discurso, como um passo adiante.”


Finalmente, “Poema do Natal” apresenta uma faceta praticamente desconhecida da poeta, geralmente avessa a poemas de ocasião – que têm como tema um evento específico. “Ele pode ajudar a mudar um pouco a nossa maneira de pensar sobre a obra da Orides, na qual se observa, normalmente, uma fuga em relação ao circunstancial, como se ela fosse eliminando as circunstâncias de sua poesia”, destaca o orientador, lembrando a importância do gênero para alguns poetas modernistas brasileiros, como Carlos Drummond de Andrade, principal referência da jovem escritora. “Podemos ligar uma coisa à outra, pensar como a existência desse poema não era uma fuga do que era a poesia dela. Isso nos ajuda a complexificar a visão e a compreender, talvez, outras características do vínculo que a Orides tinha com esses poetas.”
Villaça revela ter ficado surpreendido com a existência do poema temático e confessa nunca ter imaginado que ela poderia escrever algo do gênero. “Achei bonito à beça e não entendi por que ela não quis publicar. Mas achei interessante que alguém tenha de fato encontrado e mostrado, por exemplo, o que Orides acha de Deus nascido, de Cristo nascido. Embora seja tudo sob um crivo de desconfiança.”


Redescoberta
O resgate dos poemas esquecidos ocorre em meio a um movimento de valorização do legado da escritora, reverenciada na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano. A crítica literária Rita Palmeira, curadora do evento, aponta a importância da obra de Orides no panorama da poesia brasileira contemporânea como um dos motivos para a escolha dela como homenageada de 2026. “Orides certamente é uma das maiores poetas do Brasil da segunda metade do século passado. O fato de sua obra, apesar de premiada e elogiada por críticos de prestígio, ser hoje pouco lida foi também um dado importante para a escolha. Era curioso que uma autora com a força de Orides não fosse amplamente conhecida”, diz.
Nas universidades, o interesse de jovens pesquisadores pela poética oridiana vem crescendo neste século, ressalta Cano, e esse movimento também reverbera no mercado editorial – a Hedra lançou em março os cinco livros individuais dela e preparava uma nova edição das poesias reunidas, interrompida pela morte recente da pesquisadora Ieda Lebensztayn, organizadora do compêndio.
Na avaliação do orientador, a pesquisa chega para adensar esse momento de novas leituras de Orides, em que ela já é consagrada como uma das principais poetas do país, graças ao trabalho de muitos críticos. “O interessante é ver que esse trabalho, que foi sendo feito ao longo do tempo por pessoas que conviveram com ela, ainda pode ganhar um elemento novo, uma renovação, no momento em que jovens pesquisadores começam a se interessar por ela, como ocorreu com o Fernando.”
(Continua em: Notas do passado de uma poeta)
