Como agir no contexto do novo regime climático?

Livro explora as interfaces entre ciência e política climática

“Novo regime climático” é o termo utilizado para compreender a realidade climática que vivemos. Consolidado pelo filósofo francês Bruno Latour, o conceito designa uma época em que os impactos da ação humana sobre o meio ambiente apresentam cada vez menos chances de reversão e a ocorrência de eventos climáticos extremos se torna constante.
Nesta nova era de relações entre sociedade e natureza, observam-se as consequências de décadas de intensa interferência humana no meio ambiente. Seja por meio da exploração em grande escala dos recursos naturais, da degradação desenfreada dos ecossistemas ou da excessiva emissão de poluentes, a ação humana levou o planeta a uma situação extrema. Ondas de calor, secas, incêndios, tempestades e inundações são apenas alguns exemplos de eventos climáticos que se tornam cada vez mais frequentes no cotidiano da população, obrigada a buscar alternativas para sobreviver em meio a tragédias e catástrofes ambientais.
Diante dessa nova realidade, Jean Carlos Hochsprung Miguel, professor no Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, desenvolve estudos que articulam ciência, tecnologia e sociedade com o novo regime climático. Suas pesquisas serviram de base para o livro Ciência e política no novo regime climático. Em entrevista ao Jornal da Unicamp, Jean Carlos Miguel apresenta sua obra e compartilha reflexões sobre a nova era climática, os riscos do negacionismo climático e científico e os papéis das universidades, da sociedade e dos agentes políticos nesse contexto.
Jornal da Unicamp – Como o livro pode auxiliar cientistas, pesquisadores, políticos e governantes na tomada de decisões perante eventos climáticos extremos?
Jean Carlos Hochsprung Miguel – O livro propõe um recuo crítico em relação à ideia, muitas vezes naturalizada, de que a ciência simplesmente “auxilia” a tomada de decisão. Ele questiona que tipo de relação estabelecemos entre os saberes especializados e a formulação de políticas públicas. A partir de estudos de caso, evidencia-se uma concepção linear entre produção de conhecimento e decisão política, associada a uma cultura tecnocrática no Brasil. Em vez de oferecer respostas prontas, a obra coloca em debate a própria possibilidade de uma política orientada por evidências, defendendo uma abertura reflexiva tanto na produção do conhecimento quanto nas decisões climáticas.
JU – Diante da frequência de eventos extremos, você acredita que o negacionismo climático está sendo superado?
Jean Carlos Hochsprung Miguel – O negacionismo climático não pode ser entendido apenas como a negação da existência das mudanças climáticas. Trata-se de uma rede complexa de discursos e práticas que, sobretudo, negam a urgência de transformações profundas no modo de produção capitalista e no consumo em massa. Paradoxalmente, o aumento dos eventos extremos tem servido como oportunidade para a transferência de recursos públicos para a gestão privatizada dos desastres. Assim, o negacionismo não se manifesta apenas como recusa da realidade climática, mas também como afirmação de uma gestão técnica dos riscos que preserva um modelo de desenvolvimento insustentável.
JU – De que forma o diálogo entre universidade e sociedade pode combater o negacionismo e a visão tecnocrática da ciência?
Jean Carlos Hochsprung Miguel – Quanto maior o envolvimento da universidade com os problemas vividos por populações vulneráveis, maior é a legitimidade social da produção acadêmica. A tecnocracia hierarquiza saberes e reduz a comunicação com a sociedade à simples oferta de conhecimento especializado, ignorando como os problemas são efetivamente vivenciados. Essa distância contribui para o fortalecimento do negacionismo. A universidade pública, por sua vez, tem a responsabilidade não apenas de produzir conhecimento, mas também de refletir sobre seus sentidos e implicações. Por isso, o diálogo com a sociedade deve ser o ponto de partida, e não o ponto final, da produção do conhecimento.
JU – Diante da ascensão de práticas anticiência, quais medidas são urgentes para frear as alterações drásticas no clima?
Jean Carlos Hochsprung Miguel – Reduzir o problema à descarbonização da economia ou à desinformação é insuficiente. Estamos diante de uma crise marcada por uma forte interconectividade entre dimensões ambientais, sociais, econômicas e políticas, o que exige ações sistêmicas. Apostar exclusivamente no planejamento tecnocrático do Estado e no progresso técnico ignora os limites desse modelo. A transição ecológica não pode ser conduzida apenas de cima para baixo. É fundamental reconhecer a inteligência coletiva e os modos de vida locais como elementos centrais da transformação, incorporando seus pontos de vista às decisões do Estado e da ciência.
JU – Como pesquisadores e estudiosos podem tornar a ciência mais acessível e inclusiva para um público mais amplo?
Jean Carlos Hochsprung Miguel – A própria ideia de “popularização da ciência” é problemática, pois sugere que a ciência deve apenas esclarecer uma população supostamente desprovida de saberes. As pessoas já possuem conhecimentos construídos ao longo de suas trajetórias de vida. O que se busca na universidade pública não é apenas o acesso à informação, mas a uma nova condição de vida que inclui o conhecimento. Diante da crise climática, o desafio não é apenas levar a ciência à sociedade, mas permitir que a ciência encontre seu lugar onde a sociedade mais precisa.


Título: Ciência e política no novo regime climático
Autor: Jean Carlos Hochsprung Miguel
ISBN: 9788526817173
Edição: 1ª
Ano: 2025
Páginas: 280
Dimensões: 16 cm x 23 cm

