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Casca de laranja é matéria-prima de hidratante

Resíduo cítrico transforma ouro e prata em nanopartículas usadas em formulação de creme

Mão enluvada em branco segurando uma petri dish de vidro contendo líquido transparente, com um pincel de cerdas finas aplicando uma substância branca cremosa na borda do recipiente, enquanto ao fundo desfocado observa-se outro frasco de vidro com tampa, em ambiente de laboratório com iluminação clara.
A formulação do creme foi acompanhada por mais de cem dias em testes de estabilidade, sem que as nanopartículas se aglomerassem no líquido
Mão enluvada em branco segurando uma petri dish de vidro contendo líquido transparente, com um pincel de cerdas finas aplicando uma substância branca cremosa na borda do recipiente, enquanto ao fundo desfocado observa-se outro frasco de vidro com tampa, em ambiente de laboratório com iluminação clara.
A formulação do creme foi acompanhada por mais de cem dias em testes de estabilidade, sem que as nanopartículas se aglomerassem no líquido
Logo da empresa SEC Unoun Inovação, composto pela palavra "sec" em vermelho, seguida pela palavra "unoun" em azul-petróleo, com a palavra "inovação" em cinza abaixo, acompanhadas de um diagrama estilizado à esquerda formado por linhas cinzas conectando pontos pretos e cinzentos, representando uma rede ou estrutura de nós interconectados.
Logo da empresa SEC Unoun Inovação, composto pela palavra "sec" em vermelho, seguida pela palavra "unoun" em azul-petróleo, com a palavra "inovação" em cinza abaixo, acompanhadas de um diagrama estilizado à esquerda formado por linhas cinzas conectando pontos pretos e cinzentos, representando uma rede ou estrutura de nós interconectados.

Um grupo do Instituto de Química (IQ) da Unicamp desenvolveu um processo para produzir nanopartículas biogênicas de prata e ouro usando hesperetina, composto antioxidante de origem vegetal encontrado principalmente na parte branca da casca de frutas cítricas, como a laranja. A tecnologia deu origem a uma formulação para produção de um nanocosmético – capaz de chegar a camadas mais profundas – com potencial hidratante e antioxidante para a pele.

O trabalho foi conduzido no Laboratório de Química Biológica (LQB) da Universidade, sob coordenação da professora Ljubica Tasic, com participação das pesquisadoras Letícia Huan Bacellar Liu e Fernanda Maria Furian Trombetta, engenheira química. A pesquisa teve origem em um projeto conduzido por Tasic há uma década, sobre valorização de resíduos da casca de laranja, e avançou para o desenvolvimento da tecnologia com as dissertações de mestrado de Liu e Trombetta.

“Já existem no mercado produtos com nanopartículas de ouro, mas produzidos por síntese química. A diferença da tecnologia desenvolvida pela nossa equipe está na origem biológica dos insumos”, afirma a professora.

A combinação também aposta na ação antimicrobiana das nanopartículas de prata. “Temos uma formulação dermocosmética que melhoraria o aspecto da pele: o ácido hialurônico contribui para a hidratação, e a nanopartícula de ouro é o agente carreador da hesperetina, que tem potencial de melhorar o fluxo sanguíneo local e atenuar olheiras, além de atuar como agente antioxidante e anti-inflamatório”, explica Trombetta.

Pessoa usando óculos de armação azul e preta, vestindo jaleco branco sobre camiseta vermelha, segurando com a mão direita um tubo de ensaio contendo líquido amarelo enquanto observa o objeto, em ambiente de laboratório com fundo desfocado.
A química Letícia Huan Bacellar Liu: sua dissertação colaborou com o avanço da pesquisa que resultou na criação do hidratante
Pessoa usando óculos de armação azul e preta, vestindo jaleco branco sobre camiseta vermelha, segurando com a mão direita um tubo de ensaio contendo líquido amarelo enquanto observa o objeto, em ambiente de laboratório com fundo desfocado.
A química Letícia Huan Bacellar Liu: sua dissertação colaborou com o avanço da pesquisa que resultou na criação do hidratante

Transformação

Da casca de laranja é extraída a hesperidina, flavonoide que, hidrolisado, dá origem à hesperetina. Essa molécula tem tripla propriedade: reduz os íons de prata e ouro em solução, formando nanopartículas, estabiliza as nanopartículas, e depois atua como princípio ativo na pele.

Por serem muito pequenas – a espessura de um fio de cabelo é cerca de 5 mil vezes maior do que elas –, as nanopartículas adquirem propriedades distintas das dos metais em escala comum: a nanoprata resultante tem coloração amarelada, e o nano-ouro, tom que varia do rosado ao azulado, e ambos exigem quantidade muito pequena de metal para produzir o efeito esperado. Isso, segundo a professora, pode manter o custo de produção baixo mesmo usando prata e ouro como matérias-primas.

