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Uma mão segura um modelo molecular de bolas e varetas em frente à tela de um computador. A tela exibe um gráfico tridimensional verde em formato de parábola e esquemas matemáticos. O modelo molecular possui esferas nas cores azul, preto, laranja e branco, conectadas por hastes cinzas, reproduzindo a estrutura visual que aparece desenhada digitalmente na apresentação ao fundo
Em primeiro plano, representação tridimensional de molécula e, ao fundo, o modelo em cinco dimensões proposto pelos autores do artigo; inovação reduz a quantidade de cálculos necessários para compreender geometria molecular

Uma mão segura um modelo molecular de bolas e varetas em frente à tela de um computador. A tela exibe um gráfico tridimensional verde em formato de parábola e esquemas matemáticos. O modelo molecular possui esferas nas cores azul, preto, laranja e branco, conectadas por hastes cinzas, reproduzindo a estrutura visual que aparece desenhada digitalmente na apresentação ao fundo
Em primeiro plano, representação tridimensional de molécula e, ao fundo, o modelo em cinco dimensões proposto pelos autores do artigo; inovação reduz a quantidade de cálculos necessários para compreender geometria molecular

Moléculas nunca estão paradas. Mesmo invisíveis aos olhos, seus átomos vibram, giram e se rearranjam continuamente. Descrever esse comportamento com precisão é um dos grandes desafios da química computacional, impactando diretamente os estudos sobre proteínas e o desenvolvimento de novos medicamentos. Foi justamente sobre esse problema que o professor Carlile Lavor, do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc) da Unicamp, decidiu se debruçar na companhia de dois outros colegas matemáticos brasileiros.

O estudo, publicado como artigo de capa na revista Journal of Computational Chemistry, propõe uma nova forma de representar matematicamente a estrutura espacial das moléculas: em vez de trabalhar diretamente no espaço tridimensional em que elas existem, os pesquisadores sugerem projetá-las em um espaço de cinco dimensões. A proposta pode soar contraintuitiva — afinal, vivemos em três dimensões —, mas, do ponto de vista matemático, trata-se de uma representação que permite realizar cálculos computacionais de forma mais eficiente, especialmente aqueles relacionados às distâncias entre átomos, um dos elementos centrais na simulação de interações moleculares. Isso não significa que a molécula “exista” em cinco dimensões. Porém, representá-la matematicamente nesse espaço facilita os cálculos.

Na química, a função de uma molécula está diretamente relacionada à sua estrutura 3D. É a geometria tridimensional que determina como ela interage com outras estruturas, como no caso de um medicamento que se encaixa em uma proteína para “desativá-la”, ou de um anticorpo que reconhece e bloqueia a ação de um vírus. “Uma droga desenvolvida pela indústria farmacêutica interage com uma molécula-alvo por complementaridade estrutural e química, podendo inibir ou modular sua função. Por isso é fundamental conhecer a geometria das moléculas envolvidas”, explica Lavor.

Para simular computacionalmente as interações moleculares, é necessário recalcular continuamente a posição de cada átomo que compõe as moléculas e, por sua vez, avaliar as novas distâncias entre os átomos. Em estruturas grandes, como proteínas, que podem ter milhares de átomos, isso significa lidar com bilhões de cálculos.

Um homem de cabelos curtos escuros e barba por fazer usa óculos e uma camisa social clara. Ele está sentado à frente de um computador, segurando um modelo molecular de bolas e varetas enquanto aponta para a tela, que exibe um gráfico. O ambiente é um escritório com bancada branca, contendo também um notebook aberto, papéis e materiais de trabalho. A cena sugere uma explicação técnica ou aula.
O professor Carlile Lavor: estudos realizados na interface entre áreas do conhecimento oferecem mais oportunidades científicas
Um homem de cabelos curtos escuros e barba por fazer usa óculos e uma camisa social clara. Ele está sentado à frente de um computador, segurando um modelo molecular de bolas e varetas enquanto aponta para a tela, que exibe um gráfico. O ambiente é um escritório com bancada branca, contendo também um notebook aberto, papéis e materiais de trabalho. A cena sugere uma explicação técnica ou aula.
O professor Carlile Lavor: estudos realizados na interface entre áreas do conhecimento oferecem mais oportunidades científicas

História

Desde a década de 1960, o método padrão para converter as coordenadas internas de uma molécula (comprimento das ligações químicas e ângulos entre os átomos) em coordenadas cartesianas já usava um recurso matemático chamado coordenadas homogêneas, desenvolvido pelo químico H. Thompson. Sua ideia era representar cada átomo da molécula em quatro dimensões em vez de trabalhar no espaço 3D.

