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A velhice que ninguém quer ver

Livro reflete sobre aposentadoria, mercado de trabalho e cuidado de longa duração na chamada economia da longevidade

Duas mãos enrugadas repousam sobre um bastão de madeira desgastado em fotografia em preto e branco, com a pessoa vestindo roupa de cor escura ao fundo desfocado.
Duas mãos enrugadas repousam sobre um bastão de madeira desgastado em fotografia em preto e branco, com a pessoa vestindo roupa de cor escura ao fundo desfocado.

No século 21, os avanços tecnológicos e científicos nos proporcionaram melhorias sem precedentes na qualidade e expectativa de vida. Entretanto, os avanços sociais não acompanharam esse ritmo, o que nos coloca diante de uma contradição: enquanto cada vez mais pessoas atingem a “quarta idade” – de octogenários a centenários –, as sociedades nunca estiveram tão despreparadas para lidar com o envelhecimento.

Segundo dados do IBGE, a expectativa de vida no Brasil ultrapassou os 76 anos, e estima-se que, até 2050, o país terá mais de 66 milhões de pessoas acima dos 60 anos. Esse fenômeno surge acompanhado pelo medo de milhares de pessoas que enxergam o “estar velho” como um problema social, político e, principalmente, econômico. Com políticas de cuidado fragmentadas, aposentadorias com baixo poder de compra, mercados de trabalho que descartam profissionais acima dos 50 anos e fortes preconceitos, a velhice é não somente negligenciada, mas também cercada por um imaginário coletivo degradante.

Nesse cenário contraditório, Jorge Félix – pesquisador financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e jornalista especializado em envelhecimento populacional – dedicou parte de sua carreira a compreender o que chama de “economia da longevidade”, que analisa os custos financeiros e humanos do envelhecimento, os impactos sociais da segregação dos idosos, as implicações da transferência da responsabilidade do cuidado do Estado para as famílias e a transformação do “bom envelhecimento” em privilégio, entre outros aspectos.

Na entrevista abaixo, o autor apresenta detalhes sobre o processo de escrita da obra e discute as transformações que a sociedade deve promover para enfrentar esse tema complexo.

Jornal da Unicamp – Como surgiu a ideia de escrever A (difícil) decisão de envelhecer? Quais são os principais objetivos da obra?

Jorge Félix – Muitas pessoas me falavam: “Você precisa escrever sobre tal assunto” ou “Você tem alguma coisa sobre o assunto x?”. E eu já havia escrito sobre aquilo que as pessoas mencionavam ou me pediam para abordar. Então, percebi que a plataforma digital é traiçoeira, porque ela armazena, mas também esconde. Para ir na contramão dessa lógica, era necessário resgatar muita coisa que as pessoas gostariam de ler, ou seja, fazer mais do que simplesmente publicar um livro sobre um assunto novo dentro dos estudos do envelhecimento. Infelizmente, muitos dos temas que abordo nos artigos e ensaios reunidos no livro continuam muito atuais – mais do que eu e a sociedade gostaríamos. Portanto, o objetivo principal é fazer essa intervenção no debate sobre a velhice, o bem-estar social e o cuidado.

Jornal da Unicamp – De que maneira a negação da passagem do tempo e do envelhecimento afeta o funcionamento e o desenvolvimento das sociedades contemporâneas?

Jorge Félix – Esse é o meu ponto principal no livro. É um chamado à reflexão e à conscientização sobre o envelhecimento. O debate público, no meu entender, está muito centrado no envelhecimento ativo, no envelhecimento saudável, na terceira idade etc. Isso é muito bom, e, em tese, uma coisa não exclui a outra. Só que, na prática, está excluindo e, de repente, a velhice é apagada. A heterogeneidade está sendo ignorada, e a consequência é que as políticas públicas passam a se dirigir quase para um não envelhecimento. Dessa forma, quem mais perde é a velhice dependente, aquela que precisa de cuidados de longa duração e que acaba ficando de fora tanto dos debates e discussões quanto da elaboração de políticas públicas.

Jornal da Unicamp – O entendimento do envelhecimento exige diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, como medicina, psicologia, sociologia e economia. Como a obra articula essas diferentes disciplinas?

Jorge Félix – Bom, eu sou um adepto ou seguidor da complexidade de Edgar Morin, e minha formação é totalmente multi e interdisciplinar. Sou jornalista, autor de teatro, amante da literatura, fiz mestrado em Economia, doutorado em Ciências Sociais e acredito que eu passeie pelas três áreas – a antropologia, a sociologia e a ciência política –, pois fui repórter de política durante décadas. Eu tento trazer isso tudo para as minhas pesquisas sobre o envelhecimento. E o livro, acredito, mostra isso justamente porque a realidade é complexa e uma única área não é capaz de explicá-la ou de nos fazer compreendê-la minimamente. O envelhecimento populacional observado hoje é um fato social total, portanto é interdisciplinar. A arte, por exemplo, nos ajuda a refletir e até a desvendar muitos pontos incompreensíveis para a ciência.

Jornal da Unicamp – De que forma o livro contribui não somente para os estudos sobre envelhecimento, mas também para a compreensão da realidade sociopolítica e econômica do Brasil diante do envelhecimento populacional?

Jorge Félix – Como todos sabem, Marx disse que o maior desafio para combater o capitalismo é a ausência de consciência de classe. O título, então, é justamente um chamado a essa conscientização.

Se a pessoa, individualmente, nega a velhice, como pode partir para a ação de reivindicar seus direitos? A tomada de consciência de cada um, portanto, é o que influenciará a sociedade na compreensão do que está acontecendo. Como destaco no livro, a humanidade vive um momento inédito: nunca o envelhecimento populacional havia sido experimentado nessa escala. É preciso tomar a decisão sugerida pelo título para enfrentarmos esses desafios socioeconômicos.


Capa de livro com fundo bege claro à esquerda e padrão geométrico em preto e branco com linhas entrelaçadas à direita, contendo o texto "Jorge Félix" no topo em cinza, "A (DIFÍCIL) DECISÃO DE ENVELHECER" em preto no centro, e "EDITORA UNICAMP" em branco sobre fundo preto na base.
Capa de livro com fundo bege claro à esquerda e padrão geométrico em preto e branco com linhas entrelaçadas à direita, contendo o texto "Jorge Félix" no topo em cinza, "A (DIFÍCIL) DECISÃO DE ENVELHECER" em preto no centro, e "EDITORA UNICAMP" em branco sobre fundo preto na base.

Título: A (difícil) decisão de envelhecer: reflexões sobre longevidade, cuidado e bem-estar social
Autor: Jorge Félix
ISBN: 978-85-268-1909-2
Edição: 1ª
Ano: 2026
Páginas: 192
Dimensões: 16 x 23 cm

Cartaz promocional em fundo vermelho apresentando três lançamentos de livros da Editora Unicamp: à esquerda, "Contos de Machado de Assis" com 136 páginas e dimensões 11 x 18 cm; ao centro, "Contos de Maria Firmina dos Reis" com 144 páginas e dimensões 11 x 18 cm; à direita, "Conto de Joaquim Manuel de Macedo" com 208 páginas e dimensões 11 x 18 cm, cada capa apresentando padrão geométrico colorido com círculos e formas abstratas em tons de verde, amarelo, rosa, branco, roxo e marrom, acompanhados de informações de autoria, endereço da livraria na Rua Sérgio Buarque de Holanda, 421 na Cidade Universitária Unicamp, logotipo da Editora Unicamp no canto inferior esquerdo e dados de contato do website e email no canto inferior direito.

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