A tecnologia não é voltada ao tratamento de doenças de pele. Trata-se de um dermocosmético, categoria de produtos cosméticos com ativos de ação comprovada, mas sem finalidade terapêutica regulada como medicamento.

Testes de estabilidade

A síntese das nanopartículas seguiu o princípio da “síntese verde”, sem uso de reagentes químicos agressivos. A formulação com as nanopartículas foi acompanhada por mais de cem dias em testes de estabilidade. Nesse período, a nanoprata e o nano-ouro permaneceram dispersos no líquido, sem se aglomerar – sinal de que o creme mantém suas propriedades ao longo do tempo.

De acordo com as pesquisadoras, encontrar a forma correta de combinar os ingredientes no creme foi um dos pontos mais delicados do desenvolvimento. “Essa padronização do procedimento da formulação é que tornou o creme estável. Hoje, temos o know-how do procedimento”, diz Tasic.

A formulação final resultou em um creme com pH compatível com o da pele e viscosidade semelhante à de produtos hidratantes já existentes no mercado. O processo e a formulação foram protegidos por pedido de patente depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) com estratégia da Agência de Inovação Inova Unicamp.

Segurança

Antes de avançar com a formulação, o grupo testou as nanopartículas in vitro, diretamente em células. Foram avaliadas em queratinócitos, células que compõem a camada mais externa da pele, e células Vero, uma linhagem de laboratório amplamente utilizada em pesquisas biomédicas e na indústria farmacêutica para avaliar a biocompatibilidade e a segurança de novos compostos. O resultado, segundo as pesquisadoras, foi promissor.

Quanto maior a dose aplicada, maior a viabilidade celular (indicador de que as células mantêm a integridade da membrana e as funções normais, usado para monitorar culturas em laboratório e testar a toxicidade de formulações dermocosméticas e farmacêuticas). O metabolismo das células tratadas não apresentou alteração significativa em relação ao grupo controle, sinal de que as partículas não são tóxicas nas condições testadas.

A nanoprata biogênica também foi avaliada quanto à atividade antimicrobiana e antiviral. “Nós até apelidamos as nanopartículas de prata de nanobióticos”, brinca Tasic, referindo-se ao espectro amplo de ação da prata contra microrganismos. Já o nano-ouro funciona como carreador: por ser mais inerte, ele não sofre oxidação após a aplicação e libera aos poucos a hesperetina retida em sua superfície, prolongando o efeito ativo na pele.

Pessoa com cabelo ruivo comprido, usando jaqueta jeans preta sobre camiseta preta, com as mãos gestuculando enquanto fala, posicionada em frente a bancada de laboratório desfocada ao fundo contendo equipamentos, frascos, garrafas e materiais científicos diversos.
Ljubica Tasic, do IQ, que coordena a pesquisa: o trabalho já resultou em pedido de patente depositado
Pessoa com cabelo ruivo comprido, usando jaqueta jeans preta sobre camiseta preta, com as mãos gestuculando enquanto fala, posicionada em frente a bancada de laboratório desfocada ao fundo contendo equipamentos, frascos, garrafas e materiais científicos diversos.
Ljubica Tasic, do IQ, que coordena a pesquisa: o trabalho já resultou em pedido de patente depositado

Produção em escala

Toda a validação até aqui ocorreu em escala de laboratório. Para chegar ao consumidor, a tecnologia depende de diferentes testes e de uma empresa parceira capaz de absorver a tecnologia e ampliar a produção. “Precisaríamos de alguém que aumentasse a escala, talvez uma empresa spin-off. Estamos avaliando linhas de fomento ou financiamento para tentar começar a produção”, diz Tasic.

A formulação de nanopartículas de ouro e prata com casca de laranja não é o primeiro resultado do grupo nessa linha. O mesmo laboratório já havia obtido uma patente concedida para um creme de uso farmacêutico no tratamento de feridas, à base de nanopartículas de prata biogênicas. O grupo também conduz outras pesquisas com nanopartículas metálicas biogênicas.

Para Liu, o maior valor do projeto está em aproximar a Universidade da indústria. “É recompensador ver uma tecnologia desenvolvida no laboratório poder ser licenciada e chegar ao mercado. Existe uma ideia na sociedade de que a universidade e o mercado estão muito distantes, e isso ajuda a aproximar e trazer para a realidade das pessoas um pouco do que a gente faz aqui.”

Licenciamento

O processo de produção da formulação cosmética com nanopartículas biogênicas de prata e ouro foi protegido com o apoio da estratégia de propriedade intelectual da Inova Unicamp, agência de inovação da Unicamp.

Empresas interessadas em licenciar e absorver a tecnologia para desenvolvê-la em um produto, além de escalar para o nível industrial, podem entrar em contato com a área de Transferência de Tecnologia pelo site da Inova Unicamp, responsável pela negociação de licenciamentos e parcerias de transferência de tecnologias da Universidade. Mais informações sobre esta e outras tecnologias disponíveis podem ser consultadas no Portifólio de Tecnologias da Unicamp.

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