A constituição de um campo de conhecimento
Como a história da arte deixou o status de disciplina auxiliar e ganhou um lugar legítimo na universidade brasileira

Por que o conhecimento sobre os artistas brasileiros é tão restrito aos consagrados modernistas paulistas? Ao questionar o professor emérito de História da Unicamp Jorge Sidney Coli Júnior, a resposta foi assertiva: “Porque o campo da história da arte no Brasil é muito recente”. Em 1989, Coli e os colegas Nelson Alfredo Aguilar e Luiz Cesar Marques Filho foram responsáveis pela criação do primeiro programa de pós-graduação em História da Arte no país, na Unicamp. Desde então, a formação de centenas de historiadores com esse perfil contribuiu para aprofundar o entendimento das variadas formas de expressão cultural, brasileiras e internacionais, ao longo do tempo.
O professor respondia a uma questão sobre a tese defendida por um orientando seu, João Brancato. Na pesquisa, Brancato analisou a trajetória de Helios Seelinger, artista esquecido pela história durante décadas (leia na página 8). O apagamento desse e de outros nomes, para Coli, decorre em boa parte do caráter secundário que a própria arte tem no país, o que foi evidenciado no projeto de universidade levado a cabo no Brasil.
“Quando foi criada a USP [Universidade de São Paulo], fizeram vir uma série de grandes professores de fora, da França, da Itália etc., para formar os diferentes departamentos, mas ninguém pensou em criar um de história da arte. O campo já existia no mundo desde o século 19, porém não conheceu nenhum lugar legítimo na universidade brasileira. Funcionava como uma disciplina auxiliar”, lembra Coli, que recebeu o reconhecimento de professor emérito da Unicamp em 2024.
A área deixou oficialmente o status de acessória pouco tempo depois de o historiador ser contratado pela Unicamp, em 1985. O professor vinha de um período na França, onde cursou o doutorado em História da Arte. Em seguida, os professores Luiz Marques e Nelson Aguilar foram contratados com o mesmo fim: formular o primeiro projeto de uma pós-graduação em história da arte. “Foi então que nós começamos a trabalhar na formação de alunos nesse campo”, diz Coli. “Hoje, a história da arte no Brasil é uma disciplina bem estabelecida, com uma formação precisa, com métodos, com uma definição epistemológica, coisa que, antes de 1989, não existia. Nós fomos os primeiros no país a fazer isso”, avalia.
A ideia do programa de pós-graduação, destaca, visava não só a propiciar pesquisas sobre artistas e movimentos artísticos no Brasil, mas também a oferecer uma formação internacional. “Para que nós pudéssemos pensar o universo brasileiro com instrumentos reflexivos mais amplos, era preciso que os alunos tivessem uma formação internacional. Em vez de ficar pensando no nacionalismo restrito, articular os artistas brasileiros com a produção internacional”, explica o docente, citando o trabalho sobre Seelinger como exemplo.


Pioneirismo
A formação dos três professores fundadores da área de pesquisa contribuiu para a amplitude do programa. O professor Luiz Marques foi contratado após Coli. Antes de ingressar na Unicamp, atuou no Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde trabalhou ao lado de seu fundador, Pietro Maria Bardi. “Então, me convidaram para dar aula na Unicamp. Saí do Masp e foi exatamente quando eu conheci Jorge Coli, que vinha de uma trajetória mais sólida na história da arte. Começamos então a trabalhar na montagem de uma pós-graduação em história da arte”, diz.
Depois de Marques, a Unicamp contratou Nelson Aguilar, e assim formou-se um trio de mestres que abrangia diferentes áreas da história da arte. “Foi uma integração instantânea, porque nós três tínhamos o mesmo tipo de preocupação, cada um em seu campo. Luiz sobretudo na arte renascentista e na medieval, Jorge na arte do século 19 e eu na arte contemporânea”, rememora Aguilar.
A iniciativa atraiu alunos do país inteiro, com seleções altamente concorridas. “Havia uma demanda reprimida muito grande, porque não existiam programas de pós-graduação em história da arte. Houve muito sucesso na demanda e havia uma seleção difícil, porque vinham muitos candidatos”, comenta Marques.
Para a consolidação do programa, pondera Aguilar, foram fundamentais as bolsas de estudo, que permitiam dedicação plena dos alunos. O docente lembra que havia uma vontade coletiva de fortalecer o programa e um empenho da comunidade acadêmica com esse fim. “Todos nós estávamos sendo postos à prova”, diz.


