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Pessoa de costas vestindo terno azul observa avenida urbana movimentada com veículos em trânsito, edifícios comerciais de grande porte ao fundo e estrutura de acesso ao metrô à esquerda.
Avenida Paulista, símbolo da cidade de São Paulo, que é considerada centro financeiro do país: mudanças na governança corporativa ampliaram distância entre salários

Desigualdade que vem do topo

Pesquisa mostra que a remuneração de executivos amplia a concentração de renda no Brasil

Desigualdade que vem do topo

Pesquisa mostra que a remuneração de executivos amplia a concentração de renda no Brasil

Pessoa de costas vestindo terno azul observa avenida urbana movimentada com veículos em trânsito, edifícios comerciais de grande porte ao fundo e estrutura de acesso ao metrô à esquerda.
Avenida Paulista, símbolo da cidade de São Paulo, que é considerada centro financeiro do país: mudanças na governança corporativa ampliaram distância entre salários

A desigualdade de renda no Brasil costuma ser analisada a partir da base da pirâmide social, considerando dados sobre salários, pobreza e informalidade, por exemplo. Em sua pesquisa de doutorado, que defendeu no Instituto de Economia (IE) da Unicamp, Gabriel Quatrochi desloca esse foco para o topo, ao investigar como a financeirização, a dinâmica de remuneração de executivos e o atual modelo de governança corporativa contribuem para ampliar a concentração de renda no país.

Na tese “Desigualdade de renda pelo topo: ensaios críticos sobre financeirização, governança corporativa e remuneração de CEOs e diretores executivos no Brasil”, Quatrochi articula análise teórica e evidência empírica para examinar a evolução dos rendimentos dos principais executivos de empresas listadas em Bolsa e seu papel na estrutura distributiva brasileira.

O ponto de partida da pesquisa, que foi orientada pelo professor do IE Célio Hiratuka, é um diagnóstico já presente na literatura: a desigualdade brasileira é maior do que aparece nas medições baseadas apenas em dados domiciliares. A tese mostra que, quando entram na conta informações fiscais e financeiras — mais capazes de capturar rendas concentradas no topo, como lucros, dividendos, aplicações e remunerações variáveis —, a distância entre os estratos sociais se amplia. Com base na World Inequality Database, Quatrochi aponta que, entre 2000 e 2022, o 1% mais rico concentrou, em média, 22% da renda nacional; os 10% mais ricos ficaram com quase 60%; e a metade mais pobre permaneceu com menos de 10%.

Governança e poder

Quatrochi reconstrói o processo de difusão da governança corporativa no Brasil, associado à crescente financeirização das empresas. Segundo o pesquisador, a adoção de práticas centradas na maximização do valor para o acionista alterou os incentivos internos das corporações e redefiniu os critérios de remuneração no topo. Nesse contexto, a remuneração executiva passa a ser apresentada como mecanismo de alinhamento entre gestores e acionistas, mas, na prática, tende a se dissociar do desempenho empresarial. “A literatura internacional, desde os anos 1970, nunca chegou a um consenso de que essa relação seja robusta”, afirma o autor.

A explicação, segundo a tese, está menos em fatores técnicos e mais em estruturas de poder. “O alto escalão executivo exerce influência ativa sobre a determinação dos próprios rendimentos.” Esse processo se materializa nos mecanismos de governança, especialmente no entrelaçamento de conselhos de administração, aponta Quatrochi. Na prática, explica o autor, executivos participam simultaneamente de conselhos de diferentes empresas, criando redes de influência e padrões de comparação que sustentam a elevação das remunerações. Nas empresas inseridas nesses arranjos, os níveis de pagamento aos executivos são significativamente mais altos – sobretudo nos componentes vinculados a ações.

Remuneração e desempenho

A pesquisa avança, então, para uma análise econométrica sobre a relação entre remuneração executiva e desempenho de empresas brasileiras entre 2010 e 2022. Os resultados obtidos indicam que essa relação é limitada e instável: a evolução da remuneração não se justifica de forma consistente por indicadores operacionais ou de mercado. “Não é o desempenho que a explica, mas o fato de que essas remunerações têm crescido em ritmo incomparavelmente superior”, afirma.

