Abstrações visuais à beira-mar
Abstrações visuais à beira-mar
Professor emérito da Unicamp lança fotolivro com cenas flagradas em paisagens litorâneas


Ao lançar o fotolivro Água-Forte: imagens do mundo flutuante (Lovely House Editora), o professor emérito da Unicamp Thomas Lewinsohn convida o leitor a “seguir seu olhar desapressado por fotografias que bordejam o abstrato”. Um poema visual com 89 imagens, a obra será lançada em Campinas no Pavão Cultural, em 27 de junho., às 15 horas
Biólogo dedicado à ciência há mais de quatro décadas, sem nunca abrir mão da fotografia, Lewinsohn trabalha, no livro, na escala dos fragmentos de conchas, pedras, algas, recortes de falésias e rastros minerais na areia. Seu foco, no entanto, não está apenas nos detalhes. “Propositalmente não existe referência de escala. Algumas poderiam ser fotos de drone ou de satélite. Pode ser uma paisagem lunar. Eu brinco com essa ambiguidade.”
A ausência de legendas impõe ao leitor um olhar poético ou a leitura de uma reconfiguração do mundo. “Essa é a ideia. A diagramação é construída pensando nesse olhar, com espaço para a respiração. É o oposto do olhar apressado das redes sociais. Tem que dar tempo para a contemplação”, sugere. Sua expectativa é de que o leitor tenha experiência semelhante à que teve ao fotografar.
“Eu flanava pelas praias sem pauta, sem compulsão. Acontecia de sair com a máquina e não tirar nenhuma foto. Ou de sair sem a máquina. Fui me dando conta das formas, das texturas, da luz, das marés. Sem manipular as fotos, eu esperava a última luz do céu, depois de o sol se pôr. Você tem que persistir”, descreve seu método, que o levou, entre outras escolhas formais, a haicais fotográficos.
A relação íntima com a natureza não se deu apenas como biólogo, mas como ser humano, diz ele. “As coisas que me pegam o olhar têm uma razão de ser. Essas formas que me encantam são efêmeras. Passei a vida inteira olhando para plantas e buscando rastros de insetos e evidências que muitas vezes são igualmente sutis e transitórias.”


O olhar apurado para sutilezas não é atribuído somente à vivência de pesquisa. “Isso está na minha formação de visão de mundo desde sempre. Não é apenas o biólogo.” Natural de Niterói (RJ), o professor guarda memórias de sua infância na praia e do seu convívio com duas tias artistas visuais, às quais ele dedica o livro, Fayga Ostrower e Anna Bella Geiger.
Ambas, na época, produziam gravuras em madeira e metal. Anna Bella foi pioneira em utilizar mapas do Brasil, da América Latina e da Lua como metáforas políticas em plena ditadura. Os mapas seguem como tema recorrente na obra atual da artista, em plena produção aos 93 anos. No livro, eles ressoam em uma sequência de fotos com mapas de pedras e animais incrustados, “achados” na praia de Tourinhos, no Rio Grande do Norte.
Retorno às lentes
Docente desde 1980 e professor aposentado do Instituto de Biologia (IB) há dez anos, Lewinsohn continua ativo na pós-graduação da Universidade e em outras atividades, como no comitê do Programa Biota da Fapesp. Foi professor visitante em diversos países, e no Brasil atuou em comissões no Ministério do Meio Ambiente, entre outras entidades científicas.
Trabalhou seis anos como fotógrafo freelancer no Rio de Janeiro. “Por um período, me desencantei com a graduação em Biologia. Tranquei o curso, resolvi focar em fotografia e programação visual, nos Estados Unidos, mas não tive como pagar os estudos. Voltei para a Biologia, concluí o curso na UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro] e, em 1976, vim para a Unicamp fazer o mestrado em Ecologia, na primeira turma. Cinquenta anos depois, sigo aqui.”
Nos anos 2000, começou a retornar às lentes. “Foi acontecendo gradualmente, sem plano nem expectativa. Comecei a flanar sem itinerário por inúmeras praias, algumas desertas, a maior parte no sul da Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará e São Paulo. Algumas fotos são do interior do México e do sul de Cuba.”

Ciência e arte
O projeto de Água-Forte nasceu nos workshops e leituras de portfólio na França, em 2023. “O livro não é um álbum, um aglomerado de fotografias. Ele tem uma narrativa visual que nasceu do trabalho conjunto com Luciana Molisani, que fez o projeto gráfico, e Eder Ribeiro, curador e coeditor.” Lewinsohn também foi incentivado pelo fotógrafo Walter Firmo, que o chama de “sonhador das imagens”.
O livro, cujo título faz referência ao mar e a uma antiga técnica de gravura, é uma edição trilíngue e tem textos da artista Anna Bella Geiger, que situa as fotos “na fronteira entre a ciência, a arte e a contemplação”, do antropólogo e professor aposentado do Instituto de Artes (IA) da Unicamp Fernando de Tacca e do editor Eder Ribeiro.
“Estou cutucando as pessoas para olharem de outra forma. Não estou tentando educar ninguém. Não é um discurso de ecologia. Gostaria que vissem que há microcontos visuais em cada foto, contos que estão ao alcance de qualquer um que perambule pelas praias do Brasil. Sem pressa.”
Lançado em março deste ano no 15º Festival de Fotografia de Tiradentes (MG), o fotolivro está à venda na livraria da editora e no endereço lovelyhouse.com.br/agua-forte-thomas-lewinsohn.
