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A longa jornada de um pequeno animal marinho

Pesquisadoras encontram espécie de ofiúro nunca antes vista em ilha do Atlântico

Dois organismos marinhos com corpos alongados e segmentados em tons de laranja e marrom, cobertos por padrões de pontos avermelhados, possuem múltiplos apêndices filiformes ao longo de suas estruturas, apresentados contra fundo preto em vista aproximada de detalhe biológico.
Detalhes do Breviturma pusilla vistos por microscópio: animal tem aspecto áspero e seu disco central pode atingir o tamanho máximo de 10 milímetros

A olho nu, o pequeno organismo de poucos milímetros pouco se destaca entre a variedade de animais marinhos existente no arquipélago de Trindade e Martim Vaz (TMV). Talvez por isso, ele tenha passado despercebido entre as cerca de cem espécies que o Laboratório de Echinodermata (Equi.Lab) do Museu de Diversidade Biológica (MDBio) da Unicamp recebeu para análise. Mas, quando a bióloga Cecília Damiano o observou com um microscópio tridimensional, percebeu a riqueza de detalhes da Breviturma pusilla e, ao mesmo tempo, se questionou: como esse equinodermo conhecido como serpente-do-mar, típico dos oceanos Índico e Pacífico chegou às águas brasileiras?

A resposta permanece indefinida. O grupo de ilhas onde ela foi encontrada faz parte do território brasileiro mais a leste do continente, a 1.200 km do Espírito Santo (ao qual pertence), mas quase cinco mil quilômetros o separam do extremo sul da África, onde tem início o oceano Índico. Comum na extensão que abrange desde a costa leste desse continente até o Japão e a Oceania, a descoberta representa o único registro desse ofiúro (um tipo de invertebrado marinho pertencente ao mesmo grupo das estrelas-do-mar) em todo o Atlântico e o primeiro do gênero Breviturma no sul desse oceano.

Um artigo recém-publicado no periódico Marine Biology Research traz a descrição e ilustração detalhadas dos espécimes encontrados na ilha, bem como uma chave taxonômica com informações atualizadas sobre as diferenças entre as nove espécies do gênero. Assim como suas parentes mais famosas, o animal é formado por um disco central, onde ficam seus órgãos, envolto por braços. Mas, ao contrário daquelas, os braços desses ofiúros são longos, finos e flexíveis, o que dá a eles uma locomoção mais ágil e coordenada, semelhante à realizada pelas serpentes.

A espécie, a menor de seu gênero, atinge um tamanho máximo de disco de 10 milímetros e tem cor amarronzada. A presença de grânulos calcários no corpo e de espinhos nos braços, que só podem ser vistos com auxílio do estereomicroscópio (microscópio tridimensional), completa a lista de características do animal. “Ela tem uns espinhos que, quando olhamos na lupa, parecem de vidro. São frágeis e delicados, mas com um aspecto áspero. E observando um deles, que havia se quebrado, foi possível ver que ele era oco internamente”, explica Damiano, que é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp.

O trabalho somente foi possível graças a uma análise inédita do organismo, realizada com a técnica de microscopia eletrônica de varredura (MEV). O equipamento produz imagens tridimensionais de altíssima resolução do objeto analisado, o que permitiu aos pesquisadores observarem estruturas microscópicas que nunca haviam sido descritas para esse invertebrado. A informação irá auxiliar no trabalho de outros cientistas que desejam pesquisar a espécie, pouco conhecida no mundo.

Proteção do arquipélago

Damiano desenvolveu o estudo em parceria com especialistas da Unicamp e da Universidade de São Paulo (USP). Em seu doutorado, ela vem descrevendo a diversidade de ofiúros presentes em Trindade e Martim Vaz, arquipélago formado por cinco ilhas e diversos rochedos e ilhéus no meio do oceano. Devido ao seu isolamento, o local abriga diversas espécies endêmicas, mas muitas já estão ameaçadas pela introdução, no passado, de animais exóticos. Por isso, hoje ele é uma área protegida e somente pode ser habitada temporariamente por militares da Marinha e cientistas.

O projeto integra as pesquisas realizadas no contexto do ProTrindade, programa federal destinado a levantar dados sobre a biodiversidade da região, por meio de uma parceria com o professor Marcos Tavares, do Museu de Zoologia da USP. Os ofiúros obtidos pela equipe são enviados ao Equi.Lab, sob coordenação da pesquisadora Michela Borges, que também orienta a tese de Damiano.

