Da amêndoa ao futuro
Novas metodologias de extração ampliam o aproveitamento do óleo da castanha-do-brasil e beneficiam comunidades da Amazônia


A castanha-do-brasil (também conhecida como castanha-do-pará) é uma das principais fontes de renda dos moradores de Juruena, município do noroeste de Mato Grosso. Lá está instalada a Cooperativa dos Agricultores do Vale do Amanhecer (Coopavam), na qual são realizados o beneficiamento e a comercialização da castanha símbolo da Amazônia – além da extração e venda do seu óleo. Fortalecer essa cadeia é o objetivo de um projeto de pesquisa e extensão que une sete universidades públicas, encampado pelo edital de pesquisa Amazônia +10. Entre os resultados da iniciativa, está a criação de metodologias para extrair mais óleo da amêndoa (a parte comestível da castanha). O trabalho é realizado por cientistas da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp em parceria com os cooperados.
Fundada em 2008 por um grupo de agricultores do Assentamento Vale do Amanhecer, a Coopavam gera R$ 6 milhões de receita por ano, quando o clima é favorável. Atualmente, conta com 20 sócios e parceria de 500 famílias de coletores de castanha que vivem na região, incluindo indígenas que habitam os territórios Munduruku, Kawaiwete, Rikbaktsa Tsirik e Pasapkareej. A depender da safra, a cooperativa beneficia 400 toneladas de matéria-prima – cada família fornece, em média, até 800 kg.
Uma ação do Conselho Nacional de Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), a convocatória Amazônia +10 foi criada com o propósito de consolidar as cadeias produtivas sustentáveis existentes na região da floresta tropical, utilizando produtos da sociobiodiversidade local para assegurar a permanência dos moradores da região, cuja atuação tem sido fundamental para a conservação da floresta.
O projeto une pesquisas científicas – com foco em tecnologia e inovação – e um trabalho de extensão universitária voltado para a comunidade local. Além da Unicamp, participam da iniciativa as universidades Federal de Mato Grosso (UFMT), Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), de São Paulo (USP), Estadual de Maringá (UEM) e Estadual do Norte Fluminense (UENF) – cada qual financiada pela fundação de apoio à pesquisa de seu estado.

Potencializar a extração do óleo de castanha-do-brasil e melhorar os processos de produção e a qualidade do produto obtido estão entre as principais demandas da cooperativa. Um dos mais importantes subprodutos comercializados pela empresa é o óleo obtido do processamento da amêndoa – a maior parte é vendida para o setor de cosméticos. Com o conhecimento acumulado em pesquisas desenvolvidas nos laboratórios de Extração, Termodinâmica Aplicada e Equilíbrio (ExTrAE) e de Óleos e Gorduras (LOG), ambos da FEA, os professores Eduardo Augusto Caldas Batista, Guilherme José Maximo, Klicia Araujo Sampaio e Marcela Cravo Ferreira assumiram o desafio.
“Por vir de vários locais nos quais a umidade é muito alta, existe um risco de a castanha e, consequentemente, o óleo apresentarem problemas relacionados à qualidade para consumo. Quando se extrai o óleo, dependendo da qualidade, ele precisa ser refinado para remover compostos indesejáveis. O refino melhora a qualidade, favorecendo a compra e ampliando o seu uso. Caso contrário, talvez não possa ser utilizado na fabricação de produtos alimentícios”, esclarece Sampaio.
Embora a castanha-do-brasil seja altamente oleosa, o método de extração tradicionalmente empregado pela cooperativa (chamado de prensagem a frio) tinha eficiência bastante reduzida. “Uma castanha possui mais ou menos 60% de óleo. Na torta [resíduo sólido resultante da prensagem], ficava até 50%, um residual significativo e que pode ser removido a partir da melhoria do processo ou do uso de outras tecnologias de extração”, esclarece Batista, que lidera o grupo da Unicamp.
Após diálogos com os cooperados e visitas a Juruena para conhecer as instalações e os processos da Coopavam e trocar experiências com os cooperados, está em desenvolvimento uma metodologia que combina a prensagem com uma tecnologia de extração baseada no emprego de bioetanol, solvente sustentável e de fácil acesso. “Com essa tecnologia, espera-se uma remoção quase completa do óleo da torta, valorizando esse subproduto e aumentando a produção e a renda da cooperativa”, diz Maximo.

Essa massa residual, hoje vendida como ração ou para aplicações de menor valor agregado, guarda grande parte da riqueza nutricional da castanha. Para investigar novas formas de aumentar o portfólio de produtos da Coopavam e aumentar o aproveitamento do resíduo, os pesquisadores realizaram uma ampla caracterização, prospectando potencialidades tecnológicas. Os resultados apontam a presença significativa de diversas substâncias bioativas, como compostos fenólicos e selênio, ainda subaproveitadas. “A castanha-do-brasil é um dos alimentos mais ricos em selênio, elemento de grande ação antioxidante, que atua no fortalecimento do sistema imunológico, no funcionamento da tireoide e na saúde cardiovascular”, destaca Sampaio.
Atualmente, o grupo – juntamente com alunos de graduação e pós-graduação da FEA – está pesquisando novas formas sustentáveis de extrair esses bioativos e de aproveitá-los para gerar renda. “Identificar qual é o melhor tipo de solvente para obter cada um dos compostos é um trabalho fundamental no desenvolvimento do processo de extração. Ou seja, para produzir um extrato, é preciso antes escolher a substância capaz de capturá-lo da matriz. Antes de fazer o experimento é possível fazer uma avaliação físico-química e termodinâmica de compatibilidade com os solventes e o biocomposto que se quer extrair”, explica Batista.
Os resultados da parceria extrapolam os limites amazônidas. Para a pesquisa acadêmica, “é uma oportunidade de desenvolver novos processos e produtos, favorecendo, inclusive, a valorização de outras matérias-primas utilizadas pela indústria”, diz Cravo. A participação de uma equipe multidisciplinar de outros estados no contexto do Amazônia +10, em parceria com os pesquisadores da Unicamp, segundo a professora, foi fundamental “por integrar várias abordagens, técnicas analíticas e avaliação de todas as etapas do processo.”
Na visão de Veridiane Costa, que integra o quadro administrativo da Coopavam, o respeito pela comunidade e pela realidade local é o diferencial da atuação dos pesquisadores. “Eles têm agregado muito conhecimento para a gestão da cooperativa, para a nossa produção e também para os coletores. É uma equipe que se dispôs a ficar um tempo vivendo nossa rotina para poder compreender melhor nossas necessidades, trabalhando lado a lado com a gente e observando detalhes que podiam ser melhorados”, afirma ela, destacando a preocupação do grupo no desenvolvimento das atividades produtivas da cooperativa, na geração de renda dos cooperados e, consequentemente, na preservação da floresta.
