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Estragos no Paraopeba para além da lama

Danos sociais e ambientais na bacia do rio persistem seis anos após desastre em Brumadinho (MG)

Rio de águas turvas de coloração marrom-avermelhada, margeado por densa vegetação tropical de tonalidade verde intensa, sob céu nublado, com um poste de sinalização de cor laranja e vermelho visível à direita da imagem.
Impactos do rompimento da barragem de Brumadinho (MG) no rio Paraopeba (MG) ultrapassam meios físico e biológico

O rompimento da barragem B1 da mina Córrego do Feijão em Brumadinho (MG), no ano de 2019, deixou cicatrizes abertas e profundas na bacia do rio Paraopeba. Os rejeitos da mineração que foram lançados no entorno do rio causaram impactos sociais e ambientais severos, que transcendem os meios físico e biótico. Essa é uma das conclusões a que chega Maíra Rodrigues da Silva em tese defendida no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp. Sua pesquisa se concentrou em analisar a chamada “zona quente”, a área mais próxima ao rompimento da barragem, e demonstrou que, embora as operações de dragagem no leito do rio estejam contribuindo para reduzir os efeitos agudos dos sedimentos depositados, houve um impacto na biodiversidade da fauna aquática. Da mesma forma, solos de matas ciliares, importantes locais de integração de ecossistemas aquáticos e terrestres, apresentam um cenário de alerta crítico.

Orientada pelo docente do IG Jefferson Picanço, a tese inova ao apresentar estudos integrados nas áreas de geoquímica, ecologia e ecotoxicologia e uma contribuição epistêmica à análise do desastre sociotécnico. “Esse é um papel das Geociências e temos um pioneirismo na Unicamp, a partir de estudos do professor Bernardino Figueiredo, que trouxeram diferentes áreas para entender um passivo ambiental”, explica a pesquisadora. A tese se diferencia também por trazer respostas sobre o comportamento da bacia do Paraopeba anos após o rompimento da barragem. Silva se questionou como elementos potencialmente tóxicos, presentes na lama resultante do incidente, poderiam afetar o rio nos períodos de cheia e seca. “Esses sedimentos interferem na biota e principalmente nos ecossistemas aquáticos e terrestres”, afirma.

Pessoa agachada à margem de um rio de águas turvas e avermelhadas, vestindo roupa branca de manga longa e chapéu branco de abas largas, utilizando uma peneira de vime para coletar amostras de sedimento e água do rio, com vegetação ao fundo.
Pesquisadora analisou a área mais próxima ao desastre de 2019
Pessoa agachada à margem de um rio de águas turvas e avermelhadas, vestindo roupa branca de manga longa e chapéu branco de abas largas, utilizando uma peneira de vime para coletar amostras de sedimento e água do rio, com vegetação ao fundo.
Pesquisadora analisou a área mais próxima ao desastre de 2019

Por meio de estudos integrados, a pesquisadora identificou na lama do rompimento da barragem a presença de metais e metaloides (também chamados semimetais) potencialmente tóxicos que ficaram depositados na bacia do rio. Esses elementos, em altas concentrações, tornam-se perigosos para a fauna, a flora e os seres humanos. Assim, “chegamos ao resultado de que a bacia [do Paraopeba] é, sim, impactada anos após o rompimento da barragem”, relata.

A análise integrada de solo e dos ecossistemas aquáticos foi possível devido aos estudos realizados nas matas ciliares da área, que foram peças-chaves para entender os impactos do desastre – especialmente durante as cheias e secas. Desta forma, explica a pesquisadora, é possível pensar em estratégias de resiliência pós-desastre. Mas como restaurar a qualidade química da água para o abastecimento e para a vida dos ecossistemas aquáticos? A resposta pode estar associada à utilização das plantas, ou seja, a fitotecnologias. “Um dos insights mais importantes da tese foi entender os processos que estavam acontecendo no território, dentro da dinâmica de transferência do sedimento até a biota”, diz Silva.

Há, na tese, uma conexão entre a ciência convencional e os saberes tradicionais, aos quais a pesquisadora recorreu para levantar percepções sobre quais plantas poderiam ser utilizadas para descontaminar áreas com presenças de elementos tóxicos (como metais pesados). Na região da bacia do Paraopeba, há “uma série de plantas que são de uso popular, de comunidades tradicionais e que podem contribuir”, explica ela. 

