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Imunidade materna protege fetos contra danos do Oropouche

Imunidade materna protege fetos contra danos do Oropouche

A imagem mostra um pequeno inseto díptero (semelhante a um mosquito-pólvora ou borrachudo) visto de perfil sobre um fundo branco. O corpo é robusto e arqueado, com o tórax formando uma "corcunda" em tons de verde-oliva e marrom-escuro, apresentando finas cerdas no topo. Destaca-se um grande olho composto de brilho metálico azulado na cabeça e uma asa translúcida recobrindo o dorso, caracterizada por um padrão de manchas claras e escuras em mosaico. As pernas são curtas e claras, e a iluminação lateral realça a textura segmentada do abdômen e a transparência das extremidades, sugerindo uma fotografia macro com foco detalhado.

Experimentos com animais mostram importância dos cuidados com a saúde na gestação e do monitoramento de epidemias

A imagem mostra um pequeno inseto díptero (semelhante a um mosquito-pólvora ou borrachudo) visto de perfil sobre um fundo branco. O corpo é robusto e arqueado, com o tórax formando uma "corcunda" em tons de verde-oliva e marrom-escuro, apresentando finas cerdas no topo. Destaca-se um grande olho composto de brilho metálico azulado na cabeça e uma asa translúcida recobrindo o dorso, caracterizada por um padrão de manchas claras e escuras em mosaico. As pernas são curtas e claras, e a iluminação lateral realça a textura segmentada do abdômen e a transparência das extremidades, sugerindo uma fotografia macro com foco detalhado.

Amor de mãe é uma muralha e, ao que parece, seu sistema imunológico também. É isso que sugere uma pesquisa da Unicamp que acaba de ser publicada no periódico iScience, do grupo Cell. O estudo, conduzido por pesquisadores do Instituto de Biologia (IB), investigou os possíveis efeitos da infecção congênita — de mãe para filho — pelo vírus Oropouche (Orov), constatando que, quando a gestante tem um bom sistema de defesa, a infecção chega a seu sistema reprodutivo, mas quase não causa danos ao feto.

De acordo com o estudo, essa proteção acontece porque, ao entrar em contato com o patógeno, as células do sistema reprodutivo produzem diferentes citocinas, incluindo interferons do tipo I e III, proteínas sinalizadoras que constituem um dos principais componentes da resposta imunológica inata. Ao serem liberadas, essas citocinas se ligam a receptores de interferons presentes nas outras células e desencadeiam uma via de sinalização que culmina na expressão de genes com atividade antiviral, contribuindo para controlar a replicação do vírus.

Esta colagem de seis fotografias retrata um ambiente de laboratório biológico, com foco em processos de cultura celular e análise microscópica. As imagens mostram um pesquisador de jaleco branco, óculos e luvas azuis manipulando frascos de cultura com meio líquido avermelhado, utilizando pipetas de precisão para transferir amostras em placas de múltiplos poços e observando resultados em um microscópio digital moderno, que exibe células em um monitor. O conjunto visual enfatiza o rigor técnico e a precisão científica, utilizando uma paleta de cores dominada pelo branco do laboratório, o azul das luvas e o rosa/magenta das soluções químicas.
Há mais de dez anos, pesquisadores do Laboratório de Vírus Emergentes (Leve) da Unicamp estudam o vírus Oropouche: análises oferecem subsídios para acompanhamento da doença
Esta colagem de seis fotografias retrata um ambiente de laboratório biológico, com foco em processos de cultura celular e análise microscópica. As imagens mostram um pesquisador de jaleco branco, óculos e luvas azuis manipulando frascos de cultura com meio líquido avermelhado, utilizando pipetas de precisão para transferir amostras em placas de múltiplos poços e observando resultados em um microscópio digital moderno, que exibe células em um monitor. O conjunto visual enfatiza o rigor técnico e a precisão científica, utilizando uma paleta de cores dominada pelo branco do laboratório, o azul das luvas e o rosa/magenta das soluções químicas.
Há mais de dez anos, pesquisadores do Laboratório de Vírus Emergentes (Leve) da Unicamp estudam o vírus Oropouche: análises oferecem subsídios para acompanhamento da doença

Em contrapartida, caso a sinalização dos interferons maternos esteja prejudicada, o vírus passa em maior quantidade para o feto, gerando mais danos ao filho, mesmo que este esteja com seu sistema de defesa intacto. As motivações desse efeito não foram avaliadas pelo estudo, mas é possível que, mesmo que possua um arcabouço genético para responder ao vírus, a falta de maturidade dessa resposta impeça uma atuação mais efetiva do feto. “Já o corpo da mãe é o habitat, a barreira que controla o que passa. Então, quando ela controla a infecção, consegue proteger o bebê”, considera o docente do IB José Luiz Módena, orientador da tese que originou a publicação.

