
A escolha por carros elétricos na ponta do lápis
Modelos inéditos avaliam cenários econômicos e os custos de propriedade e geração de energia solar

Encontrar carros elétricos transitando pelas ruas tem se tornado cada vez mais comum no Brasil. Em 2025, foram mais de 223 mil novos veículos elétricos ou híbridos comercializados, segundo os dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). O aumento registrado nos últimos dez anos impressiona: mais de 26.000% — em 2015, foram emplacados apenas 846 novos elétricos. Diversos fatores contribuíram para o boom, entre eles a entrada da chinesa BYD no mercado nacional, estimulando as demais montadoras a investirem no setor, os aumentos nos preços dos combustíveis, a ampliação do uso de veículos para trabalho, como no transporte por aplicativos, e os incentivos à geração de energia elétrica.
Mesmo com o crescimento virtuoso, os carros elétricos ainda parecem um mistério para os consumidores — se não os veículos em si, os diversos fatores que influenciam a escolha. Primeiro vem o preço, pois o atual mais barato no país, o Renault Kwid e-Tech, custa R$ 100 mil, um valor ainda elevado — atualmente, os modelos a combustão mais baratos no mercado giram em torno dos R$ 75 mil. Entram também na conta os custos de manutenção, o valor de revenda e, provavelmente, a principal dúvida: trocar os postos de combustível por eletropostos ou pela tomada da garagem é uma opção mais econômica?
A conclusão de uma pesquisa de doutorado feita na Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) da Unicamp, em parceria com o Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, é que, em muitos casos, vale a pena trocar os veículos a combustão pelos elétricos. Alguns contextos mostram-se mais vantajosos que outros, principalmente quando o proprietário tem condições de fazer as recargas em casa, aproveitando os benefícios da microgeração distribuída de energia solar fotovoltaica, ou seja, quando o próprio consumidor gera sua energia elétrica por meio de painéis solares. Para avaliar os diferentes cenários, Nathalia Hidalgo Leite, autora do estudo, desenvolveu modelos matemáticos para calcular a interferência dos diversos fatores, tanto no custo da propriedade dos veículos quanto na geração de energia elétrica. A tese contou com a orientação dos professores Luiz Carlos Pereira da Silva, diretor do Centro Paulista de Estudos da Transição Energética (CPTEn) da Unicamp, e Hugo Gabriel Valente Morais, da Universidade de Lisboa, e coorientação de Cindy Paola Guzman Lascano, do Instituto de Engenharia de Sistemas de Computadores (INESC-ID), de Lisboa.


Quanto custa?
O estudo relaciona duas análises distintas, mas que se complementam: a viabilidade dos sistemas solares fotovoltaicos, considerando diferentes regras de compensação de crédito para os consumidores, e a atratividade dos veículos elétricos em relação aos movidos a combustão, por meio do cálculo do custo total de propriedade (TCO, do inglês “total cost of ownership”). Os modelos também levaram em conta as possíveis variações econômicas e de subsídios para os setores. A conclusão é que mesmo com uma compensação menor aos consumidores pela energia fotovoltaica gerada, o TCO dos veículos elétricos sofre pouca variação, entre uma redução de 1,8% a um aumento de 6,3% em seu custo de propriedade.
Até 2023, os consumidores que geravam energia fotovoltaica recebiam 100% de compensação. Com a lei 14.300/2022, foi estabelecido que o valor compensado seria reduzido progressivamente, fazendo com que o retorno financeiro do investimento caísse 5,77% em média. “O que mudou foi o período de payback, o tempo de retorno do investimento se alongou. Porém, é algo que continua sendo viável”, explica a engenheira. Segundo Leite, as mudanças recentes no setor elétrico não devem impactar no longo prazo a opção pelos elétricos. De acordo com a pesquisa, outros fatores influenciam mais no cálculo do TCO no Brasil. “A maioria dos veículos a combustão hoje no Brasil é flex, sendo possível abastecê-los também com etanol. Isso foi levado em conta nos modelos matemáticos”, detalha.
Levando em consideração quatro categorias de veículos — de entrada, compactos, médios e de luxo — e as regras diversas de compensação, a pesquisadora traçou 23 cenários em que compara o TCO de elétricos e a combustão. Em 12 deles houve empate, em dois o custo dos elétricos foi maior, e em nove cenários os veículos a combustão tiveram maior TCO. Entre os diferentes fatores, o que mais impacta no cálculo de TCO dos elétricos é o valor inicial dos veículos, sobretudo nos compactos.
Leite destaca aspectos próprios do contexto brasileiro que devem ser considerados em estudos desse tipo e que mostram o quanto as condições de recarga de energia interferem no custo. Um deles é o número ainda reduzido de estações para recarregamento no país. A ABVE contabiliza 16,8 mil eletropostos, uma relação de 20,9 veículos para cada posto. “Com a demanda crescente de pessoas comprando elétricos e híbridos, o preço [da energia] nas estações de recarga tende a ser mais alto.” Outro fator é cultural: segundo a pesquisadora, estudos na área mostram que poucos donos de veículos híbridos plug-in — que permitem abastecimento de combustível e recarga — têm o hábito de recarregá-los. “Na maior parte do tempo, eles estão carregando um peso a mais das baterias e gastando mais combustível por isso. Aí não há eficiência”, comenta.
POLÍTICAS PARA O SETOR
Outro aspecto destacado na pesquisa e que fomenta novos estudos acerca dos elementos que impulsionam a transição energética é que os fatores intrínsecos aos veículos elétricos e à geração de energia fotovoltaica não podem ser dissociados das políticas públicas para o setor. Na visão de Leite, hoje o Brasil tem apenas políticas gerais para a eficiência dos veículos. Ela cita o exemplo das regras de isenção do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), que não seguem uma diretriz nacional. “Vários estados oferecem algum tipo de benefício fiscal, mas o cenário está longe de ser uniforme no país.”
A pesquisadora acredita que é necessário ao país priorizar a descarbonização da matriz energética e, a partir disso, traçar políticas que incluam os veículos elétricos e outros recursos e estratégias, como a adoção da eletromobilidade nos transportes públicos. “Começar por ônibus e outros modais elétricos seria uma boa opção para ampliar os resultados do país em direção à transição energética.”
