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Acervos moldaram as Humanidades na Unicamp

Coleções estruturaram pesquisas e contribuíram para defesa da democracia

Acervo do CMU (Foto 1): em foco mão com luva branca manipulando item do acervo de documentos antigos.
Acervos do Cedae (1 e 2), CMU (3) e AEL (4 e 5): pioneirismo da Unicamp contribuiu com abertura democrática e busca por reconhecimento e reparação

Para as ciências humanas, os acervos não funcionam apenas como repositórios do passado, e sim como verdadeiros laboratórios intelectuais, nos quais se definem problemas, métodos e objetos de pesquisa. Diferentemente da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que foram formadas a partir da junção de instituições que já existiam, a Unicamp foi projetada do zero e, portanto, precisou constituir seus próprios arquivos e bibliotecas. Elemento estratégico para a consolidação de sua área de Humanidades, esse processo foi investigado pelo historiador Luccas Eduardo Maldonado em doutorado defendido no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).

A tese “Arquivos em disputa: memória, acervos privados e a constituição das humanidades na Unicamp” reúne os achados de uma pesquisa que se dedicou a analisar as relações entre a incorporação de acervos privados e a estruturação das ciências humanas na Universidade. O trabalho contempla, ainda, o desenvolvimento de uma política arquivística na instituição, conectada com o surgimento, fora dela, de um movimento de militância pela preservação da memória que tomou forma com o enfraquecimento da ditadura civil-militar (1964-1985). “É uma história da Unicamp por meio dos arquivos. Há uma conexão forte entre a sua fundação, enquanto projeto, e a escolha dos acervos que passaram a compô-la”, define o autor. “Também é uma história da importância dos arquivos para a democracia.”

Seu interesse pelo tema surgiu de uma conversa com Thiago Nicodemo, que se divide entre a docência no Departamento de História do IFCH e a direção do Arquivo Público do Estado de São Paulo (Apesp) — além de ter sido responsável pela orientação da pesquisa. “Essa meta-história dos acervos, isto é, a história de como essas coleções foram escolhidas, chegaram aqui e foram conservadas, precisava ser pesquisada, pois é uma chave para enxergar a história da Universidade”, justifica o docente. “O que aconteceu foi a estruturação do campo de Humanidades, e os acervos geraram condições para os estudos que vieram posteriormente. Ajudaram a direcionar o que a Universidade pesquisaria nas ciências humanas.”

Dois homens sentados à mesa em uma sala de aula. O da esquerda usa óculos e camisa branca, sorrindo. O da direita usa camiseta preta e olha para o colega. Sobre a mesa há papéis e um copo azul. Ao fundo, uma parede clara e uma tela de projeção.
O historiador Luccas Maldonado e o professor Thiago Nicodemo: pesquisas sobre a formação dos acervos contam a história da Universidade
Dois homens sentados à mesa em uma sala de aula. O da esquerda usa óculos e camisa branca, sorrindo. O da direita usa camiseta preta e olha para o colega. Sobre a mesa há papéis e um copo azul. Ao fundo, uma parede clara e uma tela de projeção.
O historiador Luccas Maldonado e o professor Thiago Nicodemo: pesquisas sobre a formação dos acervos contam a história da Universidade

A pesquisa contou com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Maldonado analisou processos institucionais e reconstruiu a história de dezenas de acervos arquivísticos e bibliográficos. Conversou com pessoas envolvidas na compra e venda das coleções privadas, herdeiros de espólios, funcionários dos equipamentos, pesquisadores e professores — tanto os que se engajaram na aquisição dos materiais como aqueles cujas produções acadêmicas foram impactadas pelas coleções.

Seus relatos forneceram detalhes que o ajudaram a compreender o contexto político, social e acadêmico do momento das aquisições. “A tese é resultado de um diálogo intenso com vários servidores e, claro, também com muitos professores — com destaque para os mais antigos, uma geração que hoje tem 70, 80 anos, e que foi muito generosa comigo”, observa, citando os professores Michael Hall, do Departamento de História do IFCH, e Paulo Sérgio Pinheiro, do Departamento de Ciência Política do mesmo instituto. “Eles estavam entre os responsáveis pela seleção das coleções adquiridas e me ajudaram com o acesso à documentação.”

A investigação se deteve no primeiro equipamento do gênero fundado na Unicamp, a partir da aquisição do arquivo do jornalista Edgard Leuenroth, dedicado ao surgimento dos movimentos anarquista e operário no país — que deu origem ao Arquivo Edgard Leuenroth (AEL). Compreendeu, ainda, o Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio (Cedae), que abriga o espólio de Oswald de Andrade, entre outras coleções, e incluiu também o Sistema de Arquivos da Unicamp (Siarq) e o Sistema de Bibliotecas da Unicamp (SBU), responsáveis pela organização e gestão de acervos arquivísticos e bibliográficos da instituição.

Para avaliar se os cursos de humanidades da Unicamp e sua produção científica teriam sido impactados pelo conteúdo de seus arquivos, o pesquisador combinou visitas aos locais e entrevistas com professores e pesquisadores. Ao final, não teve dúvidas: a conexão entre as duas pontas era clara. “O acervo de Oswald de Andrade se tornou pauta de pesquisa imediatamente após se tornar público. Duas das três biografias a seu respeito são baseadas no material do Cedae.” A biografia de Andrade escrita por Lira Neto, baseada no acervo mantido pela Unicamp, foi tema de reportagem na edição 708 do Jornal da Unicamp. “O caso mais eloquente, contudo, é o do AEL e do Centro de Memória da Unicamp (CMU), que, por meio da incorporação de numerosos acervos, balizaram a produção de uma ampla bibliografia sobre a história do movimento operário e da escravidão no Brasil”, avalia.

Arquivo e memória

Ao levantar as negociações feitas em meados dos anos 1970 e no início da década seguinte, Maldonado se deparou com um grupo de docentes-ativistas que participou da escolha e das discussões para garantir que acervos virtualmente ameaçados não fossem perdidos. “Com a abertura democrática e rescaldo da ditadura nas décadas de 1970 e 1980, redes de pessoas passaram a atuar de forma crescente na militância pelos direitos humanos, em busca de reconhecimento e reparação. Isso incluía a luta por uma memória justa e pela possibilidade de reparação no futuro, o que só ocorreria se as provas dos abusos e crimes fossem guardadas e organizadas. Daí a importância da institucionalização de arquivos e da salvaguarda de documentos e coleções”, esclarece Nicodemo.

Com o afrouxamento do regime de exceção, o país se estruturou para garantir a possibilidade de construir defesas mais amparadas em documentação para justificar ou refutar investigações, transformando, portanto, os acervos em peças centrais para a manutenção da democracia. Nesse cenário, garantir a posse de acervos delicados, seja por sua origem, seja pela natureza de seu conteúdo, tornou-se uma prioridade para a Unicamp, afirma o diretor do Apesp. “Estruturar um sistema de arquivos é um fundamento da democracia, porque é guardar a memória e permite acessar documentos organizados.”

Ao analisar a evolução da prática arquivística instituída pela Unicamp, Maldonado reconhece a participação ativa da instituição no restabelecimento da democracia, revelando, conforme indica Nicodemo, o pioneirismo da Universidade em diversos aspectos. “Como na criação de um centro de documentação voltado para as classes mais baixas, pensando, por exemplo, em receber a documentação dos movimentos anarquistas, do movimento operário. Assim, foi criada a possibilidade de uma história vista por baixo, de uma história dos movimentos populares, dos movimentos sociais.”

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