O artigo é resultado de uma pesquisa conduzida pela biomédica Stéfanie Primon Muraro. Em seu doutorado no IB, a autora investigou os mecanismos por trás da transmissão do Oropouche entre mãe e filho, buscando preencher uma lacuna de pesquisas experimentais sobre essa temática. Desde a década de 1980, relatos e estudos observacionais já apontavam uma associação entre gestantes infectadas pelo Orov e casos de aborto espontâneo e malformação fetal, mas nenhuma análise havia sido feita para detectar o vírus nos fetos.

Comum em regiões de mata, o Oropouche é conhecido no Brasil desde a década de 1960 e tem grande circulação entre animais silvestres, como preguiças, primatas, roedores e aves. Em humanos, ele costuma ser transmitido pelo Culicoides paraensis, um mosquito da família do borrachudo popularmente conhecido como maruim ou “porvinha”. De tempos em tempos, ocorrem casos de transmissão entre humanos pelo inseto vetor em áreas urbanas, mas, por ser uma doença associada a regiões economicamente vulneráveis, especialmente no Norte do país, seu estudo se manteve historicamente negligenciado.

Os principais sintomas do Oropouche são febre, dores nas articulações e erupções cutâneas que desaparecem após uma semana. Porém, alguns pacientes desenvolvem complicações graves, como sequelas neurológicas e hemorragia, chegando a resultar em óbito. No entanto, a “similaridade clínica entre a infecção por Orov e aquela causada por outros arbovírus, como dengue, zika e chikungunya, gera dificuldades diagnósticas e faz com que os casos de Orov sejam subnotificados”, afirma Muraro em sua tese.

O experimento

Para chegar aos resultados, Muraro desenvolveu, com o apoio da equipe do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (Leve), liderado pelo professor Módena, ensaios em células e em camundongos gestantes. No primeiro caso, a autora avaliou se o patógeno era capaz de se multiplicar em células de placenta de humanos e de camundongos — o que foi confirmado — e quais tipos de resposta imunológica essas células eventualmente desencadeariam — no caso, a liberação dos interferons. Além disso, usando camundongas que não estavam grávidas, ela observou que o vírus pode alcançar os órgãos reprodutores femininos, como útero e ovários.

Este infográfico, intitulado "Um Raio X do Oropouche no Brasil", detalha a evolução epidemiológica da febre do Oropouche entre 2023 e 2025.Informações GeraisVírus: Orthobunyavirus oropoucheense, um arbovírus descoberto na década de 1950.Vetor: Transmitido principalmente pelo Culicoides paraensis, conhecido popularmente como maruim ou "porvinha".Sintomas: Semelhantes aos da dengue, incluindo dor de cabeça intensa, dores musculares, náusea e diarreia.Evolução dos Casos ConfirmadosO gráfico apresenta três mapas do Brasil, comparando a distribuição geográfica e o volume de casos:AnoTotal de CasosDestaque Regional2023834Concentração quase exclusiva na região Norte (Amazonas com 457 casos).202413.856Explosão de casos com disseminação para o Nordeste (Bahia com 891) e Sudeste (Minas Gerais com 5.868).202511.988Redução no Norte, mas aumento significativo no Centro-Sul (Minas Gerais com 6.326 e São Paulo com 2.503).Notas VisuaisEscala de Cor: Os mapas utilizam um degradê que vai do azul (menos casos) ao laranja escuro (mais casos).Fonte: Dados extraídos do Painel Epidemiológico do Ministério da Saúde.
Fonte: Painel epidemiológico – Ministério da Saúde

Já no segundo ensaio, a pesquisadora trabalhou com um modelo de cruzamento e de infecção em camundongas gestantes. Nessa etapa, o objetivo do experimento foi avaliar se o vírus consegue infectar as fêmeas grávidas e se, em caso positivo, ele é capaz de atravessar a placenta e causar danos ao feto. “Isso não é garantido, porque, quando está grávida, a fêmea passa por várias alterações em sua fisiologia e em seus níveis hormonais que poderiam afetar a capacidade de infecção e transmissão do vírus”, afirma o docente.

