
Divulgação científica, do mundo acadêmico ao saber público
Escrito por linguistas no IEL, livro relata experiência de disciplina que ensina alunos a divulgar pesquisas em vídeos e podcasts

Divulgação científica, produção textual e práticas extensionistas, publicado pela Editora da Unicamp, trata de uma proposta de ensino de leitura e escrita voltada ao terceiro eixo do tripé universitário: a extensão. A disciplina que deu origem ao livro, Laboratório de Produção Textual II (LabTxt), do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL-Unicamp), tem como objetivo apresentar ao aluno as práticas que regem a produção acadêmica e, ao mesmo tempo, incentivá-lo a divulgar o conhecimento produzido pela universidade para além dela.
A obra faz parte da série Extensão Universitária da Editora da Unicamp – voltada à divulgação das iniciativas de caráter extensionista da Universidade – e foi escrita por Anna Christina Bentes, Caio Mira e Anderson Carnin. Bentes é doutora em Linguística pela Unicamp e atualmente leciona no Departamento de Linguística do IEL, assim como Mira, que é mestre e doutor em Linguística pela Unicamp. Carnin é professor do Departamento de Linguística Aplicada do IEL, atuando na área de Educação Linguística em Língua Materna. Na entrevista a seguir, eles comentam as motivações por trás da escrita do livro e tratam da relação entre a produção acadêmica e a extensão universitária.
Jornal da Unicamp – Quais foram as principais motivações e os maiores desafios na escrita de Divulgação científica, produção textual e práticas extensionistas?
Anna Christina Bentes, Anderson Carnin e Caio Mira – A principal motivação foi a nossa vontade de registrar e sistematizar a experiência da disciplina Laboratório de Produção Textual II (LabTxt), do curso de Letras do IEL, iniciada em 2019, que se tornou um espaço de integração entre as práticas de produção textual no contexto acadêmico-científico e a divulgação científica. O livro nasceu do intuito de mostrar como a produção textual pode ser o eixo articulador entre a formação do aluno e a responsabilidade social da universidade.
Não se trata apenas de problemas relacionados ao domínio (ou não) da norma-padrão ou à ideia de rigor da escrita científica. A questão envolve a experiência e a compreensão dos gêneros textuais acadêmico-científicos, dos seus necessários movimentos retóricos, da especificidade de sua organização argumentativa e dos critérios de produção e de validação do conhecimento no campo acadêmico-científico.
Nesse cenário, o nosso desafio ao escrever o livro foi explicitar o que muitas vezes permanece implícito: o que significa ler uma dissertação ou tese? Ao tematizar essas e outras práticas, levamos os alunos a assumir uma postura reflexiva sobre as suas práticas de leitura e escrita e sobre o próprio fazer acadêmico.
Em seguida, os alunos são levados a refletir sobre a necessidade de mobilizar outra linguagem, a da divulgação científica, de forma a fazer chegar, a diferentes públicos, os resultados das pesquisas desenvolvidas na universidade. Nesse sentido, o livro busca preencher uma lacuna.
Jornal da Unicamp – Como o projeto pode servir de inspiração para outras iniciativas de extensão universitária?
Bentes, Carnin e Mira – O livro pode inspirar ao mostrar que a extensão universitária não precisa ser concebida como algo periférico ou separado das disciplinas. Ao contrário, as iniciativas extensionistas podem emergir de uma reflexão no interior das próprias práticas de ensino. No caso de LabTxt, partimos de um problema: como inserir estudantes do primeiro ano no universo da escrita acadêmica de forma crítica e consciente? A resposta a essa questão foi articular a leitura de dissertações e teses, dois gêneros acadêmicos canônicos, na produção de resenhas destinadas à própria comunidade acadêmica. Posteriormente, ocorre a elaboração de vídeos ou de podcasts com a função de divulgação dessas pesquisas.
A experiência demonstra que a curricularização da extensão pode ser construída a partir da imersão em práticas de produção textual no contexto acadêmico-científico.
Jornal da Unicamp – Qual é o papel da produção textual para o desenvolvimento de materiais de divulgação científica?
Bentes, Carnin e Mira – A produção textual é o eixo estruturante de todo o processo. Não há divulgação científica consistente sem um trabalho de leitura e escrita ativo e reflexivo. É no processo de escrita e reescrita que os alunos aprendem a refletir sobre o que estão fazendo, a organizar ideias e a transformar a linguagem acadêmica em linguagem acessível. Ao longo do livro, defendemos que a textualização de conteúdos específicos do campo acadêmico-científico deve ser entendida como prática social situada. Para o estudante ingressante, lidar com a escrita na universidade é aprender a ocupar uma posição no campo acadêmico-científico. Esse exercício de consciência sobre a própria prática textual é formativo tanto para a vida acadêmica quanto para a atuação profissional futura.
Jornal da Unicamp – Para qual público a obra é mais indicada e por quê?
Bentes, Carnin e Mira – O livro é indicado para estudantes de graduação, principalmente ingressantes, que desejam compreender melhor as práticas de escrita e de divulgação no interior da universidade. O relato da experiência do LabTxt também pode inspirar iniciativas de professores que trabalham com disciplinas iniciais, pois aborda as dificuldades de leitura e escrita que marcam o ingresso na universidade. Para os alunos, o livro pode funcionar como uma espécie de “porta de entrada reflexiva” para o mundo acadêmico-científico. Ele explicita práticas que muitas vezes permanecem implícitas: como se lê uma pesquisa, como se escreve uma resenha, como se transforma um trabalho acadêmico em material de divulgação científica e quais são as responsabilidades envolvidas nesse processo. De forma mais ampla, o livro dialoga com gestores e pesquisadores interessados na curricularização da extensão e na divulgação do conhecimento científico.


Título: Divulgação científica, produção textual e práticas extensionistas
Autores: Anna Christina Bentes, Caio Mira e Anderson Carnin
Ano: 2025
Páginas: 200
Dimensões: 14 cm x 21 cm

