Conteúdo principal Menu principal Rodapé

Tecnologia ajuda a preservar obras seminais da arquitetura modernista

Estudo internacional documenta patrimônio moderno brasileiro e traz à tona projetos inéditos de Niemeyer e Artigas

Maquete arquitetônica em perspectiva isométrica apresentando um edifício de dois níveis com estrutura em tons de bege e dourado, base retangular com platô curvo em primeiro plano, piso térreo com pórtico aberto e colunas, pavimento superior com cobertura plana branca e série de aberturas verticais na fachada lateral, estrutura metálica aparente em tons dourados e marrom, iluminação que simula efeito tridimensional sobre superfícies claras.
Maquete concebida pela professora Ana Tagliari de projeto não edificado de Vilanova Artigas: laboratório de experimentação
Maquete arquitetônica em perspectiva isométrica apresentando um edifício de dois níveis com estrutura em tons de bege e dourado, base retangular com platô curvo em primeiro plano, piso térreo com pórtico aberto e colunas, pavimento superior com cobertura plana branca e série de aberturas verticais na fachada lateral, estrutura metálica aparente em tons dourados e marrom, iluminação que simula efeito tridimensional sobre superfícies claras.
Maquete concebida pela professora Ana Tagliari de projeto não edificado de Vilanova Artigas: laboratório de experimentação

Percorrer as ruas de determinados centros urbanos é uma oportunidade única para quem deseja conhecer o legado do modernismo brasileiro. Entre fachadas de concreto aparente, pilotis que elevam edifícios do chão e amplas janelas horizontais, o pedestre encontra as marcas de um movimento que transformou a paisagem das cidades e ajudou a moldar a identidade nacional. Um olhar atento, porém, também revela os sinais do tempo nessas estruturas. São fissuras, manchas de umidade e acúmulo de ferrugem que acendem um alerta importante: a arquitetura moderna brasileira corre o risco de sucumbir ou ser ofuscada.

Diante desse cenário, especialistas da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (Fecfau) da Unicamp, em parceria com pesquisadores da Universidade de Ferrara (Unife), na Itália, vêm desenvolvendo uma série de projetos voltados à preservação da arquitetura moderna brasileira. A cooperação envolve a documentação e estudo sistêmico de projetos e obras assinados pelos principais expoentes da arquitetura moderna em São Paulo, além da modelagem digital tridimensional, tendo como principal objetivo documentar e identificar patologias que possam comprometer suas estruturas, bem como resguardar esse patrimônio nacional.

De acordo com o professor Wilson Florio, do Instituto de Artes (IA) da Unicamp e da Fecfau, esse trabalho somente se tornou possível graças ao uso de tecnologias avançadas, como scanners para digitalização de desenhos e câmeras que capturam a geometria de edifícios construídos, utilizando nuvens de pontos que são convertidas em imagens em alta resolução. Os dados coletados por ambos os processos possibilitam a sua posterior modelagem tridimensional. “Isso nos tem permitido realizar diversas simulações desses imóveis, reproduzindo o deslocamento do observador dentro do espaço. É como se a pessoa estivesse caminhando virtualmente naquele edifício”, explica o docente, que é responsável pela parceria no Brasil.

Especialidade do laboratório DIAPReM, centro de pesquisa da Universidade de Ferrara, a captura por nuvem de pontos tem sido empregada na modelagem geométrica de diversos projetos e construções arquitetônicas. Na Itália, a equipe utilizou essa tecnologia para realizar o levantamento do Coliseu de Roma, um dos principais pontos turísticos do país, construído pelo Império Romano há quase dois milênios. O trabalho levou três anos para ser concluído, mas possibilitará a gestão do monumento para ações de restauro, conservação e manutenção planejada, indicando os locais que precisam de intervenção e os custos médios das reformas.

O professor Luca Rossato, da instituição italiana, explica que isso é feito com o apoio da tecnologia Building Information Modeling (BIM), em uma metodologia já consolidada pela equipe do DIAPReM. Para tanto, os pesquisadores convertem os dados escaneados em modelos virtuais inteligentes, com uma riqueza de detalhes que inclui fatores como geometria, textura e composição dos materiais utilizados em cada elemento. O fluxo de trabalho desenvolvido pela equipe tem sido aplicado em diversas parcerias ao redor do mundo, incluindo as atividades de conservação da memória arquitetônica promovidas pela Fecfau.

Segundo o docente italiano, a cooperação entre as universidades vem se fortalecendo desde 2014, com a participação gradual das duas instituições em pesquisas conjuntas. No entanto, seu interesse pela arquitetura moderna brasileira surgiu em 2012, quando a Unife organizou, em parceria com a Fundação Oscar Niemeyer (RJ) e a Escola da Cidade (SP), uma exposição sobre as obras desse arquiteto, que havia falecido naquele ano. “Na minha visão, a arquitetura moderna representa para o Brasil o que o Renascimento representou para a Itália, demonstrando que este era um país independente, que absorveu algo da Europa e, como diz o movimento antropofágico, transformou em outra coisa, em um nível muito alto”, afirma.

