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Um retrato da gravidez não planejada

Pesquisa com 101 gestantes de 12 a 20 anos atendidas no Caism revela fatores de risco e de proteção pouco explorados pela ciência

Silhueta em tons de cinza de uma pessoa em perfil, com cabelo comprido preso em rabo de cavalo, corpo com contorno de gravidez avançada, uma mão apoiada na região abdominal, veste sem mangas, fundo branco, representação estilizada e minimalista em linhas brancas destacando contornos do corpo.
Silhueta em tons de cinza de uma pessoa em perfil, com cabelo comprido preso em rabo de cavalo, corpo com contorno de gravidez avançada, uma mão apoiada na região abdominal, veste sem mangas, fundo branco, representação estilizada e minimalista em linhas brancas destacando contornos do corpo.

A cada dez adolescentes grávidas que passam pelo Hospital da Mulher da Unicamp (Caism), oito não planejaram a gestação. A constatação é de um estudo desenvolvido exclusivamente com gestantes com idades entre 12 e 20 anos – a maioria parda (48,5%), estudante (58%), com 10 a 12 anos de escolaridade (78%). As entrevistas foram feitas com 101 moradoras da Região Metropolitana de Campinas que foram atendidas no ambulatório de pré-natal do Caism entre 2017 e 2024. Em média, as respondentes tinham 17 anos, iniciaram a vida sexual aos 14 e engravidaram pela primeira vez aos 16. A maioria estudava quando engravidou, e dois terços responderam que não tinham nenhum conhecimento sobre métodos contraceptivos. Os resultados mostraram, ainda, que viver com o parceiro reduz em 88% o risco de uma gravidez não planejada, enquanto retardar o início da vida sexual diminui a chance em 35%.

Tema de um artigo publicado recentemente no periódico The European Journal of Contraception & Reproductive Health Care, o estudo é um extrato da pesquisa de doutorado do sociólogo Negli Gallardo-Alvarado, defendido no Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade. O pesquisador contou com financiamentos da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Para Luis Bahamondes, professor emérito da Unicamp e orientador do doutorado, os resultados traçam um retrato acurado e detalhado sobre uma fatia negligenciada da população grávida, além de “um problema alarmante de saúde pública”. Raramente, diz o docente, a academia volta seu olhar para a ocorrência de gravidez não planejada antes dos 18 anos – pesquisas que incluem exclusivamente gestantes nessa faixa etária são ainda mais incomuns. De modo geral, as produções tratam de saúde sexual e reprodutiva de forma abrangente, contemplando a população em idade reprodutiva (de 15 a 49 anos) de forma genérica, além de não fazerem distinção entre grávidas ou não.

Pessoa com cabelo grisalho e bigode, vestindo polo preto, sentada à mesa de madeira com as mãos gesticulando, em ambiente de escritório com parede branca, quadro emoldurado na parede ao fundo com ilustração de duas faces em tons de rosa, vermelho e dourado, e objetos decorativos sobre a mesa.
O professor Luis Bahamondes, orientador do estudo: gravidez não planejada na adolescência é problema alarmante de saúde pública
Pessoa com cabelo grisalho e bigode, vestindo polo preto, sentada à mesa de madeira com as mãos gesticulando, em ambiente de escritório com parede branca, quadro emoldurado na parede ao fundo com ilustração de duas faces em tons de rosa, vermelho e dourado, e objetos decorativos sobre a mesa.
O professor Luis Bahamondes, orientador do estudo: gravidez não planejada na adolescência é problema alarmante de saúde pública

Mais do que mapear o fenômeno, o estudo pretendeu investigar a trajetória reprodutiva e o conhecimento das participantes sobre métodos contraceptivos. Gallardo-Alvarado considerou adolescência até os 20 anos, baseando-se em teorias recentes sobre desenvolvimento humano. “Ao longo do processo de amadurecimento, a adolescência é uma etapa bem particular, em comparação com os 25, 30, 49 anos. Um estudo com pessoas de 15 a 49 anos infelizmente não consegue responder a perguntas específicas de cada faixa etária”, argumenta.

O pesquisador desenvolveu um questionário específico buscando captar dados mais precisos e nuances que escapam a pesquisas generalistas, além de apurar o nível de conhecimento das entrevistadas sobre métodos contraceptivos e o histórico reprodutivo delas. Apesar de registrar um baixo conhecimento espontâneo sobre métodos contraceptivos, o levantamento mostrou que, quando a pergunta cita nominalmente a pílula anticoncepcional, o nível de reconhecimento das participantes aumenta: 96% das jovens gestantes afirmaram já ter pelo menos ouvido falar da pílula e de métodos injetáveis; preservativos foram reconhecidos por 93,1%, e o DIU (dispositivo intrauterino) por 78%.