A tese também identifica fatores institucionais específicos do caso brasileiro. Entre 2010 e 2017, por exemplo, decisões judiciais suspenderam a obrigatoriedade de divulgação detalhada das remunerações executivas. Naquele período, os rendimentos dos diretores executivos cresceram de forma acelerada. No entanto, com a retomada da transparência a partir de 2018, observa-se uma inflexão, com queda nos níveis médios e desaceleração do crescimento.

“A tese traz para o Brasil uma discussão que ganhou força nas economias anglo-saxãs, especialmente nos Estados Unidos, sobre como as mudanças na governança corporativa ampliaram a distância entre os salários do topo e da base”, afirma Hiratuka. Segundo o orientador, esse movimento não se traduz necessariamente em melhor desempenho. “A elevação das remunerações dos CEOs não está associada, de forma robusta, a melhores resultados das empresas ou da economia.”

Para o professor, que chama a atenção para o alcance mais amplo dos resultados, a contribuição da pesquisa está em mostrar que esse padrão também se reproduz no Brasil. “O estudo apresenta evidências de que isso contribui para piorar a distribuição de renda e, ao mesmo tempo, não resulta necessariamente em melhor desempenho econômico”, avalia. Hiratuka destaca ainda o papel das redes de poder nesse processo: “Esses salários elevados estão, em grande medida, associados a redes de relacionamento e circuitos de poder dentro das corporações”.

Duas pessoas sentadas à mesa em frente a estante de livros, em ambiente que aparenta ser um escritório ou sala de reuniões.
O professor Célio Hiratuka (à esquerda) e Gabriel Quatrochi, autor da pesquisa: tese revela distância maior entre estratos da sociedade
Duas pessoas sentadas à mesa em frente a estante de livros, em ambiente que aparenta ser um escritório ou sala de reuniões.
O professor Célio Hiratuka (à esquerda) e Gabriel Quatrochi, autor da pesquisa: tese revela distância maior entre estratos da sociedade

Executivos no topo

Por fim, Quatrochi situa a remuneração executiva dentro da estrutura de concentração de renda. A partir de dados de empresas listadas e informações fiscais, sua tese constrói indicadores como o índice “CEO x trabalhador” e analisa a posição desses executivos nos estratos superiores. Os resultados mostram crescimento expressivo da diferença entre remuneração de executivos e trabalhadores, além da presença significativa desses rendimentos nos segmentos mais ricos da população. Em alguns casos, esses profissionais se posicionam entre os estratos mais altos da distribuição.

A pesquisa aponta que a remuneração dos CEOs tem crescido em ritmo superior ao da renda média do 0,01% mais rico do país. “O que se tem é uma fonte de renda que cresce no topo sendo tributada de forma parcial e regressiva”, diz. Grande parte dessas remunerações – especialmente aquelas pagas em ações e opções – está sujeita a tratamento tributário favorecido. Isso reforça a regressividade do sistema, ao incidir menos sobre rendas concentradas nos estratos mais altos, explica Quatrochi.

Além da tributação, a tese destaca limitações na regulação da governança corporativa. A sobreposição de funções entre conselhos e diretorias e a fragilidade dos mecanismos de independência contribuem para a reprodução desse padrão. “Ainda enfrentamos um problema estrutural que pode ser resumido como ‘raposas supervisionando o galinheiro’”, indica.

Antes de chegar a essa síntese, o autor chama a atenção para os mecanismos concretos que sustentam a dinâmica. “Na prática, o CEO costuma influenciar a composição do conselho, que por sua vez é formado por outros executivos, criando um ambiente em que a régua de remuneração tende a se manter elevada”, afirma.

Por todo o trabalho, o autor sustenta que a desigualdade no Brasil não pode ser compreendida apenas como resultado de diferenças de produtividade. Trata-se de um fenômeno estruturado por instituições – entre elas, o sistema tributário, os mecanismos de governança corporativa e a dinâmica da financeirização.

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