

Um corpo que cai e denuncia a violência
Artistas plásticos exploraram fragmentação humana no período da ditadura militar

O mesmo corpo cooptado pela violência estatal e pela censura durante a ditadura militar se tornou um espaço físico e simbólico de enfrentamento e denúncia na arte. Com seus gestos e representações produzidos e reproduzidos por artistas e intelectuais, os imaginários corporais carregam narrativas que emergem da dor coletiva. São como testemunhos. Na análise do cientista social Allan André Lourenço, esses imaginários promoveram uma virada na história das artes plásticas brasileiras, especialmente nas obras que revelam uma chamada “estética da queda”, expressão da fragilidade do corpo marcado pela dor, pela violência ou pela morte.
“Em resposta ao terror de Estado, os artistas reconfiguraram o corpo, convertendo-o em um lugar de experimentação e resistência”, diz Lourenço sobre sua tese defendida no Instituto de Artes (IA) da Unicamp. De acordo com a pesquisa, antes da ditadura civil-militar (1964-85), a produção nas artes visuais no Brasil era essencialmente abstrata, sem ligação imediata com a realidade.
A pesquisa analisa sob uma abordagem antropológica cerca de 30 obras de artistas diversos e qualifica a produção artística por suas dimensões subjetiva, a partir de referenciais psicológicos e psicanalíticos, e objetiva, com bases sociológicas e historiográficas. Simbolicamente, o corpo torna-se um espaço de enfrentamento, onde se delineiam os limites entre o individual e o social. “A partir da ditadura, percebemos que há uma mudança muito grande na forma de se produzir e pensar a arte”, explica. “Dentro desse contexto de retomada da figuração e da preocupação com a realidade, há um conjunto de artistas que começou a utilizar o corpo de infinitas maneiras e a lidar diretamente com a construção de um imaginário corporal.”
O pesquisador destaca o trabalho de Hélio Oiticica e seus Parangolés — série de capas, faixas e bandeiras a serem vestidas por pessoas, confeccionadas com tecidos e plásticos e que, por vezes, continham frases políticas ou poéticas —, entre eles a obra Incorporo a Revolta, de 1967, vestida por Nildo da Mangueira. “Foi a partir dessa obra e do texto de Oiticica sobre ela que lancei essa hipótese e desenvolvi toda a tese. É uma obra feita nos anos iniciais da ditadura. No texto, Oiticica diz que esse tipo de trabalho se opõe a todo o esquema metafísico estabelecido e que a função da arte, ou da ‘antiarte’, como ele chama, é a construção de espaços intercorporais. De alguma forma, Hélio Oiticica antecipa muita coisa que aconteceria dali a alguns anos.” Outro exemplo de trabalho artístico que dialoga com a materialidade corporal é o de Artur Barrio, com obras ligadas ao sangue, excrementos e partes do corpo humano.

Queda e resistência
Em seu levantamento de obras produzidas no período da ditadura, que não se propõe a ser um inventário descritivo do período, Lourenço incluiu os artistas Cildo Meireles, Antonio Manuel, Lygia Clark, Rubens Gerchman, Antonio Dias, Hudinilson Júnior, Antonio Henrique Amaral e Anna Maria Maiolino, entre outros, além de Oiticica e Barrio. O estudo se baseia nas ideias de pensadores como Walter Benjamin, Georges Bataille e Julia Kristeva. “São conceitos que ‘pensam’ em um corpo que não é aquele do homem vitruviano, de Leonardo da Vinci, mas é um corpo que está próximo da morte, que apodrece, que se fragmenta de alguma forma, ou ainda um corpo que não tem forma.”
A proposta da pesquisa, segundo o autor, é mostrar como os símbolos que compõem as imagens das obras constituem uma estética de queda que está ligada à ideia de resistência cultural. “Direta ou indiretamente, os imaginários corporais se opõem ideologicamente à ideia da ditadura militar de que as contradições foram superadas e de que a ordem e o progresso vão unificar o Brasil.” Os imaginários confrontam a própria doutrina de segurança nacional que identifica como não-brasileiros aqueles que não compactuam com o regime. “Esse outro é um inimigo que, pela própria lógica do autoritarismo, precisa ser exterminado.”

Para o orientador da tese, o professor Mauricius Martins Farina, o trabalho também apresenta uma percepção filosófica importante. “Eu destaco essa perspectiva transdisciplinar, porque acredito que a busca pelo conhecimento é, em si, transdisciplinar. O artista é, basicamente, esse sujeito que não se limita a um pequeno conhecimento específico”, avalia. Para ele, o trabalho contribui para uma visão ampliada da historiografia da arte brasileira do ponto de vista metodológico. “O que define a arte não é só a forma, mas também sua poética. Ele [Lourenço] lidou com uma poética da dor e a ideia de ruína.”

A pesquisa também faz o cruzamento das formulações teóricas dos próprios artistas e intelectuais do campo das artes visuais. Segundo Lourenço, foi um desafio fazer um trabalho que não fosse centrado em um único artista, para mostrar que a construção de imaginários corporais na arte brasileira não é característica de um artista ou de um período, mas sim um fenômeno. “O autoritarismo confere às obras uma representação traumática da figura humana, marcada pelo colapso da democracia, das liberdades individuais e da integridade corporal. A experiência da ditadura atravessa a obra em sua materialidade. Você nota a fragmentação da figura humana, e isso acontece de diversas maneiras em diversos artistas.”
IMANENTE E TRANSGRESSOR
O pesquisador propõe a noção de uma “virada corporal” na arte, por avaliar que uma nova estética do corpo nas artes emergiu “como uma compulsão pelo não-dito, que opera no subterrâneo de toda legibilidade das imagens reunidas”. Ele entende que as experiências que escaparam aos registros oficiais e foram silenciadas tornaram-se visíveis nas obras através desses imaginários. Em sua tese, o cientista social afirma que a figuração e a materialidade do corpo produzem sentidos, particularmente éticos e políticos, e adquirem um caráter transgressor.
Essa ideia de queda está ligada a uma visão imanente de mundo que se opõe à concepção transcendente e idealista da forma de entender o corpo humano e a própria realidade. “O corpo é esse espaço de afirmação de uma certa imanência, que se dá em dois sentidos, tanto por uma perspectiva de ruína, como também numa certa afirmação de vitalidade da vida”, elabora Lourenço. “Enquanto houver violência, o corpo continuará sendo utilizado nesse campo de resistência, e a arte continuará lidando com estas questões relacionadas à dor.”
