O nascimento de uma orquestra
Pesquisa recupera 24 anos de atuação de sociedade musical fundada em 1929, base da atual Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas


Parte da história musical de Campinas foi jogada em uma caçamba de lixo, no meio de entulhos de obras e restos de macarrão. Encontradas por um catador, em 2014, as atas da fundação da Sociedade Symphonica Campineira (SSC), apesar de sujas e com sinais visíveis de envelhecimento, ainda mantinham legível o relato do que aconteceu no dia 6 de outubro de 1929, no salão nobre do Clube Italiano de Campinas. Ao reconhecer o valor histórico daquele “lixo”, o coletor encaminhou o material à Prefeitura e assim salvou o documento oficial da criação desse grupo, embrião da atual Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas (OSMC), embora não tenha sido esta uma história contínua.
As atas restauradas e hoje mantidas pelo Centro de Memória da Unicamp (CMU) foram o ponto de partida da tese “A Sociedade Symphonica Campineira (1929–1953): trajetória e lutas no campo musical”, da historiadora Mariana de Oliveira Cândido. Para contar e documentar os 24 anos da sociedade independente, criada por músicos profissionais e amadores, a pesquisadora também precisou garimpar outros registros esquecidos.
Transição e fim do cinema mudo
A cidade atravessava um período de transição nas três primeiras décadas do século 20, após surtos de febre amarela terem devastado a população e mergulhado o município em uma crise econômica no final do século 19. Acontecia também, no final da década de 1920, o fim da era dourada do cinema mudo, e com o advento do som a projeção dos filmes deixou de ser acompanhada ao vivo por orquestras.
“Campinas já era uma cidade rica, com um forte associativismo cultural, a exemplo do Clube Semanal de Cultura Artística que se organizou no século 19. Com o desenvolvimento urbano, a cidade continuou com esta pujança cultural”, diz a historiadora. Campinas já havia tido, décadas antes, a Orquestra Campineira, mas a Sociedade Symphonica propunha algo diferente: concertos mensais e por assinatura, como existia na Europa.
“A ideia da orquestra vem também da Campinas renascida pós-febre amarela. Uma cidade que era rica antes dos surtos e que passava agora por uma transição”, destaca a professora Lenita Waldige Mendes Nogueira, do Instituto de Artes (IA), orientadora de Cândido no mestrado e no doutorado.
Segundo ela, havia também a intenção de valorizar profissionalmente músicos dispersos e enaltecer a memória do compositor e maestro campineiro Carlos Gomes (1836–1896). “Simbolicamente, ele é fundamental nessa representação de Campinas. Ter uma orquestra era também motivo de distinção na terra de Carlos Gomes.”
Músicos organizados
Nas primeiras décadas do século 20, outras orquestras surgiam em todo o Brasil. A SSC foi uma das primeiras e também uma das poucas fora das capitais. “Era um grupo muito articulado, liderado pelo maestro italiano Salvador Bove. Dialogava com músicos locais e de fora da cidade, como a famosa pianista Dinorá de Carvalho, que regeu um concerto da SSC em 1937. Esse pioneirismo da Symphonica foi fundamental, apesar de todas as dificuldades”, avalia a autora da pesquisa.
Na própria ata da fundação, os músicos registraram o objetivo de valorização da classe musical, diz Cândido. “O amadorismo era um traço muito comum na época. O clarinetista era também sapateiro e colocava seus anúncios nos programas impressos. Trabalhavam durante o dia no seu ofício e à noite eram músicos, ao lado de profissionais que já tinham estudado na Europa ou em conservatórios. Havia de músicos profissionais a alfaiates, sapateiros e funcionários públicos.”
O momento era de transição não só para a cidade, mas para a própria atividade profissional dos músicos. Após o surgimento do cinema sonoro, gradualmente eles iam perdendo seus postos de trabalho nas salas.


Memória de Campinas
A pesquisa apresenta os contextos sociológico, musical e histórico. Para Nogueira, a tese contribui muito para a memória da cidade. Em seu livro recém-lançado Campinas nos escuta! A pastoral de Coelho Netto: história, texto e música (2026, CMU Publicações), a professora também descreve a cena musical de Campinas no período entre a morte de Carlos Gomes (1896) e a criação da SSC (1929).
A SSC tinha 29 músicos em sua fundação. Em seu primeiro concerto, 40 dias depois, já contava com 51 instrumentistas, e no ano seguinte chegaria a 60. Em 24 anos de história, cerca de 160 músicos participaram do grupo. Entre eles, destacam-se Reynaldo Prestes e Jorge Whiteman, várias vezes eleitos presidentes da sociedade, e os membros da família Di Tullio, incluindo os regentes titulares João e Mário di Tullio, que sucederam ao fundador Salvador Bove, e o violinista Luís di Tullio. Muitos dos primeiros concertos foram realizados em locais que também funcionavam como cinemas, como o Cine-Teatro São Carlos e o Teatro Rink.
A sociedade se organizava democraticamente com eleição de presidente, vice e secretários. Nas assembleias, discutiam-se questões internas registradas em atas, como a falta de dinheiro para pagar os músicos. A contribuição dos associados sustentava a sociedade, junto com a bilheteria dos concertos. Não há número exato, mas no início havia mais de mil associados contribuintes. Em 1932, eram cerca de 300, entre eles doutores, militares, professores e políticos.
Entre as décadas de 1930 e 1950, houve ao menos três propostas para que a orquestra fosse municipalizada. Apesar do apoio do prefeito Orosimbo Maia, que foi um grande frequentador da SSC, a incorporação à estrutura municipal não prosperou na Câmara. A sociedade encerrou suas atividades em 1953.
Projeto sinfônico
Em 1950, Luís di Tullio participou da Semana Carlos Gomes e, no final da mesma década, criou o grupo Jovens Violinistas de Campinas, que logo se expandiu, até formar a Orquestra João di Tullio, em homenagem ao ex-maestro da SSC. Essa orquestra foi adotada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas e passou a ser chamada de Orquestra Universitária Campineira, em 1963, a convite do monsenhor Emílio José Salim.
Em 1965, um acordo com a Secretaria Municipal de Educação levou à criação da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas (OSMS), instituída por lei municipal durante a gestão do prefeito Ruy Hellmeister Novaes. Em 1968, a Sinfônica Municipal fez seu primeiro concerto, e muitos dos músicos que participaram daquela primeira formação eram egressos da SSC. “Institucionalmente não era a mesma sinfônica, mas foi a continuidade de um projeto sinfônico que nasceu em 1929”, diz Cândido.
