Herdeiros por escolha
Tese mostra que motivação dos jovens, e não a viabilidade econômica, é o principal fator na sucessão de propriedades cafeeiras familiares


O agronegócio é o principal motor do PIB brasileiro, mas um estudo da Unicamp mostrou que propriedades familiares são um elo frágil dessa cadeia: apenas 5% delas chegam à terceira geração. Mais do que renda, produtividade ou tamanho da propriedade, o interesse dos jovens em permanecer no campo é o principal fator associado a essa quebra na sucessão familiar, ao menos na cafeicultura do interior paulista, segundo a conclusão de uma pesquisa de doutorado desenvolvida na Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Universidade junto a produtores de café do chamado Circuito das Águas Paulista, que engloba nove municípios.
Os resultados da tese realizada pela professora Lívia Nicioli Berti, sob orientação do professor Marco Ospina, contrariam a expectativa inicial, de que a continuidade das propriedades familiares dependeria da viabilidade econômica do negócio.
“No início estávamos considerando que produtividade e renda seriam os fatores mais preponderantes nessa escolha, mas a pesquisa mostra que, além disso, a motivação e o desejo de permanecer na atividade foram mais determinantes para os processos sucessórios”, afirma Berti.
Berti entrevistou membros da Associação dos Produtores de Cafés Especiais do Circuito das Águas Paulista (Acecap). A partir dos dados colhidos em campo, a professora reuniu informações sobre aspectos econômicos, produtivos, sociais e familiares das propriedades e aplicou diferentes modelos estatísticos para comparar o peso de cada variável no processo sucessório.
A combinação entre regressão linear, logística e quantílica permitiu identificar quais fatores exercem maior influência sobre a presença de um sucessor, em vez de analisar apenas o comportamento médio das propriedades. Os resultados mostraram que a chance de uma propriedade ter um sucessor definido é 27 vezes maior quando existe o interesse pessoal do jovem pela atividade cafeeira.
Na avaliação da pesquisadora, o principal desafio não é apenas tornar a propriedade economicamente viável, mas criar condições para que os jovens desenvolvam uma relação de pertencimento com a atividade e participem das decisões desde cedo. “Se a gente trabalha a motivação desses possíveis sucessores, existe uma possibilidade maior de que essa sucessão tenha êxito, que ela ocorra efetivamente.”


Tabu
O delicado tema das sucessões familiares é um dos principais desafios da agricultura brasileira. O assunto, segundo Ospina, está distante das preocupações de muitas famílias produtoras. “Ninguém pensa nisso até chegar o momento.”
Segundo ele, boa parte dos cafeicultores entrevistados admitiu à pesquisadora que nunca havia refletido sobre a questão. Em muitas propriedades, o tema da sucessão só entra em pauta quando o produtor precisa se afastar da atividade por aposentadoria, doença ou morte.
A falta de planejamento, segundo o docente, aumenta o risco de descontinuidade da atividade agrícola e dificulta a transferência do conhecimento acumulado entre as gerações. Ospina ressalta que essa fuga pode inclusive estar culturalmente ligada ao que a família idealiza para o futuro dos filhos. “Muitos deles se preocuparam em dar educação para os filhos, mas assim que os filhos encontram um nicho de mercado diferente, optam por abandonar a produção agrícola”, ressalta.
Escolaridade
Esse êxodo após formação superior é o que a literatura chama de “fuga de cérebros” rural. O maior conhecimento tecnológico, econômico, administrativo e em outras áreas, obtido após uma temporada de estudos nas grandes cidades, apareceu como inibidor estatisticamente significativo para a sucessão, ao invés de fortalecer o vínculo com a terra.


“O meio urbano se torna mais atrativo para essas pessoas que têm um grau de instrução maior”, explica a pesquisadora. Para ela, o desafio é converter esse conhecimento formal em inovação local. Ao profissionalizar a gestão da propriedade, o jovem deixa de ser visto apenas como mão de obra braçal para assumir um papel de gestor estratégico, tornando a permanência no campo um projeto de vida intelectualmente estimulante.
Nesse processo, a produção de cafés especiais se mostrou um elemento importante na pesquisa. Além de ampliar a rentabilidade ao diversificar a produção, ela cria novas funções dentro da propriedade, ligadas à gestão, certificação, comercialização e construção da marca, explica a pesquisadora.
“Quando olhamos para uma propriedade capaz de difundir melhor a sua imagem graças ao marketing e a um sistema de gestão, em vez de apenas plantar, colher e vender, isso motiva mais os possíveis sucessores a desejarem ocupar esse lugar”, observa Berti.
A incorporação de novas tecnologias, como drones e monitoramento digital das lavouras, reforça esse movimento ao abrir espaço para que os sucessores utilizem conhecimentos adquiridos durante a formação acadêmica. “Com a chegada dessa tecnologia e da mecanização de processos, profissionalizar a gestão também se torna um fator de atratividade, porque aquele sucessor que estudou tem maior envolvimento intelectual com determinados temas e pode fazer uso disso na propriedade.”
Mulheres na liderança
A pesquisa também contrariou uma expectativa presente em estudos anteriores referentes ao gênero na agricultura familiar. Berti sugere que o modelo tradicional de sucessão masculina pode estar falhando, com os homens migrando em maior número para as cidades, enquanto as filhas assumem a frente dos negócios.
“A literatura diz que os homens são os principais sucessores de propriedades agrícolas. Mas a gente percebeu que, nesse nicho específico, a participação feminina é bastante expressiva”, afirma.
A pesquisadora ressalta que o resultado se refere ao grupo estudado e não pode ser generalizado para toda a cafeicultura brasileira, mas avalia que ele acompanha transformações observadas na gestão das propriedades rurais e que a metodologia pode ser utilizada em outros estudos.