Para tanto, foram feitos experimentos com três modelos de camundongo: o selvagem, que possui duas cópias, materna e paterna, do gene responsável por expressar o receptor de interferon — homozigoto positivo — e que, portanto, responde a essa citocina de maneira integral; o homozigoto negativo, que não possui cópias desse gene e, dessa forma, não responde à sinalização do interferon; e um heterozigoto, que possui apenas uma cópia do gene, mas também expressa o receptor de interferon.

O experimento demonstrou que, para a camundonga selvagem — que cruzou com um camundongo selvagem e gerou apenas fetos selvagens —, o vírus chega à placenta e ao feto em níveis baixos, mas sem causar grandes alterações de tamanho ou de neurodesenvolvimento. Por outro lado, as camundongas negativas desenvolveram uma infecção por Oropouche muito grave e morreram até três dias após a infecção. Isso demonstrou a importância dos interferons para a defesa contra o vírus, mas impossibilitou o acompanhamento da gestação e dos efeitos da doença nos fetos, devido a sua morte prematura.

Diante desse resultado, o experimento voltou sua atenção para as fêmeas heterozigotas. A sua única cópia do gene permite que ela sobreviva à infecção pelo vírus, mas, ao cruzar com um macho negativo, este não transmitirá uma cópia do gene para os filhotes. Com isso, a camundonga pode gerar filhotes responsivos ao receptor (heterozigotos), caso o feto receba o gene positivo dela, e não responsivos (homozigotos negativos), caso o filhote não o receba. Isso permitiu acompanhar a infecção nos fetos duplo-negativos.

A imagem mostra um homem de pele clara, com cabelos curtos e castanhos, barba e bigode aparados, usando óculos de grau com armação metálica escura. Ele veste uma camisa de mangas curtas na cor verde-oliva e usa um crachá pendurado no pescoço por um cordão escuro. O homem está com o braço direito erguido e a mão fechada em um punho, enquanto sua mão esquerda está próxima ao peito, também parcialmente fechada, em um gesto que sugere uma explicação entusiasmada ou a demonstração de um conceito. Ele está em um laboratório, com o fundo levemente desfocado revelando bancadas brancas, armários com portas de vidro contendo frascos e o que parece ser o monitor de um computador à esquerda. A expressão facial é atenta e comunicativa, com a boca levemente aberta como se estivesse falando.
O professor José Luiz Módena: vírus é pouco letal, mas pode deixar sequelas
A imagem mostra um homem de pele clara, com cabelos curtos e castanhos, barba e bigode aparados, usando óculos de grau com armação metálica escura. Ele veste uma camisa de mangas curtas na cor verde-oliva e usa um crachá pendurado no pescoço por um cordão escuro. O homem está com o braço direito erguido e a mão fechada em um punho, enquanto sua mão esquerda está próxima ao peito, também parcialmente fechada, em um gesto que sugere uma explicação entusiasmada ou a demonstração de um conceito. Ele está em um laboratório, com o fundo levemente desfocado revelando bancadas brancas, armários com portas de vidro contendo frascos e o que parece ser o monitor de um computador à esquerda. A expressão facial é atenta e comunicativa, com a boca levemente aberta como se estivesse falando.
O professor José Luiz Módena: vírus é pouco letal, mas pode deixar sequelas

Com essa etapa, o estudo constatou a importância do sistema de defesa materno, pois, apesar de os fetos apresentarem peso e tamanho menores, tal diferença não teve significância estatística quando comparado com os do grupo controle — que não foram infectados. Vale ressaltar que a análise das placentas desse cruzamento revelou múltiplas áreas de calcificação, o que os autores acreditam indicar locais com replicação ativa do vírus. Esse é um fenômeno observado em outros tipos de infecção viral e parasitária, como rubéola e toxoplasmose, e que afeta funções como a troca de nutrientes entre a mãe e o feto — o que impactaria o crescimento do filhote —, mas tal relação não foi confirmada pelo estudo.

Como último passo para comprovar a dependência de interferon materno para a via de defesa, os pesquisadores trataram as camundongas selvagens com diferentes doses de um anticorpo que “desliga” o receptor de interferon e impede a resposta antiviral mediada por essa citocina. Com isso, foi possível diminuir a resposta de defesa da mãe para observar o vírus chegar aos fetos duplo-positivos e se multiplicar com maior facilidade. “A carga viral na placenta aumenta muito, mesmo com doses muito baixas do anticorpo, e a gente vê aumento da carga viral fetal e uma tendência de absorção do feto pela mãe, mostrando que nesse cenário pode, eventualmente, ocorrer um aborto ou restrição de crescimento”, afirma Módena.

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