Inspirada no espírito de industrialização que marcou o início do século 20, a arquitetura moderna sempre esteve ligada à funcionalidade, à tecnologia, à democratização do espaço e à rejeição de estéticas advindas do passado clássico. No entanto, a vertente brasileira procurou valorizar a identidade nacional e o senso estético, resultando em inovações não encontradas em outras partes do mundo, como o uso intenso das formas geométricas por Oscar Niemeyer (1907-2012), as rampas e espaços democráticos presentes nas obras de Vilanova Artigas (1915-1985) e a integração com a natureza observada em edificações como a Casa de Vidro, de Lina Bo Bardi (1914-1992).

Desdobramentos

Um dos primeiros resultados da cooperação entre a Fecfau e o DIAPReM foi a publicação, em 2023, do livro The Cultural Heritage of 20th Century in Brazil — Research Paths for the Preservation of the Modernist Legacy (A herança cultural do século 20 no Brasil — caminhos de pesquisa para a preservação do legado modernista), lançado pela Maggioli Editore, na Itália. Na obra, Wilson Florio e Luca Rossato, em conjunto com a docente Ana Tagliari, também da Fecfau, exploram os desafios de se estudar a arquitetura moderna brasileira, revelando estratégias projetuais e apontando os caminhos metodológicos para aprofundar o conhecimento sobre esse patrimônio.

De acordo com os autores, a análise dos edifícios modernos esbarra na complexidade das estruturas, resultado de um processo de experimentação com novos materiais e conceitos espaciais ainda pouco compreendidos na atualidade. “O Brasil tem uma arquitetura moderna muito baseada no concreto armado, um material poroso. Então a chuva ácida que cai em cidades como São Paulo vai corroendo aquilo e atingindo a ferragem. Como resultado, temos edifícios de 60 anos que já estão em deterioração, enquanto o Coliseu, que é construído com pedras e tijolos, está lá há 2 mil anos”, comenta a professora Ana Tagliari.

Outro desafio enfrentado é a escassez de pesquisas sobre a preservação de edifícios modernos a partir do uso de tecnologias digitais. Em parte, isso está relacionado à falta de documentação do patrimônio, o que resulta no desconhecimento sobre a natureza construtiva de projetos modernos. Além disso, nem sempre os especialistas conseguem acessar os originais, já que muitos esboços foram armazenados de maneira inadequada ou “desapareceram em velhos arquivos”. “O nosso processo de documentação também envolve a busca incessante dos originais ou cópias de cada projeto, porque esses arquitetos atuaram em parceria com engenheiros de diferentes especialidades, assim como paisagistas e consultores técnicos. Muitas vezes o original se perdeu, mas há provavelmente uma cópia com algum dos outros profissionais envolvidos”, revela Wilson Florio.

De acordo com o docente, o mais adequado seria que esses documentos fossem doados para acervos de arquitetura, como o da Biblioteca da Área de Engenharia e Arquitetura (BAE) da Unicamp. Ali já está armazenado o acervo do arquiteto Décio Tozzi, doado pelo próprio autor em 2018. A coleção inclui desenhos, fotografias, modelos e outros documentos reunidos ao longo de seis décadas de trabalho de Tozzi, profissional responsável pelo projeto do Parque Villa-Lobos e do Fórum Trabalhista de São Paulo, assim como um conjunto de obras residenciais premiadas.

Pessoa usando óculos de armação redonda e blazer preto sobre camiseta branca está sentada à mesa branca, gesticulando com a mão direita levantada enquanto segura papéis brancos na mão esquerda, com laptop, livros, modelos arquitetônicos brancos e materiais coloridos dispostos sobre a superfície, em ambiente com parede branca e prateleira ao fundo.
Pessoa usando óculos de armação redonda e blazer preto sobre camiseta branca está sentada à mesa branca, gesticulando com a mão direita levantada enquanto segura papéis brancos na mão esquerda, com laptop, livros, modelos arquitetônicos brancos e materiais coloridos dispostos sobre a superfície, em ambiente com parede branca e prateleira ao fundo.

O legado não construído

The Cultural Heritage foi publicado no contexto da rede INSIDE Modern Heritage, cooperação internacional criada em 2021 pelo professor Rossato em parceria com docentes de Instituições de Ensino Superior da Europa e das Américas do Norte e do Sul. O grupo reúne profissionais dedicados à proteção da herança modernista e conta com a participação de diversas instituições brasileiras, como a Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie e a Escola da Cidade, ambas em São Paulo, além da própria Unicamp. “A ideia da rede é conectar pessoas que antes trabalhavam isoladas em seus computadores. Agora elas compartilham ideias, publicam juntas e assinam acordos de intercâmbio, criando oportunidades para as pessoas viajarem”, explica Rossato.