A partir dos dados obtidos, o sociólogo produziu uma análise sociodemográfica, fundamentando-se em bibliografias sobre sociologia, adolescência, saúde pública e saúde sexual e reprodutiva. Na avaliação de Gallardo-Alvarado, as adolescentes que engravidam sem planejamento estão sendo privadas do direito de usufruir do corpo de forma segura e autônoma. “Quando 84% das entrevistadas reportaram que não planejaram a gestação, mas ficaram grávidas, isso quer dizer que, na sociedade brasileira, uma proporção muito alta delas não está conseguindo exercer com toda liberdade e segurança os direitos sexuais e reprodutivos – que a Organização Mundial da Saúde relaciona aos direitos humanos. Não consegue controlar o momento de engravidar, a quantidade de gestações e a própria possibilidade de ter filhos, porque esbarra em obstáculos que dificultam o exercício desses direitos – como falta de acesso a métodos contraceptivos, educação e informação.”

O pesquisador se surpreendeu ao constatar que morar com o parceiro e adiar o início da vida sexual atuam como fatores de proteção contra a gestação não planejada nessa parcela da população – em vez do status socioeconômico, por exemplo. “Mas quando olhamos para pesquisas feitas no Brasil sobre temas correlatos, vimos que o fato de ter parceiro promove uma sensação de estabilidade, o que faz com que as chances de reportar uma gravidez não planejada diminuam. Olhando para o nosso estudo, isso faz sentido”, observa Gallardo-Alvarado.

Pessoa com cabelo preto, barba e bigode, usando camisa jeans azul com mangas dobradas, relógio de pulso e tatuagem visível no antebraço, sentada com o braço esquerdo apoiado, em frente a parede com painel ondulado branco e janelas de edifício ao fundo, e poltrona bege parcialmente visível à esquerda.
Negli Gallardo-Alvarado, autor da pesquisa de doutorado: é urgente garantir o acesso à educação e a contraceptivos de longa duração
Pessoa com cabelo preto, barba e bigode, usando camisa jeans azul com mangas dobradas, relógio de pulso e tatuagem visível no antebraço, sentada com o braço esquerdo apoiado, em frente a parede com painel ondulado branco e janelas de edifício ao fundo, e poltrona bege parcialmente visível à esquerda.
Negli Gallardo-Alvarado, autor da pesquisa de doutorado: é urgente garantir o acesso à educação e a contraceptivos de longa duração

Estimular adolescentes a se comprometerem precocemente com um relacionamento sério e pregar abstinência sexual não é a solução. Para combater o fenômeno, Gallardo-Alvarado defende a urgência em garantir oportunidades para que essa população permaneça estudando, conclua o ensino médio e ingresse no ensino superior. É preciso, ainda, assegurar o fornecimento de métodos contraceptivos de longa duração na rede pública para todos, independentemente de faixa etária. “A falta de oportunidades está levando pessoas extremamente novas a assumirem papéis que são próprios da vida adulta. Elas estão pulando uma etapa de desenvolvimento e amadurecimento porque nós, como sociedade, não estamos fornecendo ferramentas para que a principal preocupação delas nessa etapa da vida não seja filho ou trabalho, mas estudar, ter sonhos e construir um plano de vida futura.”

Bahamondes lembra que a relação entre gravidez na adolescência e evasão escolar no Brasil é amplamente conhecida, assim como a inação do poder público. “Abandonando a escola, essas adolescentes terão piores empregos e rendas, além de menos oportunidades ao longo da vida. Esta é uma carga social difícil para o país. No entanto, o que o poder público faz com os números levantados? Muito pouco”, observa.

Para o orientador, o trabalho realizado por Gallardo-Alvarado contribui para a ampliação do olhar da medicina para um problema de saúde pública, injetando no Programa de Pós-Graduação da Tocoginecologia uma visão diferenciada e fecunda. “É como um sopro de vida para nós, médicos, que costumamos olhar a ciência sob uma única perspectiva. A atuação de cientistas sociais nos permite abrir os olhos, expandir nossa visão sobre o que acontece e não ficar olhando apenas para o parto, a cirurgia ou a doença.”

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