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Um corante à base de 3 vegetais

Um corante à base de 3 vegetais

Pesquisadores desenvolvem produto sustentável combinando extratos de crajiru, açaí e beterraba

Quatro tubos de ensaio com líquido vermelho dispostos em suporte branco sobre mesa, com recipientes contendo grãos ao fundo, representando uma cena de análise laboratorial ou teste de amostras.
Corante desenvolvido no CPQBA a partir da combinação de extratos naturais alcança diferentes tons de vermelho e garante mais estabilidade
Quatro tubos de ensaio com líquido vermelho dispostos em suporte branco sobre mesa, com recipientes contendo grãos ao fundo, representando uma cena de análise laboratorial ou teste de amostras.
Corante desenvolvido no CPQBA a partir da combinação de extratos naturais alcança diferentes tons de vermelho e garante mais estabilidade
Logotipo institucional composto pela sigla "sec" em vermelho na parte superior, seguida pela palavra "inovação" em azul petróleo, acompanhada do termo "INOVAÇÃO" em cinza na parte inferior, com elementos gráficos de pontos e linhas conectados que sugerem uma rede ou diagrama de conexões.
Logotipo institucional composto pela sigla "sec" em vermelho na parte superior, seguida pela palavra "inovação" em azul petróleo, acompanhada do termo "INOVAÇÃO" em cinza na parte inferior, com elementos gráficos de pontos e linhas conectados que sugerem uma rede ou diagrama de conexões.

Para melhorar a aparência dos alimentos, que influencia diretamente na decisão de compra do consumidor, a indústria alimentícia recorre frequentemente aos corantes, que ajudam a tornar seus produtos mais atraentes. No entanto, diante do recente interesse da população pela composição dos alimentos e pela procedência dos ingredientes daquilo que consome, a preferência por insumos de origem natural se tornou uma tendência. Nesse contexto, pesquisadores do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp desenvolveram um corante alimentício obtido a partir do crajiru, planta arbustiva comumente encontrada na floresta amazônica, em combinação com o açaí e a beterraba.

A investigação para a produção do corante teve início em uma conversa entre a equipe coordenada pelo pesquisador Rodney Ferreira Rodrigues, do CPQBA, e o inventor independente Marcos Félix, que trabalhava em parceria com pesquisadores da Unicamp no desenvolvimento complementar de uma tecnologia voltada para a obtenção de extrato clarificado de jambu. Daquele encontro inicial surgiu o desafio de desenvolver corantes naturais estáveis de coloração vermelha, laranja, rosa ou arroxeada, com potencial de rápida adoção pelo mercado. O crajiru, já conhecido pelos pesquisadores a partir de trabalhos anteriores, foi uma das espécies levantadas. 

“A pesquisa teve início com a sugestão de uso da Fridericia chica [nome científico do crajiru], espécie já conhecida pela equipe, apoiada pela divisão de Agrotecnologia, que forneceu material vegetal de qualidade. A ideia foi desenvolvida de forma colaborativa, com a incorporação de outros extratos e a atuação conjunta dos pesquisadores nas etapas de controle analítico e microbiológico, por exemplo, garantindo a qualidade da tecnologia para aplicações alimentícias, cosméticas e têxteis”, diz Rodrigues.

Félix contribuiu com seu conhecimento sobre extratos e corantes obtidos a partir de outras fontes. “Eu já possuía experiência com extratos para outras finalidades e corantes de beterraba e açaí, ambos caracterizados pela coloração vermelha. No entanto, esses extratos isolados não apresentavam o desempenho necessário e demandavam sinergia com outros componentes para se transformarem em corantes viáveis e estáveis”, explica o inventor. Surgiu, então, a oportunidade de unir esses três extratos em uma composição única, para alcançar um corante com maior desempenho e estabilidade. 

Pessoa em laboratório segurando um balão volumétrico contendo líquido vermelho e um agitador magnético, com equipamentos científicos ao fundo.
O inventor independente Marcos Félix: parceria com a Unicamp
Pessoa em laboratório segurando um balão volumétrico contendo líquido vermelho e um agitador magnético, com equipamentos científicos ao fundo.
O inventor independente Marcos Félix: parceria com a Unicamp

Atualmente, o mercado conta com dois tipos de corante vermelho: derivados do inseto cochonilha e óxidos (como óxido de ferro), que podem apresentar toxicidade. A partir dessa limitação, o grupo passou a investigar uma alternativa baseada exclusivamente em extratos vegetais. O estudo adotou a copigmentação como estratégia de estabilização. Como os três extratos – obtidos nos estudos com o crajiru, o açaí e a beterraba – apresentam colorações distintas, sua combinação permite obter diferentes tonalidades de corante, dentro das possibilidades que cada opção oferece. “Quando alteramos a proporção de beterraba, por exemplo, modificamos o tom final, de forma semelhante a um sistema Pantone [padrão universal de cores utilizado pela indústria]”, esclarece Félix. Na prática, isso permite alcançar tonalidades mais alaranjadas ou avermelhadas, por exemplo. 