De acordo com a especialista, esse tipo de análise é essencial para auxiliar a implementação de medidas de proteção ambiental, algo bastante desafiador para animais pequenos como a Breviturma pusilla. “Eu sempre digo que a gente não protege aquilo que não conhece. É aí que entram as pesquisas mais básicas de reconhecimento, para sabermos o que e quanto tem lá, assim, pensar em quais medidas protetivas precisam ser impostas naquele ambiente.”

Duas pessoas em pé diante de uma estante com prateleiras cinzentas e brancas contendo recipientes diversos; a pessoa à esquerda veste suéter vermelho e óculos redondos, segurando um frasco de vidro com líquido escuro na mão direita; a pessoa à direita veste casaco preto sobre blusa branca, ambas olhando em direção à câmera em um ambiente que aparenta ser um laboratório ou espaço de armazenamento.
Cecília Damiano (à esq.) e Michela Borges, do Equi.Lab, mapeiam a diversidade de ofiúros do arquipélago de Trindade e Martim Vaz
Duas pessoas em pé diante de uma estante com prateleiras cinzentas e brancas contendo recipientes diversos; a pessoa à esquerda veste suéter vermelho e óculos redondos, segurando um frasco de vidro com líquido escuro na mão direita; a pessoa à direita veste casaco preto sobre blusa branca, ambas olhando em direção à câmera em um ambiente que aparenta ser um laboratório ou espaço de armazenamento.
Cecília Damiano (à esq.) e Michela Borges, do Equi.Lab, mapeiam a diversidade de ofiúros do arquipélago de Trindade e Martim Vaz

Manutenção da espécie

Apesar de inédita, a descoberta no Atlântico não representa algo implausível, porque Trindade e Martim Vaz possui características parecidas com as da região onde o organismo se originou. O arquipélago situa-se em um ambiente tropical, com temperaturas favoráveis à sobrevivência e reprodução de Breviturma pusilla, fundos rochoso-arenosos para abrigar essa espécie e uma grande diversidade de microrganismos propícios a lhe servirem de alimento. “Ele encontrou um ambiente semelhante ao seu hábitat original e por isso conseguiu sobreviver ali”, explica Borges.

O que ainda falta ser explicado é como o animal chegou a um local tão distante. Segundo o artigo, o mais provável é que ele tenha viajado em correntes marítimas oriundas da África, como o Vazamento das Agulhas, fenômeno no qual parte da água do oceano Índico escapa para o Atlântico na ponta sul desse continente. Mas outra alternativa sugere que correntes vindas da costa oeste da África, banhada pelo Atlântico, possam ter trazido o animal. Isso porque, apesar da B. pusilla não ter sido vista nessa região, é possível que a sua ausência no local se deva apenas à falta de pesquisas.

De todo modo, a descoberta fornece evidências sobre uma possível característica única do Atlântico: suas ilhas funcionam como um porto para a dispersão de espécies, ampliando a sua distribuição geográfica. “Há uma discussão [dentro da comunidade científica] de que as ilhas do Atlântico Sul funcionam como intermediárias para a migração de espécies vindas de outras regiões. A maioria delas não consegue chegar à nossa costa porque é muito distante, mas elas conseguem aportar em ilhas oceânicas como Trindade e sobreviver lá”, comenta a doutoranda.

A confirmação de que se tratava da espécie B. pusilla ocorreu por meio da comparação com imagens enviadas por museus da África do Sul, Papua-Nova Guiné e Polinésia Francesa. No entanto, alguns estudos afirmam que esse animal pode representar um complexo de espécies — semelhantes morfologicamente, mas diferentes no DNA. Por isso, um dos objetivos da pesquisa é realizar a análise molecular dos espécimes, o que ainda não foi possível porque os exemplares disponíveis são antigos e seu DNA já passou por um processo de degradação. As autoras esperam, no entanto, que novas tecnologias possam facilitar essa análise no futuro. “Agora estamos no processo de estabelecer protocolos de como trabalhar com tomografia computadorizada, então tenho certeza de que muitos artigos ainda serão publicados”, afirma Borges.

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