Junto aos colegas Jesus Camargo, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), e Michael Souza, da Universidade Federal do Ceará (UFC), coautores do artigo, Lavor recorreu a uma estratégia semelhante. Utilizando o chamado modelo conforme, os pesquisadores projetaram o espaço 3D em cinco dimensões, com propriedades matemáticas mais sofisticadas do que o espaço usual, de três dimensões.

O modelo conforme já existia e era usado em áreas como robótica, física e computação gráfica, mas nunca havia sido aplicado à geometria molecular. A principal inovação dos matemáticos é a chamada matriz de coordenadas conformes (C-matrix). De acordo com o artigo, ela codifica a posição de um átomo na cadeia molecular, registrando os ângulos de ligação, ângulo de torção e comprimento das ligações. Na prática, trata-se de uma nova forma de organizar essas informações no computador, permitindo cálculos mais eficientes.

Segundo os pesquisadores, o modelo conforme em cinco dimensões reduz o número de operações necessárias em relação ao modelo homogêneo em quatro dimensões para calcular distâncias entre átomos. Em termos gerais, o custo cai de aproximadamente 35 para 28 operações por unidade de cálculo, o que representa uma redução de cerca de 20%. Em moléculas com milhares de átomos, como proteínas, esse ganho se acumula em economia real de tempo e capacidade computacional.

Um homem de cabelos curtos e grisalhos, vestindo uma camisa polo azul-marinho, sorri levemente enquanto olha para o lado. Ele está posicionado em frente a um quadro branco preenchido com anotações manuscritas em azul e vermelho, incluindo termos técnicos e diagramas. A iluminação é clara e o foco está no rosto do homem, deixando o fundo suavemente visível.
Coautor do artigo Michael Souza, pesquisador e docente da Universidade Federal Ceará e professor visitante na Unicamp
Um homem de cabelos curtos e grisalhos, vestindo uma camisa polo azul-marinho, sorri levemente enquanto olha para o lado. Ele está posicionado em frente a um quadro branco preenchido com anotações manuscritas em azul e vermelho, incluindo termos técnicos e diagramas. A iluminação é clara e o foco está no rosto do homem, deixando o fundo suavemente visível.
Coautor do artigo Michael Souza, pesquisador e docente da Universidade Federal Ceará e professor visitante na Unicamp

Curiosidade

Lavor conta que a pesquisa não começou com um problema químico, mas a partir de uma curiosidade matemática: como o modelo conforme, de cinco dimensões, pode ser explicado matematicamente de maneira mais detalhada. “O matemático gosta de tudo nos mínimos detalhes. O modelo em 5D, do ponto de vista matemático, não estava bem explicado. E a gente queria saber o porquê”, conta. Ao longo de quase uma década, entre avanços e impasses, a equipe percebeu que essa abordagem poderia ser aplicada à química, no cálculo das distâncias no espaço entre os átomos, algo fundamental para o estudo de simulações de interações moleculares.

Antes do uso intensivo de computadores, descobrir novas drogas era, em grande parte, um processo de tentativa e erro em laboratório. Hoje, com a modelagem computacional, é possível simular interações moleculares antes de testá-las na prática. Quanto mais eficiente for o método — isto é, quanto menor for o esforço computacional necessário —, mais rápida será a exploração de diferentes possibilidades e mais promissores os avanços na busca por novas moléculas.

Fronteiras do conhecimento

A trajetória de Lavor ajuda a explicar essa abordagem interdisciplinar. Com formação em matemática e experiência em problemas da química desde o doutorado, ele se dedica a traduzir questões dessa área para a linguagem matemática. Mas seu percurso não foi linear. Antes de se fixar na matemática, estudou agronomia, economia e computação.

Foi durante o doutorado que teve o primeiro contato com problemas ligados à química, ao estudar a geometria de proteínas a partir de modelos matemáticos. Desde então, passou a se dedicar a interfaces entre diferentes disciplinas. Para ele, é justamente nessas interfaces que surgem muitas oportunidades na ciência, principalmente no caso da matemática, que opera como uma ponte entre diferentes campos do conhecimento. “Tem muito mais oportunidades na janela que conecta duas áreas da ciência do que dentro de cada uma delas.”

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