Em 2025, a Unicamp assinou um acordo de cotutela com a Unife, modalidade na qual o estudante de pós-graduação tem sua pesquisa orientada por docentes das duas instituições, obtendo também dois diplomas. Em abril deste ano, a instituição brasileira enviou a Ferrara a primeira aluna beneficiada pela parceria. Na Itália, ela aprenderá a trabalhar com a tecnologia de nuvem de pontos, desenvolvendo parte de sua pesquisa de doutorado sobre os projetos não construídos de Décio Tozzi, sob orientação de Tagliari e coorientação de Rossato.

O estudo de projetos não construídos é um dos destaques da equipe brasileira. Ao longo de suas carreiras, os arquitetos modernistas produziram um conjunto de projetos que, por diferentes razões, não chegaram a ser executados ou sofreram alterações durante a construção, mas os especialistas têm revelado diversas camadas de conhecimento a partir dessa abordagem de pesquisa. “Essas obras estão em risco ainda maior porque existem apenas como uma ideia. Mas elas têm um valor muito grande para o entendimento do processo do arquiteto e da história da arquitetura no país, antecipando temas que somente foram desenvolvidos em projetos posteriores”, afirma Tagliari.

Em seu doutorado, defendido na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP (FAU), a professora redesenhou e construiu as maquetes de 39 residências projetadas, mas não edificadas, por Vilanova Artigas, um dos principais expoentes da Escola Paulista de Arquitetura e responsável pela criação do prédio da FAU. Sua análise demonstrou que essas residências funcionaram como uma espécie de laboratório de experimentação, introduzindo estratégias que contribuíram posteriormente para a consolidação das principais ideias do arquiteto, como o uso de níveis intermediários, claraboias nos tetos, jardim interno, pé-direito elevado e, sua “marca registrada”, as rampas que facilitam a circulação e a socialização entre as pessoas.

Outros projetos não construídos analisados pelos pesquisadores incluem obras de Oscar Niemeyer, como o auditório do Parque Ibirapuera. Elaborado na década de 1950, juntamente com os demais prédios do parque paulistano, o auditório não foi construído naquele período devido à falta de recursos financeiros. Nas décadas seguintes, segundo capítulo publicado por Florio, o arquiteto produziu 14 alternativas para a materialização do teatro, sempre considerando a proposta original e sua integração com a paisagem. Ainda assim, a construção somente foi efetivada em 2005, mais de cinquenta anos depois, de forma desarticulada da ideia inicial e cercada por polêmicas.

Segundo Florio, o projeto de Niemeyer no Parque Ibirapuera ficou inacabado porque a grande marquise construída deveria ter sido interligada a outra pequena cobertura, não realizada, que ligaria a Oca ao Auditório, marcando a entrada principal do Parque. Anos depois, o arquiteto projetou uma nova conexão entre as duas estruturas, mas o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) recusou a proposta porque seria necessário demolir alguns metros de uma construção já tombada. Isso deixou Niemeyer indignado, mas o teatro foi construído sem a passarela e a praça que integrariam os dois prédios. Essa é uma das histórias contadas no livro, a partir da observação cuidadosa dos desenhos originais e dos modelos produzidos com base nas imagens.

No alto, desenho original de Niemeyer, que em 1985 propôs uma nova versão para a Ponte dell’Accademia, em Veneza; acima, fotomontagem da ponte: integração de construção modernista e monumentos históricos
No alto, desenho original de Niemeyer, que em 1985 propôs uma nova versão para a Ponte dell’Accademia, em Veneza; acima, fotomontagem da ponte: integração de construção modernista e monumentos históricos

O livro inclui ainda a análise de dois projetos desenvolvidos para a Itália pelos arquitetos Roberto Loeb (1941) e Niemeyer. O primeiro, em 1987, participou de um concurso internacional para elaborar o projeto do complexo Le Murate, em Florença, antigo convento transformado em presídio e, mais recentemente, em habitação e espaço recreativo. Já Niemeyer, em 1985, propôs uma nova versão para a Ponte dell’Accademia, localizada em Veneza, a pedido do Comitê da mostra “As Venezas possíveis: de Palladio a Le Corbusier”, realizada naquele mesmo ano.

Nenhum deles chegou a ser construído, mas, por meio da maquete de madeira produzida pelo próprio Loeb e da impressão 3D da ponte de Niemeyer, elaborada pelos pesquisadores da Fecfau, foi possível resgatar um conhecimento que permanecia oculto. O plano de Loeb, por exemplo, envolvia uma megaestrutura de vidro que dominaria a cidade, integrando uma construção modernista e os monumentos históricos presentes no local, o que indicava a intenção do arquiteto de explorar novas linguagens arquitetônicas.

Já a análise da proposta de Niemeyer demonstrou, entre outros aspectos, as habilidades de comunicação do arquiteto. Com impressionante capacidade de desenhar à mão, Niemeyer reproduzia em poucos traços a forma como o observador caminharia dentro do edifício, como se estivesse fotografando o prédio já construído, além de conseguir contextualizar a construção em relação à paisagem ao redor. “Gostamos de contar esse tipo de história. Os arquitetos gostam muito de desenhar, então nós as narramos por meio de imagens, fazendo a ilustração e conectando os fatos a partir daquilo”, finaliza Florio.

Ir para o topo