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Facções e milícias, um consórcio instável

Tese examina relações entre organizações criminosas do Rio de Janeiro a partir de relatos biográficos

Pessoa vista de costas em primeiro plano, usando colete tático cinza sobre camiseta preta, com rádio comunicador acoplado ao ombro, observando um cenário industrial deteriorado em preto e branco, com estruturas de madeira, cercas metálicas, edifícios ao fundo, postes de energia e pessoas dispersas no terreno árido ao longe.
Integrante de milícia vigia rua de comunidade no Rio de Janeiro: alta rotatividade nas lideranças dos dois lados produz relação inconstante

No Rio de Janeiro, a maneira como o tráfico e a milícia organizam a gestão de territórios é baseada em um consórcio instável, segundo a tese defendida pelo antropólogo Jonathan da Motta no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Com o auxílio das biografias de três homens negros, todos moradores de favelas cariocas, o pesquisador revela como se deu, nos últimos anos, a aproximação entre facções e milícias na capital fluminense – transformação responsável por produzir uma “economia política da precariedade”, que opera parasitando as relações econômicas dos moradores das comunidades.

Motta explica que esses consórcios são “alianças táticas, pontuais e estratégicas”, traçadas pelas milícias e as facções com objetivos comuns – como a derrubada de um inimigo ou a abertura de um novo mercado. Essas relações, caracterizadas pelo personalismo e a instabilidade, definem momentos de guerra e paz e incidem sobre as formas de viver retratadas na tese. “Se antigamente eram radicalmente distintos, hoje milicianos e traficantes se aproximaram. De inimigos se tornaram parceiros, com propósitos bem definidos”, aponta. A mídia denominou essa proximidade como “narcomilícia”. Para o antropólogo, a designação é imprópria. “Tem seu valor como denúncia pública e política, mas é ruim do ponto de vista analítico, porque coloca coisas muito diferentes em um mesmo balaio, e isso, muitas vezes, retira a importância que o Estado tem no arranjo.”

O caráter personalista do consórcio produz instabilidade, conforme aponta Motta na tese: “A costura de um acordo de paz, por exemplo, exige tanto traficantes dispostos a negociar em detrimento da guerra quanto policiais que aceitem o suborno em detrimento da atuação bélica”. A inconstância está relacionada, também, à dinâmica de rotatividade. Por serem grupos fortemente pautados pelas posições da chefia, a morte de uma liderança sempre causa desestruturação. Finalmente, um dos interlocutores cita, em seu relato, a existência de uma política de infiltrados, que ingressam em um determinado grupo para prejudicá-lo, gerando desconfianças e medo constante de traição.

Pessoa sentada em cadeira laranja, usando camiseta branca e verde com estampa floral, calça preta com rasgo no joelho e sapatos cinzentos, gesticulando com as mãos enquanto fala, em ambiente com painel preto ao fundo, tela branca à esquerda, mesa verde com garrafa de água e microfone, e pequeno banquinho vermelho ao lado.
O antropólogo Jonathan da Motta inovou ao adotar como metodologia a “etnografia biográfica”
Pessoa jovem sentada em uma cadeira laranja, vestindo camiseta de estampa verde e branca, segurando um papel, em um ambiente de evento com projetor ao fundo e uma mesa pequena verde com garrafa de água ao lado.
O antropólogo Jonathan da Motta inovou ao adotar como metodologia a “etnografia biográfica”

Motta, que vive em um subúrbio da Zona Oeste do Rio de Janeiro, iniciou suas pesquisas em periferias da cidade no ano de 2016, durante a graduação. No mestrado, desenvolveu sua dissertação na favela do Batan, onde conta ter encontrado uma forma nebulosa de relações entre o tráfico, a milícia e a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). “Era uma região controlada pela polícia, mas em determinados momentos, à noite, o tráfico atuava e a milícia parecia um fantasma. Aquela comunidade começou a me abrir os olhos para a relação entre os três. Era um arranjo com canais de ordenamento diferentes: a polícia mandava, o tráfico mandava, a milícia mandava. Havia um grande acordão entre eles”, descreve.

Na tese, que foi orientada pela professora do Departamento de Antropologia da Unicamp Taniele Rui e coorientada pela professora Lia Rocha, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o antropólogo desloca o foco para outras localidades na Zona Oeste. As dificuldades enfrentadas, seja por estar como pesquisador em territórios controlados por grupos armados, seja por ser altamente vigiado, levaram-no a propor uma metodologia centrada na “etnografia biográfica” – termo que cunhou. “Passei a realizar entrevistas em profundidade e a colher histórias de vida. Isso vai tecendo a realidade social, a que chamamos de governança criminal armada no Rio de Janeiro.”

