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Português de São Tomé e Príncipe desafia hierarquias linguísticas

Livro de docente do IEL reflete sobre mecanismos de dominação por meio do idioma

A imagem mostra duas pessoas ao ar livre segurando uma bandeira grande com as cores verde, amarelo e vermelho e duas estrelas pretas. Elas usam roupas semelhantes a uniformes de escoteiros, com lenços no pescoço. Ao lado, há um homem com uniforme militar e capacete, e outras pessoas e cadeiras ao fundo, sugerindo um evento ou cerimônia em um espaço aberto.
Jovens celebram o 3 de fevereiro, chamado “Dia dos Mártires” em São Tomé e Príncipe; legitimação da variante santomense do português contribui com o reconhecimento da história do país

A forma como uma língua soa pode revelar muito mais do que diferenças regionais ou sotaques. Ela é capaz de narrar histórias de dominação, deslocamento forçado, resistência e escolhas políticas. Essa é a perspectiva que orienta o livro Portuguese Phonology in Context: Comparing São Tomé and Príncipe, Brazilian, and European Varieties [Fonologia portuguesa em contexto: comparando as variantes de São Tomé e Príncipe, brasileira e europeia], da professora do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp Amanda Macedo Balduino.

Publicado no final de 2025 pela editora alemã De Gruyter e ainda sem previsão de lançamento em português, o livro é o resultado de mais de uma década de pesquisas sobre a organização sonora do português falado em São Tomé e Príncipe — variedade ainda pouco descrita na literatura acadêmica, apesar de ser hoje a língua materna da maior parte da população do arquipélago africano. Mais do que um estudo técnico sobre os sons, o trabalho questiona como as línguas se transformam quando atravessam contextos extremos de contato, desigualdade e poder e o que essas transformações revelam sobre a própria história social dos povos que as falam.

“Conheci São Tomé e Príncipe através das línguas crioulas [línguas que se desenvolveram em domínios coloniais europeus como resultado do contato entre grupos falantes de idiomas diferentes], não foi nem pelo português”, conta Balduino, que ainda na graduação comparou três delas: o forro, o angolar e o lung’ie. No mestrado, ela voltou seu olhar para o português santomense e, no doutorado, percebeu que precisava dar um passo atrás: antes de estudar fenômenos sonoros específicos, era preciso mapear como os sons dessa variedade se organizam, se combinam em sílabas e distribuem os acento gráficos. “Como é que eu vou olhar para isso se eu não sei como esses sons estão organizados?”, questionou-se. A resposta se transformou no livro, fruto de sua tese e expandido posteriormente durante sua pesquisa de pós-doutorado e experiência docente.

A imagem mostra uma mulher sorrindo em um ambiente externo, possivelmente um pátio ou jardim, com árvores e construções ao fundo. Ela usa óculos e uma blusa sem mangas de cor marrom, e segura um livro vermelho aberto nas mãos, aparentando estar lendo ou estudando.
A professora Amanda Balduino: interesse pelas características do idioma surgiu ainda na graduação
A imagem mostra uma mulher sorrindo em um ambiente externo, possivelmente um pátio ou jardim, com árvores e construções ao fundo. Ela usa óculos e uma blusa sem mangas de cor marrom, e segura um livro vermelho aberto nas mãos, aparentando estar lendo ou estudando.
A professora Amanda Balduino: interesse pelas características do idioma surgiu ainda na graduação

Língua e prestígio

Diferentemente do Brasil, São Tomé e Príncipe era desabitado quando os portugueses chegaram à região do golfo da Guiné, no final do século 15. As ilhas rapidamente se tornaram um ponto estratégico do império colonial português, funcionando como entreposto central do tráfico de africanos escravizados — inclusive para o território brasileiro — antes de se consolidarem como espaço de produção agrícola, primeiro com a cana-de-açúcar e, mais tarde, com o café e o cacau.

