
Economia circular oferece saída para colapso ambiental
Software auxilia empresas a fazerem transição de modelo e na gestão de resíduos e recursos

Os impactos climáticos e econômicos causados pelos resíduos industriais e urbanos em todo o mundo são alarmantes. Em 2023, a humanidade gerou 2,3 bilhões de toneladas de lixo urbano, de acordo com dados do Global Waste Management Outlook 2024, relatório elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Se nada mudar na economia mundial e em suas formas de produção e consumo, a projeção é de que até 2050 o volume de lixo aumente 65% e chegue a 3,8 bilhões de toneladas anuais. “Seria o colapso”, afirma o engenheiro mecânico Christian Chiarot, que encarou esse desafio global de mitigação de riscos e desenvolveu um método que avalia a viabilidade econômica de empresas se enquadrarem na economia circular, processo pelo qual os resíduos são reinseridos nos ciclos de produção.
O software que resultou de sua tese, defendida na Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) da Unicamp, está em análise para registro de patente pela Agência de Inovação da Unicamp (Inova). De acordo com Chiarot, o método pode ser aplicado com o uso do software que permite medir o nível de circularidade das operações e serve de auxílio na tomada de decisão e análise de cenários, porque transforma a necessidade ambiental em uma realidade prática com potencial de rentabilidade para a indústria. Isso facilita a transição do sistema econômico linear – hoje insustentável na escala global – para a economia circular.
Com experiência de quase 30 anos na indústria automotiva, ambiente no qual as metas são voltadas para a redução de custos, o engenheiro fez a relação entre a substituição da economia linear e o propósito de abundância da economia circular. “O que me chamou a atenção na economia circular é que ela muda completamente a lógica do foco apenas no corte de custos. Em vez disso, ela propõe uma lógica da abundância. Quando pensamos em reduzir a poluição, por exemplo, também precisamos pensar em como criar ar puro”, avalia o pesquisador.
Transição circular
“As empresas precisam definir, do ponto de vista estratégico, como elas vão iniciar essa jornada, então precisam de uma ferramenta prática”, destaca o professor Robert Eduardo Cooper Ordóñez, orientador da pesquisa, também com longa experiência na indústria. Há 11 anos ele deu início na Unicamp aos estudos sobre gestão do ciclo de vida do produto, tema de disciplina ministrada por ele na FEM. Na trilha dos desafios da sustentabilidade, ele chegou à economia circular, hoje aplicada no Laboratório de Projetos de Sistemas de Produção, que desenvolve ferramentas que contribuem para essa transição.
O método e o software criados por Chiarot em sua tese podem ser aplicados em empresas de diferentes setores da economia, da indústria automotiva à área da saúde. Os estudos de caso foram realizados em empresas de autopeças, do agronegócio, da siderurgia e da saúde.
“Toda empresa depende de lucratividade. Para fazer a transição do modelo linear para o circular, é fundamental saber se isso é economicamente viável. Por isso, incorporamos a análise de viabilidade ao método”, explica o engenheiro. “Na prática, a preocupação com poluição e resíduos ainda está muito associada ao cumprimento da legislação. A empresa age para evitar multas, não necessariamente por iniciativa própria. Isso é ainda mais evidente em micro, pequenas e médias empresas, onde qualquer ação que represente custo tende a encontrar mais resistência.”

Aplicável em empresas de todos os portes, o método apresenta indicadores de desempenho da produção a partir de cinco etapas: definição de fluxos e produtos, coleta de dados, análise e validação, verificação da viabilidade econômica, e implementação ou redesenho. A implementação abrange toda a cadeia e tem o objetivo de mostrar como os materiais podem ser restaurados de forma circular, seja por compartilhamento, reutilização, remanufatura ou reciclagem, voltando para a cadeia de suprimentos.
“O software mostra indicadores sobre o nível de circularidade dos materiais, sejam eles renováveis, não renováveis ou recicláveis, e mostra o nível de reaproveitamento de cada um deles com foco na melhoria e sustentabilidade da cadeia de suprimentos e na necessidade do redesign circular de produtos”, explica Chiarot, que utilizou a metodologia Design Science Research (DSR). A ferramenta desenvolvida apresenta os resultados dos indicadores e da viabilidade econômica de forma visual, rápida e intuitiva.
Medidas contra o colapso
O modelo econômico linear, adotado desde a Primeira Revolução Industrial, funciona em três etapas: extração, produção e descarte, em que os extremos (extração e descarte) têm escassez de insumos e acúmulo de resíduos, respectivamente. O que não é reutilizado passa a ser lixo e polui o meio ambiente. Em todo o mundo, por exemplo, o nível de reciclagem do plástico ainda é muito baixo, da ordem de 9%, afirma Chiarot. “O modelo linear consome cada vez mais e faz mais descarte. Naturalmente, isso nos leva ao colapso”, acrescenta.
Já a ideia de economia circular teve início na década de 1960, mas o termo surgiu em um artigo de pesquisadores ingleses apenas em 2009. O marco foi a criação da Fundação Ellen MacArthur, na Inglaterra, que passou a pautar a economia circular a partir de parcerias com várias empresas de diferentes segmentos, entre eles importantes atores do cenário mundial, como Renault, Google e Cisco. Esse modelo tem o propósito de restaurar o material, devolvendo-o para a cadeia e criando um ciclo virtuoso, onde os produtos de hoje podem ser os recursos de amanhã. Segundo Chiarot, toda a pesquisa foi norteada pelos preceitos da economia circular e pelo tripé da sustentabilidade: economia, ambiente e sociedade.
O método proposto pelo pesquisador alinha-se ao conjunto de critérios ESG (sigla em inglês para “meio ambiente, sociedade e governança corporativa”), usados para avaliar o desempenho de uma empresa para além do lucro. A aplicação do software também foi elaborada para contribuir com o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), nos quesitos taxas de retorno de materiais e diminuição de resíduos, ganhos de eficiência material e inovação em processos, e redução de emissões associadas à produção de materiais.
O software também está muito alinhado ao Plano Nacional de Economia Circular (PNEC), lançado no Brasil em 2025 pelo governo federal. “O plano vai ajudar a difundir cada vez mais a economia circular. Com isso, temos uma grande oportunidade de divulgar a ferramenta, especialmente para pequenas empresas, porque não adianta fazer a mudança em pequena escala – tem que ser algo mais abrangente”, defende o pesquisador.
