Conteúdo principal Menu principal Rodapé

Prata, quimioterápico e carvona alcançam tumores de pele profundos

Formulação patenteada dobra a liberação do fármaco e pode ser alternativa ao bisturi

Equipamento de pipetagem automática com múltiplas agulhas metálicas dispensando líquido rosa-púrpura em placa de 96 poços contendo amostras da mesma coloração, posicionado sobre superfície cinza em ambiente de laboratório.
O composto foi desenvolvido por uma equipe multidisciplinar da FCM, IQ e FCF Unicamp
Equipamento de pipetagem automática com múltiplas agulhas metálicas dispensando líquido rosa-púrpura em placa de 96 poços contendo amostras da mesma coloração, posicionado sobre superfície cinza em ambiente de laboratório.
O composto foi desenvolvido por uma equipe multidisciplinar da FCM, IQ e FCF Unicamp
Logotipo institucional composto pela sigla "sec" em vermelho na parte superior, seguida pela palavra "inovação" em azul petróleo, acompanhada do termo "INOVAÇÃO" em cinza na parte inferior, com elementos gráficos de pontos e linhas conectados que sugerem uma rede ou diagrama de conexões.

Pesquisadores do Centro de Inovação Teranóstica em Câncer (CancerThera), sediado na Unicamp e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), depositaram o pedido de uma nova patente, ainda em fase de pesquisa e desenvolvimento, com potencial aplicação no tratamento do câncer de pele. A formulação associa um complexo de prata ao quimioterápico 5-fluorouracil (5-FU) e à carvona, um composto orgânico da classe dos monoterpenos presente em óleos essenciais de plantas como hortelã e endro. Nos testes laboratoriais, a combinação com a carvona permitiu uma liberação duas vezes maior do princípio ativo em um período de 48 horas, em relação ao composto sem o monoterpeno, apontando para uma formulação capaz de atingir tumores em fases mais avançadas.

A tecnologia consiste em um sistema de liberação com potencial aplicação direta sobre lesões tumorais. As substâncias poderão ser incorporadas a um gel, creme ou adesivo transdérmico, conforme a abordagem definida pela empresa interessada em levar a invenção ao mercado. A tecnologia está em fase pré-clínica, com testes em animais previstos antes de qualquer aplicação em seres humanos. O pedido de patente foi depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) com estratégia da Agência de Inovação Inova Unicamp para proteção da propriedade intelectual. A equipe busca parceiros industriais para avançar nas etapas seguintes de pesquisa e viabilizar o uso comercial da tecnologia.

A inquietação que deu origem à pesquisa surgiu durante defesas de mestrados e doutorados na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp. A professora Carmen Silvia Passos Lima, oncologista do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp e coordenadora do Laboratório de Genética do Câncer (Lageca) da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), era presença frequente nas bancas e via nas teses e dissertações a descrição de compostos promissores para o tratamento do câncer que não avançavam para o desenvolvimento comercial. “Eu não entendia por que isso não chegava ao mercado e aos pacientes. Foi quando decidimos integrar diferentes áreas”, conta.

Os cânceres de pele basocelular e espinocelular são os tipos mais incidentes no Brasil. Apesar do baixo potencial de metástase, acometem áreas expostas ao sol, como rosto, nariz, orelhas e lábios. Um dos tratamentos disponíveis utiliza o 5-fluorouracil puro, mas ele tem limitações. “Esse medicamento exige que o paciente evite o sol e, por penetrar pouco na pele, é indicado apenas para tumores superficiais, o que é um problema no SUS, onde os casos frequentemente chegam em estágio avançado. Uma alternativa é um medicamento à base de cemiplimabe, mas esse imunobiológico tem alto custo, cerca de 50 mil reais por mês, e não é coberto pelo sistema público de saúde”, observa a oncologista.

Os tumores avançados exigem ressecção cirúrgica, que é a extração parcial ou completa do tecido atingido, que pode resultar em deformidades permanentes. “Muitas vezes, o paciente perde partes do nariz ou das orelhas, ou fica com cicatrizes profundas na boca ou em outras partes do corpo, o que provoca uma pressão social muito grande”, destaca o professor Pedro Paulo Corbi, coordenador do Laboratório de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal (LQBM) da Unicamp, vinculado ao Instituto de Química (IQ). Ao penetrar em camadas mais profundas da pele do que o 5-fluorouracil convencional, o novo composto abre a possibilidade de tratar tumores avançados e reduzir a necessidade de cirurgias.

