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A imagem mostra Caetano Veloso com o Parangolé P4 Capa 1 (1964), obra de Hélio Oiticica. Caetano aparece de perfil, vestindo a estrutura de tecido vermelho que se assemelha a uma capa volumosa contra um fundo azul claro.
Caetano Veloso com Parangolé P4 Capa 1 (1964)
A imagem mostra Caetano Veloso com o Parangolé P4 Capa 1 (1964), obra de Hélio Oiticica. Caetano aparece de perfil, vestindo a estrutura de tecido vermelho que se assemelha a uma capa volumosa contra um fundo azul claro.
Caetano Veloso com Parangolé P4 Capa 1 (1964)

O mesmo corpo cooptado pela violência estatal e pela censura durante a ditadura militar se tornou um espaço físico e simbólico de enfrentamento e denúncia na arte. Com seus gestos e representações produzidos e reproduzidos por artistas e intelectuais, os imaginários corporais carregam narrativas que emergem da dor coletiva. São como testemunhos. Na análise do cientista social Allan André Lourenço, esses imaginários promoveram uma virada na história das artes plásticas brasileiras, especialmente nas obras que revelam uma chamada “estética da queda”, expressão da fragilidade do corpo marcado pela dor, pela violência ou pela morte.

“Em resposta ao terror de Estado, os artistas reconfiguraram o corpo, convertendo-o em um lugar de experimentação e resistência”, diz Lourenço sobre sua tese defendida no Instituto de Artes (IA) da Unicamp. De acordo com a pesquisa, antes da ditadura civil-militar (1964-85), a produção nas artes visuais no Brasil era essencialmente abstrata, sem ligação imediata com a realidade.

A pesquisa analisa sob uma abordagem antropológica cerca de 30 obras de artistas diversos e qualifica a produção artística por suas dimensões subjetiva, a partir de referenciais psicológicos e psicanalíticos, e objetiva, com bases sociológicas e historiográficas. Simbolicamente, o corpo torna-se um espaço de enfrentamento, onde se delineiam os limites entre o individual e o social. “A partir da ditadura, percebemos que há uma mudança muito grande na forma de se produzir e pensar a arte”, explica. “Dentro desse contexto de retomada da figuração e da preocupação com a realidade, há um conjunto de artistas que começou a utilizar o corpo de infinitas maneiras e a lidar diretamente com a construção de um imaginário corporal.”

O pesquisador destaca o trabalho de Hélio Oiticica e seus Parangolés — série de capas, faixas e bandeiras a serem vestidas por pessoas, confeccionadas com tecidos e plásticos e que, por vezes, continham frases políticas ou poéticas —, entre eles a obra Incorporo a Revolta, de 1967, vestida por Nildo da Mangueira. “Foi a partir dessa obra e do texto de Oiticica sobre ela que lancei essa hipótese e desenvolvi toda a tese. É uma obra feita nos anos iniciais da ditadura. No texto, Oiticica diz que esse tipo de trabalho se opõe a todo o esquema metafísico estabelecido e que a função da arte, ou da ‘antiarte’, como ele chama, é a construção de espaços intercorporais. De alguma forma, Hélio Oiticica antecipa muita coisa que aconteceria dali a alguns anos.” Outro exemplo de trabalho artístico que dialoga com a materialidade corporal é o de Artur Barrio, com obras ligadas ao sangue, excrementos e partes do corpo humano.

Dois homens sentados lado a lado à frente de uma mesa clara. O homem à esquerda é mais velho, usa óculos de grau e uma camisa social branca de mangas curtas, gesticulando com as mãos enquanto fala. O homem à direita é mais jovem, tem barba e cabelos curtos e escuros, e veste uma camisa branca de botões, mantendo as mãos sobre a mesa. Sobre a mesa, veem-se dois smartphones. Ao fundo, uma parede clara e parte de uma tela escura.
O professor Mauricius Farina e Allan Lourenço, autor da pesquisa: arte explora a materialidade corporal na representação dos traumas do autoritarismo

Queda e resistência

Em seu levantamento de obras produzidas no período da ditadura, que não se propõe a ser um inventário descritivo do período, Lourenço incluiu os artistas Cildo Meireles, Antonio Manuel, Lygia Clark, Rubens Gerchman, Antonio Dias, Hudinilson Júnior, Antonio Henrique Amaral e Anna Maria Maiolino, entre outros, além de Oiticica e Barrio. O estudo se baseia nas ideias de pensadores como Walter Benjamin, Georges Bataille e Julia Kristeva. “São conceitos que ‘pensam’ em um corpo que não é aquele do homem vitruviano, de Leonardo da Vinci, mas é um corpo que está próximo da morte, que apodrece, que se fragmenta de alguma forma, ou ainda um corpo que não tem forma.”

A proposta da pesquisa, segundo o autor, é mostrar como os símbolos que compõem as imagens das obras constituem uma estética de queda que está ligada à ideia de resistência cultural. “Direta ou indiretamente, os imaginários corporais se opõem ideologicamente à ideia da ditadura militar de que as contradições foram superadas e de que a ordem e o progresso vão unificar o Brasil.” Os imaginários confrontam a própria doutrina de segurança nacional que identifica como não-brasileiros aqueles que não compactuam com o regime. “Esse outro é um inimigo que, pela própria lógica do autoritarismo, precisa ser exterminado.”

Um homem negro caminha carregando estruturas de palha e estopa sobre os ombros. À frente, ele segura um painel de tecido vermelho com a frase "incorporo a revolta" escrita em letras pretas. O fundo é azul claro e o chão é de paralelepípedos.
Nildo com Parangolé P15 Capa 11“Incorporo a Revolta” (1967), ambas de Hélio Oiticica: obras inovaram na utilização do corpo e na construção de imaginários corporais

Para o orientador da tese, o professor Mauricius Martins Farina, o trabalho também apresenta uma percepção filosófica importante. “Eu destaco essa perspectiva transdisciplinar, porque acredito que a busca pelo conhecimento é, em si, transdisciplinar. O artista é, basicamente, esse sujeito que não se limita a um pequeno conhecimento específico”, avalia. Para ele, o trabalho contribui para uma visão ampliada da historiografia da arte brasileira do ponto de vista metodológico. “O que define a arte não é só a forma, mas também sua poética. Ele [Lourenço] lidou com uma poética da dor e a ideia de ruína.”

Um homem negro caminha carregando estruturas de palha e estopa sobre os ombros. À frente, ele segura um painel de tecido vermelho com a frase "incorporo a revolta" escrita em letras pretas. O fundo é azul claro e o chão é de paralelepípedos.
Nildo com Parangolé P15 Capa 11 – “Incorporo a Revolta” (1967), ambas de Hélio Oiticica: obras inovaram na utilização do corpo e na construção de imaginários corporais

A pesquisa também faz o cruzamento das formulações teóricas dos próprios artistas e intelectuais do campo das artes visuais. Segundo Lourenço, foi um desafio fazer um trabalho que não fosse centrado em um único artista, para mostrar que a construção de imaginários corporais na arte brasileira não é característica de um artista ou de um período, mas sim um fenômeno. “O autoritarismo confere às obras uma representação traumática da figura humana, marcada pelo colapso da democracia, das liberdades individuais e da integridade corporal. A experiência da ditadura atravessa a obra em sua materialidade. Você nota a fragmentação da figura humana, e isso acontece de diversas maneiras em diversos artistas.”

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