
Na linha de frente contra o movimento antivacina
Especialistas compartilham estratégias de comunicação para reduzir desinformação
Na linha de frente contra o movimento antivacina
Especialistas compartilham estratégias de comunicação para reduzir desinformação


A decisão do Ministério da Saúde de suspender preventiva e temporariamente a aplicação da vacina contra a dengue fabricada pelo Instituto Butantan, no início deste mês, rapidamente provocou polarização nas redes sociais, servindo de pretexto para que grupos antivacina retomassem o questionamento sobre a eficácia e a segurança de imunizantes. Para combater a produção e a circulação de fake news que fomentam esse tipo de falso debate, legisladores, cientistas e comunicadores defendem a disseminação de informações cientificamente embasadas, aliada à humanização da comunicação.
De acordo com uma pesquisa realizada pelo Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU_Ciência) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), divulgada em maio, quase 30% dos brasileiros estão fora do padrão de adesão plena à vacinação. Em anos anteriores, essa taxa não passava de 5%. Segundo um estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em 2025, 40% de todo o conteúdo antivacina que circula pela internet na América Latina vem do Brasil.
A preocupação sobre o tema chegou ao Congresso Nacional. Em abril, a Comissão de Assuntos Sociais do Senado iniciou o debate sobre o projeto de lei nº 2.745/2021, que criminaliza a disseminação de informação falsa ou sem comprovação científica sobre vacinas. No dia 28 de abril, foi realizada uma audiência pública sobre o assunto com especialistas e parlamentares.
Docente da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, a infectologista Raquel Stucchi aponta a escuta e o acolhimento de quem se opõe à vacinação como estratégia valiosa para aumentar a adesão da sociedade à imunização. “É preciso ouvir com atenção e responder a cada uma das dúvidas que as pessoas apresentem, mesmo que digam: ‘Será que a gente não vai mesmo virar jacaré?’”, explica.
Stucchi se tornou presença constante na imprensa durante a pandemia de Covid-19, orientando a população com uma linguagem acessível sobre como prevenir o contágio pelo vírus. Para ela, diante da dimensão continental do Brasil, da diversidade regional e da velocidade com que as notícias falsas circulam, a aliança entre academia, imprensa e divulgadores científicos é fundamental. Lançar mão de fatos e histórias reais para exemplificar também é uma estratégia válida. “Isso faz com que a pessoa acabe vendo a importância da vacinação e perceba que seu medo não tem fundamento”, acredita.
O problema não é falta de acesso à informação, mas saber que tipo de conteúdo chega a cada público – e com que frequência –, esclarece a infectologista. “Temos que fazer a notícia chegar para todas as idades, de todas as formas, numa linguagem que possa ser assimilada com mensagens rápidas, diretas e divertidas, mas que levem conhecimento científico. Inclusive sobre o que nós não sabemos ainda”, defende.
Na visão do jornalista Gabriel Alves, especialista em ciência e saúde e doutor em ciências, o combate ao movimento antivacinação é “um trabalho hercúleo, de formiguinha”, que exige “furar as bolhas” por onde circulam as informações falsas sobre o assunto. Ele acredita que relatar casos reais e procurar estabelecer um diálogo horizontal com o público ajuda a aproximar e a engajar a parcela da população resistente à imunização. “Vamos buscar casos de pessoas, falar de gente que morreu [por falta de vacina], falar dos absurdos. Vamos contar, explicar, sensibilizar”, sugere.
A vacina, avalia o jornalista, é refém do próprio sucesso, pois, justamente devido à eficácia das políticas de imunização da população, muitas doenças praticamente saíram de circulação. E isso, na opinião dele, abre margem para a propagação da pseudociência e de argumentos antivacina.


Entender o público
Durante a pandemia de Covid-19, a busca intensa por informações sobre o vírus, formas de prevenção e vacinas jogou luz sobre o papel da ciência, além de despertar a atenção da população sobre a atuação de instituições de pesquisa. Na ocasião, o Butantan ganhou os holofotes por ser responsável, em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, pela produção do primeiro imunizante disponibilizado no país contra o vírus Sars-CoV-2: a vacina CoronaVac.
Com 125 anos de história na produção de vacinas e soros, a instituição se preocupa em fortalecer o sentimento de comunidade em seus canais de comunicação. “Nosso trabalho consiste em ouvir as pessoas e produzir conteúdos interessantes, nos quais elas se sintam vistas. Elas mandam perguntas e nós sempre respondemos”, explica Caroline Mazzonetto, coordenadora de comunicação do órgão, vinculado à Secretaria da Saúde do estado de São Paulo. Já Rafael Simões, coordenador da produção audiovisual do Butantan, cita a importância de adaptar os conteúdos que precisam ser comunicados ao formato e à linguagem de cada plataforma digital, sem comprometer a integridade da informação.
Para Simões, a fluidez das redes sociais demanda aprendizado constante, para que os bons resultados sejam mantidos. “É preciso estar o tempo inteiro aprendendo como a plataforma digital funciona e adaptando a nossa comunicação ao meio. O desafio é adequar o conteúdo ao melhor meio de informá-lo, mantendo profundidade”, diz.
Mazzonetto é enfática ao sublinhar a responsabilidade com o rigor do conteúdo divulgado nos canais de um órgão público cuja missão é salvar vidas. “O comportamento que nós esperamos é que as pessoas entendam e façam boas escolhas a partir do conhecimento”, pontua.
Para a coordenadora, o diferencial do jornalismo científico eficaz consiste em identificar as demandas de informação da população. “Cerca de 90% dos nossos acessos são via SEO [otimização de motores de busca, na sigla em inglês]. Vêm por meio de perguntas que as pessoas fazem no Google, por exemplo: ‘Dengue mata?’, ‘O que é HPV?’ etc.”, esclarece. “Não precisamos engajar o público, mas, sim, entender o que ele quer saber. Não é mais uma relação passiva, como quando as pessoas compravam jornal”.
Reportagem produzida por estudantes do curso de especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp, sob a supervisão do jornalista Guilherme Gorgulho
