Obra une teatro negro, identidade e o legado de Augusto Boal em abordagem política da cena contemporânea


Publicado pela Editora da Unicamp, o livro Dramaturgias radicais: do personagem político ordinário à imaginação emancipatória recorre a textos de Augusto Boal e ao Teatro do Oprimido para construir uma reflexão teórica acerca da dramaturgia e sua dimensão política, abordando a força revolucionária do coletivo e a análise de alteridades e subalternidades. Para isso, o dramaturgo Marcos Fábio de Faria, autor da obra, desenvolve os conceitos de “personagem político ordinário” e “imaginação emancipatória”, que fundamentam sua pesquisa. Ele apresenta, por meio desses conceitos, debates essenciais para a compreensão do teatro contemporâneo. A partir destes pontos teóricos, chega-se ao diálogo final entre o exercício do teatro e a sua capacidade de, ideologicamente, fazer-se objeto político, questionando o valor da arte para além do princípio estético.
Nesse sentido, o teatro negro destaca-se como temática principal para a conclusão da obra e para as pesquisas do autor acerca da alteridade nas artes cênicas. Faria apresenta, ao final do livro, o papel do teatro negro na discussão política, assim como sua importância em cenários de revolta e radicalidades, retomando exemplos de obras, dramaturgos e outros autores, além de enriquecer seu texto com passagens de criações teatrais que atestam suas análises e conclusões.
Jornal da Unicamp – O que orientou a escolha das obras analisadas em Dramaturgias radicais?
Marcos Fábio de Faria – As escolhas intelectuais que fiz para o livro partem de uma crença pessoal. Todos os textos que me orientaram refletem a maneira como vejo e acredito no mundo. No caso das dramaturgias, optei por textos de que gosto, de autoras e autores que admiro e que dialogam com minha perspectiva ativista. Portanto, são textos que defendem uma posição firme e que encaram o fazer teatral como ato político, mas sem perder a dimensão estética. Essas dramaturgias não têm medo de dizer a que vieram e não escondem o seu posicionamento e desejo para o mundo.
JU – Em um contexto de polarização e disputas narrativas, qual é o papel da dramaturgia radical hoje – e que tipo de transformação ela ainda pode provocar?
Marcos Fábio de Faria – O livro pretende sanar uma lacuna nos estudos teatrais que, julgo, se construiu de forma proposital, que é pautar a arte, no geral, pela perspectiva estética e apenas por ela. Como as teorias pretendem organizar o mundo, para mim, é impossível que isso aconteça longe da dimensão política, uma vez que somos, fundamentalmente, seres políticos. O que a obra pode provocar é exatamente essa imaginação enquanto ignição para a disputa – e não só de narrativas –, além de reivindicar o poder assembleário do teatro, identificando-o como lugar para debater os caminhos que queremos traçar para nós no presente e no futuro.
JU – Como o identitarismo influencia a “imaginação emancipatória” entre sujeitos marginalizados? Como mobilizá-lo sem cair no individualismo?
Marcos Fábio de Faria – A noção de identitarismo, como termo solto, pode soar vulgar, mas, ao pensá-lo como metodologia, teremos algo produtivo e em consonância com o que defendo por imaginação emancipatória. Falamos a partir do que somos. Porém, algumas identidades são mais válidas que outras e muitas são individuais, inclusive viram adjetivos. A decisão pela identidade individual ou coletiva pode ser provocada, mas não imposta, e, geralmente, ela será guiada pela história do sujeito. A nossa mobilização é pela melhoria das condições de vida e, assim, permitir que a história desse sujeito seja digna, para que ele não seja obrigado a cair no individualismo.
JU – Quais textos teatrais (dramaturgia) dialogam mais diretamente com o livro e por quê?
Marcos Fábio de Faria – Acredito que exista um sem-número de dramaturgias que podem dialogar com o livro, por ele trazer uma proposta teórica. Os exemplos que estão lá respeitam um interesse pessoal, mas poderiam ser outros e, claro, as análises seriam outras, mas o grosso da ideia permaneceria. A minha própria dramaturgia, como Madame Satã ou Afroapocalíptico, pode suscitar diálogos com as ideias que desenvolvo no livro.
JU – Como você constrói, em cena, o personagem político ordinário?
Marcos Fábio de Faria – A construção do personagem político ordinário é anterior à cena, que é um dos vetores de projeção dessa construção específica de mundo. Falo de políticas feitas à revelia dos gabinetes e com muita qualidade e comprometimento. Levar isso para a cena requer, primeiro, comprometimento e respeito com a causa. Aí que entra o tema já debatido, a identidade. É necessária uma identificação muito profunda com aquela forma de estar no mundo, e isso acontece pelo filtro da experiência particular, principalmente quando falamos de identidades que carregam alguma alteridade.
JU – Após a reviravolta do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, o teatro ainda atua com a mesma radicalidade diante das crises?
Marcos Fábio de Faria – Acredito que sim, mas a canalização da radicalidade é distinta. Se tem uma arte que se adapta e sobrevive ao tempo é o teatro. Para mim, a nossa crise micro, nosso grande desafio, é a construção do público autônomo. Por outro lado, a construção discursiva é, cada vez mais, radical. O que vejo, olhando para a história do teatro, é que se trata de uma arte marcada pela intranquilidade, que sempre precisa responder a alguma demanda.


Título: Dramaturgias radicais: do personagem político ordinário à maginação emancipatória
Autor: Marcos Fábio de Faria
Edição: 1ª
Ano: 2025
Páginas: 264
Dimensões: 16 cm x 23 cm