Esse processo, segundo descreve a docente, criou uma configuração demográfica bastante particular: um número ínfimo de colonizadores europeus, que nunca ultrapassou 2,5% da população, convivendo com uma maioria esmagadora de africanos sequestrados de diferentes regiões, falantes de dezenas de línguas distintas. Nesse cenário, o português era a língua do poder, da administração e da violência colonial, mas não do cotidiano.

A grande inflexão, conta a pesquisadora, ocorreu no século 20, especialmente após a independência do país, em 1975. A nova elite santomense, formada em grande parte por portugueses, escolheu o português como língua oficial. O argumento público era o da neutralidade: adotar um idioma que não favorecesse nenhum dos grupos étnicos associados às línguas crioulas locais. Os efeitos da decisão foram profundos na sociedade: o português, que já era associado ao prestígio social, tornou-se a língua da escolarização, da administração pública e do acesso à cidadania. Isso fez com que pais cuja primeira língua era crioula começassem a falar com seus filhos em português — um idioma aprendido como segunda língua, em contextos formais, mas fortemente influenciado pelas estruturas das línguas locais.

Esse processo acelerou o abandono das línguas crioulas e levou ao que a sociolinguística denomina de glotocídio: a substituição progressiva de línguas minoritárias por uma língua dominante, impulsionada por fatores políticos e sociais. Hoje, embora São Tomé e Príncipe seja oficialmente multilíngue, o português é a língua materna da maioria da população jovem, enquanto as línguas crioulas enfrentam forte declínio intergeracional.

Ciência do português

Balduino defende que o português santomense não é uma “variante com sotaque”, mas um sistema reorganizado internamente a partir de outro contexto de transmissão. Um dos exemplos mais emblemáticos está nos sons da letra R, chamados de róticos. Enquanto no português brasileiro e europeu existe distinção entre “caro” e “carro”, essa oposição não existe no português santomense. Ambas são pronunciadas da mesma forma, e o significado é recuperado pelo contexto. “Isso não gera confusão [para os falantes], porque o contexto resolve. O sistema é coerente dentro da lógica daquela variedade”, explica.

O livro descreve ainda uma série de outros fenômenos sonoros, como a supressão de sílabas em palavras longas, a simplificação de sons considerados complexos em outras variedades do português, como “nh” e “lh”, mudanças na estrutura das vogais e reorganizações nas sílabas e nos acentos. Cada um desses aspectos é analisado com rigor, combinando trabalho de campo no país, gravações, medições laboratoriais com softwares específicos e comparações sistemáticas com o português brasileiro e o europeu.

Outro fenômeno que ilustra a regularidade dessas transformações é a redução silábica em palavras proparoxítonas. Termos como “abóbora”, “cérebro” e “fósforo” são, sistematicamente, reduzidos para “abóbra”, “cébro” e “fófo” através de um processo de síncope, que ocorre quando há supressão de fonemas no interior das palavras. Ao longo da obra, a ideia central é que essas transformações não são aleatórias, nem desvios de uma norma idealizada. Elas seguem padrões, regras e restrições internas, como qualquer sistema linguístico plenamente constituído.

Reconhecer um povo

Descrever a fonologia do português de São Tomé e Príncipe é, ao mesmo tempo, reconhecer sua legitimidade como variedade linguística. Historicamente, variedades faladas fora dos centros europeus foram tratadas como erradas ou imperfeitas. Ao se debruçar sobre essa variedade, o livro contribui para desmontar hierarquias linguísticas e epistemológicas.

Para leitores brasileiros, a obra funciona também como um espelho. O português falado no Brasil, assim como o de São Tomé e Príncipe, nasceu do contato entre línguas, da violência colonial e de profundas desigualdades sociais. Compreender outras variedades do português ajuda a relativizar a ideia de uma norma única e a reconhecer que toda língua carrega marcas de sua história. “Descrever uma fonologia é afirmar que aquela língua tem estrutura, história e valor científico”, afirma a pesquisadora.

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