Por uma nova ciência econômica
Por uma nova ciência econômica
Teoria de professor da Unicamp apresenta a economia como sistema adaptativo complexo, não como mecanismo de equilíbrio geral


As configurações sociais e econômicas são dinâmicas e variam ao longo do tempo. A partir dessa concepção, uma Nova Ciência Econômica deixa de idealizar a economia como um sistema em equilíbrio e passa a enxergá-la como um processo adaptativo, sintetiza o economista social-desenvolvimentista Fernando Nogueira da Costa, autor de uma teoria científica transdisciplinar que abandona o equilíbrio como centro de referência e desloca o núcleo duro da Ciência Econômica tradicional. Com sua proposta, ele desafia a resistência às novas ideias criadas fora do Norte Global hegemônico e questiona: “Por que no Brasil não se podem propor novas teorias econômicas?”.
Costa apresenta seu estudo no livro Introdução à Nova Ciência Econômica através de fábulas e crônicas, ainda sem data para o lançamento, mas já aprovado pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), com apresentação do economista Luiz Gonzaga Belluzzo. Professor do Instituto de Economia (IE) da Unicamp há mais de 40 anos, o autor define metaforicamente sua iniciativa como um banho de realidade nas teorias econômicas, “porque supera as fronteiras corporativistas, propondo a interação das áreas de conhecimento e rompendo com o agente maximizador plenamente racional do neoclassicismo”.
A Nova Ciência Econômica se propõe a ser a ciência da complexidade histórica das relações econômicas em evolução. “Eu sugiro passar a ver a economia como sistema adaptativo complexo, não como mecanismo de equilíbrio geral”, afirma Costa. “Nesse enquadramento, o mercado não é um mecanismo de equilíbrio, o Estado não é exógeno, a moeda não é neutra, as expectativas não são racionais no sentido absoluto, e as crises não são choques externos, mas propriedades emergentes das interações dos componentes de um sistema complexo. Isso tudo é integrado em uma abordagem holística”, explica o professor.
Conhecimento compartilhado
Além da longa trajetória acadêmica, o economista Fernando Nogueira da Costa acumula experiência profissional no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), onde ingressou após o mestrado em Economia na Unicamp, e na Caixa Econômica Federal, onde exerceu a vice-presidência de Finanças e Mercado de Capitais de 2003 a 2007, já no período maduro de sua carreira. Foi indicado por sindicatos bancários e convidado pelo colega Jorge Mattoso, então presidente da instituição.
Nesse período, já colocava em prática os ensinamentos da sua ex-professora e amiga Maria da Conceição Tavares, que tem como mentora. “Aprendi [com Tavares] a provar tudo com números. Ela me disse: ‘Para tudo dito sobre economia brasileira, mostre os números oficiais. Você é um cara de esquerda. Se você não fizer isso, vão falar que é ideologia. Se eles quiserem brigar com os números, problema deles’”, lembra o economista.
Diante disso, o professor não se furta aos debates, que surgem via de regra por conta da disponibilização do seu conteúdo provocador. Costa destaca o fato de praticamente toda a sua produção científica e bagagem profissional estarem disponíveis em seu blog desde 2010. “Eu sempre estudei e trabalhei em instituições públicas, por isso coloco todo meu conhecimento à disposição. É uma forma de eu retribuir.”


Marx e Keynes
A “economia ortodoxa” e seus fundamentos são debates recorrentes, sobre os quais Costa responde: “A Nova Ciência Econômica não elimina as tradições fundamentais na formação adequada de um bom economista”. De acordo com o professor, a abordagem transdisciplinar não descarta o marxismo do século 19 – com sua análise estrutural do capitalismo, seu conflito distributivo e a dinâmica histórica – nem o keynesianismo do século 20.
Há múltiplos níveis de análise, argumenta o professor. “Com Marx, analisa-se estrutura e conflito. Com Keynes, teoriza-se instabilidade e incerteza. A partir da complexidade, verificam-se as variações dinâmicas ao longo do tempo. Pela Economia Comportamental, constata-se que os microfundamentos não são sempre racionais. O Institucionalismo aborda a mediação histórica por instituições. E a Economia Evolucionária usa o método darwinista, aplicado à economia, ou seja, a adequação dos agentes econômicos ao ambiente mutável.”
Para Costa, a transdisciplinaridade emerge das interações e não pode significar apenas a soma acrítica de teorias, como uma justaposição de conceitos. Sua Nova Ciência Econômica adota o pluralismo estruturado com base na Psicologia Econômica (ou Economia Comportamental), Sociologia Econômica (ou Economia Institucionalista), Biologia Evolutiva Darwinista (ou Economia Evolucionária) e Teoria da Complexidade (ou Econofísica).
“Muitos economistas ignoram outras ciências, um pensamento ortodoxo totalmente fora da realidade. Eu proponho considerar as outras áreas de conhecimento, como Sociologia, Psicologia, Ciência Política e Direito.” A proposta reformula essas contribuições em linguagem sistêmica contemporânea, expandindo as teorias ao integrar redes financeiras, comportamento coletivo e dinâmica adaptativa a cada nova realidade.
De acordo com o autor, a nova ciência já é uma realidade. “Apenas ousei juntar e nomeá-la. Ao adotar o método científico histórico-indutivo, ela se torna muito mais próxima da realidade diante da Velha Ciência Econômica, com seu método dedutivo-racional mais abstrato. A finalidade é reconectar teoria e realidade, economia e sociedade”, diz o economista.
Costa explica sua teoria no livro por meio de fábulas e crônicas e faz uso de apólogos (narrativas alegóricas que tratam seres ou objetos inanimados como se fossem humanos) com a antropomorfização de elementos do universo econômico: “Eu, moeda injuriada”; “Eu, banco”; “Eu, bitcoin”; “Eu, Estado”; “Eu, mercado”.
Autor do livro Brasil dos bancos (Edusp, 2012), sobre a história bancária brasileira, ele se classifica como economista social-desenvolvimentista por defender a política social ativa para desconcentrar renda. “Eu propus o acesso popular a bancos e crédito. E conseguimos. Fizemos a bancarização, dando ao pobre, antes sem conta, o acesso ao sistema bancário.” Costa escreve cerca de cinco artigos semanais para publicações diversas, como A Terra é Redonda, Fórum 21, GGN, RED e Brasil 247. Seus textos também foram publicados em formato de livros, ao todo 140, a maior parte deles digital.