O professor exemplifica o esforço coletivo em erguer o campo de história da arte relembrando uma palestra do filósofo francês Henri Maldiney, em que alunos e professores se dedicaram a traduzir a conferência. “Era quase uma audiometria, escutávamos e discutíamos”, brinca. “Depois, quando terminávamos a transcrição, coitado do professor Maldiney! Submetíamos para ele corrigir.”
Jorge Coli lembra que convidou professores de diversas origens para a pós. “Alguns tiveram presença importante na formação de nossos alunos, como Gérard Monnier, Daniela Gallo, Flavio Fergonzi. Muitos mestrandos formados pela Unicamp encontraram orientadores para seus doutorados ou pós-doutorados fora do país graças aos contatos mantidos com diversas universidades.” Outro ponto destacado pelo docente foi a criação da Revista de História da Arte e Arqueologia, hoje Revista de História da Arte e da Cultura, em versão on-line, dirigida pelo historiador.
A pesquisa, para os professores, era complementada pela experimentação, e, portanto, a formação extrapolava o ambiente acadêmico. Luiz Marques retornou ao Masp como curador-chefe entre 1995 e 1997. Nelson Aguilar foi curador de mostras como a 22ª e 23ª Bienais de São Paulo, além da Bienal do Mercosul e da Mostra do Redescobrimento. Para o historiador, a organização das exposições marcou sua trajetória. “Eram um lugar de experimentação, onde se aplicava a pesquisa, uma maneira de tornar real o que era feito na aula, como se fosse uma grande aula coletiva”, resume.
Uma de suas recordações mais marcantes refere-se à 23ª Bienal de São Paulo (1996), onde ele diz ter colocado o artista plástico estadunidense Jean-Michel Basquiat, para dialogar metaforicamente com Mestre Didi, artista plástico pernambucano. Para ele, esse diálogo, por meio das obras de ambos os artistas, ilustra que “a arte não é uma coisa elitista que é feita para caber numa estufa para um público privilegiado. A arte é abertura, é para todos. Possibilita coisas como, em uma bienal, o mestre de Didi, sacerdote que faz os seus objetos litúrgicos, conversando com um grafiteiro.”
Para o docente, a possibilidade de colocar em prática os estudos de história da arte por meio das curadorias contribuiu para erigir um espaço artístico na capital paulista. “São Paulo se tornou uma capital das artes e muito ligada ao que acontecia dentro da Unicamp”, avalia Aguilar.
Outra de suas memórias remete à primeira vez que ofereceu uma disciplina no período noturno. “O curso noturno era uma coisa nova, e era um risco, porque você geralmente dava aula para pessoas que tinham trabalhado durante o dia. Eu fui escalado para dar aula sobre arte contemporânea e pensei que havia um risco de amolar, de ninguém assistir, de ser uma chateação. Bom, foi exatamente o contrário”, recorda o docente, comentando sobre a disputa entre os alunos para participarem da aula.


Na contracorrente
Jorge Coli escreveu dezenas de obras, como Música Final (1998), em que analisa artigos sobre música erudita escritos por Mário de Andrade para o jornal Folha da Manhã, e O corpo da liberdade (2020), em que trata de implicações políticas, sociais e culturais de objetos artísticos. O docente também é tradutor. Para o francês, verteu clássicos da literatura brasileira, como Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos, e Os sertões, de Euclides da Cunha. Da língua francesa ao português, a longa lista de traduções inclui obras de Michel Foucault, Victor Hugo e Molière.
Apesar de intimamente ligado à literatura, o professor é crítico de uma educação estritamente focada em leitura e que pouco engloba a alfabetização em arte. “No ensino secundário não há dúvida de que falta [educação em arte]. A nossa formação é eminentemente literária, e não no sentido de literatura, mas no sentido de ler as coisas”, pondera.
Para Coli, a tradução é uma atividade “como fazer palavras cruzadas”. Já a arte exige o exercício da reflexão. “Na história da arte você precisa justamente avançar aquilo que eu chamei de intuição. Quer dizer, essa dimensão silenciosa, que é a percepção e a inteligência silenciosa da relação entre as coisas.”
Luiz Marques, de forma semelhante ao colega, reflete sobre a limitação do ensino de arte, que em sua avaliação tem raízes na colonização portuguesa. “A contrarreforma em Portugal foi de tal maneira violenta que eles destruíram as imagens”, analisa. Assim, há grandes músicos e literatos no país, porém quase não há pintores de expressão internacional. “Nomes como Pedro Américo, Victor Meirelles e Almeida Júnior são ótimos, mas eles não são comparáveis aos contemporâneos deles na Europa.”
Na contracorrente do menosprezo à arte, o pioneirismo dos professores na fundação de um programa de pós-graduação em história da arte possibilitou a formação de centenas de profissionais. Muitos replicam essa experiência em outras universidades do país.

Com a expansão das universidades federais levadas a cabo a partir de 2002 pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, lembra Marques, alunos que haviam começado a fazer os seus mestrados nos anos 1990 tiveram possibilidades de se posicionar como professores nessas universidades. “Houve uma conjunção de fatores muito favoráveis que fez com que tenhamos hoje muito fortemente, em diversas universidades do Brasil, pessoas que foram formadas pela gente”, analisa.

A formação de tantos historiadores da arte, para Coli, é o que lhe dá mais orgulho. “Eu só posso ficar muito feliz, quando olho retrospectivamente. Formei [como orientador] 40 historiadores da arte neste país. A coisa de que tenho mais orgulho na minha vida são os meus alunos, que sempre me deram uma satisfação muito grande.”
Os três professores já estão aposentados, mas seguem atuando como colaboradores na pós-graduação em História. Nelson Aguilar atualmente supervisiona dois pós-doutorandos. Jorge Coli orienta duas teses e um mestrado.
Luiz Marques, que conta ter sido “inoculado pelo vírus das preocupações ambientais”, dedica-se a estudar a crise socioambiental desde meados dos anos 2000. O professor ganhou um prêmio Jabuti por sua obra Capitalismo e colapso ambiental, de 2015. “Esse é um vírus incurável”, acrescenta Marques, ao explicar a sua ligação com o tema. Porém, ainda que imerso nos estudos e na preocupação com as questões socioambientais, o professor não se desvincula da conexão com a arte.
“Quando você estuda arte, você estuda aquilo que a humanidade deu de melhor, estuda aquilo que pode nos distinguir das outras espécies, que é uma maior capacidade de simbolização e de pensamento abstrato. A arte é exatamente essa capacidade de dizer algo que a lógica não é capaz de dizer. Portanto, ela trata da sensibilidade e da capacidade de investir símbolos, o que é extremamente lisonjeiro para nossa espécie.”