Nem vilão, nem herói

Seus interlocutores na tese são Henry, Scott e Tonhão (nomes fictícios). “Com os três, tentei não dar um estatuto de herói nem de vítima. Eles próprios vão modulando suas moralidades”, aponta Motta. Henry começou a roubar carros para uma facção criminosa na juventude e, na primeira vez em que foi preso, conviveu com traficantes experientes (os “roncas”). Após cumprir a pena, conseguiu um cargo de abastecedor no tráfico, na comunidade de Vila Vintém. Sua ascensão no crime foi acompanhada por dilemas. Em um momento de conflito, ele negou a ordem para assassinar um amigo e acabou decidindo se afastar do tráfico. “Henry não é apenas o traficante ou o ex-traficante: ele vai fazendo escolhas éticas. É aquele que não consegue matar um amigo, mesmo estando ‘no erro’. Isso não o torna herói, significa que ele é um sujeito ético, que vai vivendo da forma que dá”, sintetiza o antropólogo.

Os outros dois são um professor e um funcionário público, que ajudaram Motta a desvelar o surgimento e as transformações das milícias. A trajetória de Scott é quase oposta à de Henry. Apesar das privações da família, ele conseguiu ser o primeiro entre os familiares a se graduar no ensino superior. Sua biografia e suas observações críticas forneceram ao antropólogo um olhar sobre as mudanças que o nascimento da milícia produziu em seu bairro. Scott testemunhou, por exemplo, a origem desse modelo de organização criminosa, formada por policiais que começaram a fazer uma espécie de segurança privada na comunidade. “Nesse primeiro momento, [a milícia] tinha uma dimensão fortemente moral, muito atrelada à tentativa de evitar que o tráfico de drogas entrasse na comunidade”, avalia o pesquisador.

A partir da biografia e dos apontamentos de Scott, Motta elucida como esses primeiros grupos, dispersos e formados por poucos policiais, foram organizados pelos irmãos Natalino e Jerominho Guimarães – com atuação inclusive na esfera pública. “Eles criam a milícia organizada como a conhecemos: a Liga da Justiça. Não à toa, tornaram-se políticos”, pontua.

Pessoa com cabelo preto comprido ondulado, vestindo camisa de manga curta com padrão geométrico em tons de laranja e branco, sentada em ambiente interno com paredes laranja e branca ao fundo, gesticulando com as mãos enquanto fala, com expressão neutra e olhar direcionado para frente.
Taniele Rui, orientadora da pesquisa: biografias possibilitaram revelar mudanças sociais
Pessoa com cabelo preto comprido ondulado, vestindo camisa de manga curta com padrão geométrico em tons de laranja e branco, sentada em ambiente interno com paredes laranja e branca ao fundo, gesticulando com as mãos enquanto fala, com expressão neutra e olhar direcionado para frente.
Taniele Rui, orientadora da pesquisa: biografias possibilitaram revelar mudanças sociais

Motta, por fim, acompanha a biografia de Tonhão. Funcionário de uma empresa pública de eletricidade, ele mantém uma relação de mais proximidade com os milicianos. Aqui, a análise sobre a transformação se aprofunda. “Tonhão mostra como são as milícias dos dias de hoje. Elas não estão necessariamente vinculadas a uma instituição policial e mantêm aproximações e distanciamentos determinados com o mundo do tráfico, sem enxergá-lo como antagônico.”

O funcionário público busca desfazer a imagem de monstro associada aos milicianos, sinalizando como esses sujeitos constroem relações de afeto. “O interlocutor não é cúmplice nem opositor da milícia, ele é um mediador que precisa equilibrar lealdade pessoal, sobrevivência econômica e julgamento moral, em uma trama de negociações complexas. É justamente por essa característica agregadora que a milícia consegue capturar operadores da infraestrutura urbana para seus interesses privados”, escreve Motta na tese.

O trabalho trata, ainda, da transformação enfrentada pelas milícias após a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que as investigou em 2008, mostrando como esses grupos passaram a ser chefiados por indivíduos sem vínculos com instituições públicas, para dificultar investigações. Essa nova versão diluiu suas fronteiras em relação ao tráfico, com o qual passa a se aliar quando conveniente. Ambos se aproveitam das relações econômicas estabelecidas nos territórios onde se encontram, extorquindo moradores e abocanhando uma fatia dos lucros de negócios rentáveis.

Na análise da orientadora, as três biografias possibilitaram revelar mudanças sociais. “É sempre difícil essa mediação entre o que são os aspectos biográficos do sujeito e o que é construído pelo tecido social, pelo tempo histórico, pela memória. A biografia acabou sendo um gancho para Jonathan falar de transformações sociais, e ele ainda conseguiu fazer isso com uma escrita envolvente, dando um salto muito qualitativo para o debate sociológico e urbano”, afirma Rui.

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