A carvona é a peça que diferencia essa formulação das alternativas existentes. A escolha veio do conhecimento acumulado no Laboratório de Fitoquímica, Farmacologia e Toxicologia Experimental (LaFTEx) da Faculdade de Ciências Farmacêuticas. “A ideia surgiu da nossa expertise em produtos naturais, em farmacologia e em toxicologia experimental. Os monoterpenos têm uma característica especial: além das propriedades farmacológicas, vários deles são facilitadores de permeação, o que significa que não se ligam quimicamente ao complexo, mas facilitam a entrada dele na célula”, explica a professora Ana Lucia Tasca Góis Ruiz, pesquisadora do LaFTEx.

Cinco pessoas em pé, lado a lado, usando jalecos brancos em ambiente de escritório com paredes claras, quadros e fotografias ao fundo, móveis de madeira, sendo a pessoa ao centro usando óculos e as demais com expressão frontal para a câmera.
Da esq. para a dir., os inventores da tecnologia: Daniele Daiane Affonso, Carmen Silvia Passos Lima, Pedro Paulo Corbi, Ana Lucia Tasca Góis Ruiz e Gabriele de Menezes Pereira

Foi durante o mestrado de Daniele Daiane Affonso, no mesmo laboratório, que a carvona foi identificada como candidata promissora, após a estudante observar que a substância inibe a migração de queratinócitos, um processo biológico relevante no desenvolvimento do câncer. “Quando juntei os dois compostos, vi que o Ag-5FU com a carvona gerou um efeito sinérgico. A carvona potencializou a ação antitumoral do complexo metálico”, relata Affonso. A diferença ficou evidente nos testes de liberação em membrana sintética: com o Ag5FU isolado, foram liberados 164 microgramas de prata por litro de solução; com a adição da carvona, esse valor subiu para 359 microgramas. “A combinação não só não interferiu no efeito antiproliferativo, como aumentou o efeito do complexo”, reforça Góis Ruiz.

A prata foi selecionada por sua atividade antitumoral descrita na literatura. O 5-fluorouracil é um quimioterápico análogo a uma das bases do DNA, ou seja, se encaixa na cadeia genética da célula tumoral no lugar da base original. Quando isso acontece, altera a estrutura do DNA e desencadeia a morte celular, mecanismo que o consagrou como tratamento clínico para diferentes tipos de câncer.

A precisão na escolha dos componentes é fundamental, como explica Corbi. “Na química, nós temos substâncias que se combinam e outras que não se combinam. Esse conhecimento nos faz escolher a molécula certa para o metal certo, para que eles tenham afinidade. Compostos de prata tendem a se decompor rapidamente quando a combinação é inadequada: o metal se reduz, o produto escurece e se torna inutilizável.”

A síntese foi realizada por Gabriele de Menezes Pereira, doutora pelo LQBM. “Partimos de um fármaco comercial que já tem potencial antiproliferativo. O que fizemos foi potencializá-lo com a complexação com um centro metálico”, explica.

Da bancada ao paciente

A nova patente parte de uma mesma plataforma (complexos de prata), mas com componentes e mecanismos distintos. O próximo passo para o Ag-5FU+carvona é repetir os testes in vitro, agora em pele de porco, o que permitirá medir a permeação das substâncias em condições mais próximas das do corpo humano, e em seguida avançar para os testes em animais vivos. A síntese do complexo é feita em etapa única, com alto rendimento e boa pureza, o que facilita a reprodução em escala, diz Pereira.

Para os pesquisadores que conduziram os experimentos, a possibilidade de ver o trabalho chegar à sociedade é o principal motor da pesquisa. “Quantas pessoas próximas já tiveram câncer de pele, fizeram uma ressecção cirúrgica e ficaram com uma cicatriz no rosto? É gratificante saber que a gente pode formular um fármaco que diminua o tamanho desse tumor e possa até evitar cirurgias”, comenta Affonso.

Ir para o topo