No processo, os pesquisadores analisaram os compostos orgânicos responsáveis pela coloração para verificar se, ao serem combinados, apresentariam um comportamento diferente quanto à degradação de antocianinas (substâncias que dão a cor). Os resultados indicaram que, quando associados, os compostos mantêm a coloração por mais tempo do que quando utilizados de forma isolada. 

O efeito da copigmentação funciona como uma proteção mútua entre as moléculas. “É como uma armadura invisível para o pigmento. Geralmente sem cor, o copigmento se dobra ao redor das moléculas que dão cor, dificultando o acesso dos agentes degradadores e preservando a coloração original”, compara José Cláudio Monteiro Filho, ex-aluno da Unicamp que concluiu o doutorado no CPQBA e participou da invenção da tecnologia. “Trata-se de um produto natural e disruptivo. Não há atualmente no mercado outro corante totalmente natural com esse espectro de coloração”, afirma.

A concentração necessária para alcançar o efeito desejado é outro aspecto relevante da invenção. Em geral, são exigidas de 100 a 200 vezes mais extratos naturais para se obter a mesma intensidade de um corante sintético. No caso da tecnologia desenvolvida, o poder corante corresponde a cerca de um quarto do sintético. Embora estes sejam mais potentes, a Fridericia chica apresenta alta capacidade de coloração, permitindo resultados expressivos com quantidades relativamente pequenas de extrato.

Os inventores destacam ainda que o crajiru é uma planta brasileira com uso medicinal consolidado. O CPQBA mantém uma coleção de variedades oriundas de diferentes regiões do país, a Coleção de Plantas Medicinais e Aromáticas (CPMA), o que possibilita a seleção de genótipos mais adequados ao cultivo e à produção. A coleta do material vegetal ocorre de forma não destrutiva, sem eliminar ou danificar significativamente o espécime, e segue princípios de sustentabilidade ambiental, contribuindo para a valorização da biodiversidade nacional.

Pessoa de óculos e camiseta clara posando com os braços cruzados em frente a uma placa com o logotipo e nome "UNICAMP" em um ambiente externo com vegetação ao fundo.
Rodney Ferreira Rodrigues, pesquisador do CPQBA e coordenador do projeto
Pessoa de óculos e camiseta clara posando com os braços cruzados em frente a uma placa com o logotipo e nome "UNICAMP" em um ambiente externo com vegetação ao fundo.
Rodney Ferreira Rodrigues, pesquisador do CPQBA e coordenador do projeto

Aplicações diversas

Com potencial de aplicação tanto na indústria alimentícia quanto nos setores cosmético e têxtil, a tecnologia se destaca pela versatilidade do corante natural, cuja tonalidade pode ser ajustada sem comprometer suas propriedades funcionais. Na indústria cosmética, além da preocupação com tonalidade e aparência, cresce o debate sobre o uso de matérias-primas naturais e a adoção de práticas que dispensem testes em animais. Um dos principais desafios é a obtenção de corantes com boa estabilidade frente a variações de pH, temperatura e incidência de luz, obstáculos que a tecnologia desenvolvida busca superar. Outro diferencial é a atividade antimicrobiana dos extratos, que permite seu uso como conservante natural, em substituição a compostos sintéticos. 

Além de auxiliar no controle de microrganismos, o ingrediente contribui para a conservação dos produtos, ampliando sua segurança e estabilidade para aplicações industriais. “Isso é relevante diante do uso indiscriminado de conservantes sintéticos pelas indústrias, prática que pode levar à resistência microbiana. Portanto, a tecnologia também tem esse apelo de saúde pública e sustentabilidade ambiental”, explica Maria Cristina Teixeira Duarte, pesquisadora do CPQBA que participou do desenvolvimento da invenção.

Para chegar ao mercado, a tecnologia precisa ser licenciada por empresas ou instituições interessadas em aplicar processos ambientalmente sustentáveis em suas operações. Quem viabiliza a conexão entre pesquisa e mercado na Universidade é a Agência de Inovação Inova Unicamp, que operacionaliza o processo de transferência de tecnologia.


Reportagem produzida pela equipe de comunicação da Agência de Inovação Inova Unicamp no âmbito de parceria com a Secretaria Executiva de Comunicação

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