Pessoa adulta de cabelos brancos e encaracolados, usando óculos de armação escura e camisa branca listrada, gesticulando com as mãos enquanto fala em um ambiente interno com janelas amplas ao fundo.
Jefferson Picanço, professor do IG: desastre impactou culturas que habitam as margens do rio Paraopeba
Pessoa adulta de cabelos brancos e encaracolados, usando óculos de armação escura e camisa branca listrada, gesticulando com as mãos enquanto fala em um ambiente interno com janelas amplas ao fundo.
Jefferson Picanço, professor do IG: desastre impactou culturas que habitam as margens do rio Paraopeba

Os impactos, aliás, também permanecem nas comunidades tradicionais. Houve um comprometimento no modo de vida das populações que vivem no entorno do rio, incluindo quilombolas, pescadores artesanais, povos de terreiro, agricultores familiares e indígenas. A tese traz argumentos que apontam que os impactos do desastre pós-rompimento vão além da lama: eles atingem a ancestralidade. “Esse desastre é imposto não só ao rio, mas também às culturas que habitam as margens desse rio”, afirma Picanço. As áreas mais impactadas em desastres como o de Mariana e o de Brumadinho são predominantemente habitadas por populações não brancas, principalmente negras. Assim, a contaminação atinge a herança e as tradições de matriz africana, nas quais a natureza e a espiritualidade são indissociáveis. 

Silva realizou testes em laboratórios que buscaram entender como a lama tóxica afeta a vida das pessoas. Um dos experimentos mostrou que o solo contaminado produz uma interferência sobre o banco de sementes, que funciona como uma espécie de memória de recuperação da flora. A pesquisadora analisou o índice de plantas que conseguem emergir do solo e constatou a presença de elementos como cobre, boro e zinco, os quais, somados à acidez do solo, prejudicam o desenvolvimento inicial dos espécimes. Mesmo aquelas sementes que conseguem germinar enfrentam dificuldades para crescer, devido à baixa disponibilidade de macronutrientes e ao excesso de metais como manganês e ferro. 

Silva observa que os testes de laboratório, além de expressar a toxicidade, comprovam um apagamento de conhecimentos e modos de vida de populações tradicionais. “As folhas são elementos sagrados e ferramentas de cura. Ao impedir a germinação de plantas nativas, interrompe-se a transmissão de conhecimentos ancestrais”, aponta. A contaminação ambiental é, portanto, um agente de exclusão social, na medida em que os moradores perdem sua conexão com a ancestralidade.

Pessoa com óculos de armação preta, headband bege, blazer branco, colar dourado e acessórios, gesticulando enquanto fala em um ambiente interno com amplas janelas e corrimãos ao fundo.
Maíra Rodrigues da Silva integrou estudos nas áreas de geoquímica, ecologia e ecotoxicologia em sua tese
Pessoa com óculos de armação preta, headband bege, blazer branco, colar dourado e acessórios, gesticulando enquanto fala em um ambiente interno com amplas janelas e corrimãos ao fundo.
Maíra Rodrigues da Silva integrou estudos nas áreas de geoquímica, ecologia e ecotoxicologia em sua tese

Extensão no quilombo

A pesquisadora, que é quilombola de Ivaporunduva, no município de Eldorado (SP), aponta a importância da relação entre universidade, ancestralidade e cosmovisão. Um programa de extensão universitária permitiu que ela fizesse um cursinho e garantiu emprego e renda para suas tias, com a produção de bananas e seus derivados. “A extensão chegou, de fato, ao território onde eu vivia. Para uma criança quilombola, que viveu sob liberdade na floresta e nos rios, a universidade é uma ferramenta não só científica, mas também política, para que a gente consiga fortalecer esses territórios”, analisa.

Professor emérito da Unicamp, Figueiredo coordenou no início dos anos 2000 um projeto de grande envergadura no Vale do Ribeira (SP), que avaliou a contaminação humana e ambiental por metais pesados (especialmente chumbo). Silva vivia no quilombo enquanto o docente realizava suas pesquisas e teve acesso ao material. Interessada em estudar o tema, procurou Figueiredo, e os interesses comuns os aproximaram. Esse contato, relata ela, serviu de estímulo para o avanço de sua formação como pesquisadora.

Da mesma forma como o emérito inspirou seus estudos, a pesquisadora agora influencia novas gerações quilombolas a seguirem a carreira acadêmica – o que, para ela, representa uma conquista coletiva. “Eu sou fruto desta Universidade. Finalizar esse trabalho é, também, contribuir com outras trajetórias e com o estudo de outros impactos, em outras bacias.”

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