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Um close-up de uma pessoa vestindo uma camisa estampada floral preta e um casaco escuro, segurando um par de óculos transparentes na altura dos olhos. Em primeiro plano, uma grande quantidade de óculos e armações de sol e de grau estão espalhadas em uma banca, sugerindo uma feira ou comércio de rua.
Trabalhador informal mostra óculos à venda em banca montada na tradicional área de compras do Saara, no centro do Rio de Janeiro

Economista investiga impacto das instituições na desigualdade salarial

Tese analisa papel de sindicatos, salário mínimo, proteção trabalhista e credenciais profissionais na distribuição dos rendimentos

Economista investiga impacto das instituições na desigualdade salarial

Tese analisa papel de sindicatos, salário mínimo, proteção trabalhista e credenciais profissionais na distribuição dos rendimentos

Um close-up de uma pessoa vestindo uma camisa estampada floral preta e um casaco escuro, segurando um par de óculos transparentes na altura dos olhos. Em primeiro plano, uma grande quantidade de óculos e armações de sol e de grau estão espalhadas em uma banca, sugerindo uma feira ou comércio de rua.
Trabalhador informal mostra óculos à venda em banca montada na tradicional área de compras do Saara, no centro do Rio de Janeiro

A desigualdade salarial atravessa décadas como uma das marcas estruturais da sociedade brasileira. Ela resiste a ciclos de crescimento, mudanças tecnológicas e variações na qualificação da força de trabalho. Embora fatores de mercado influenciem a trajetória dos rendimentos, parte decisiva dessa dinâmica se enraíza no modo como o país organiza suas regras, proteções e credenciais profissionais. É na interseção entre instituições e mercado que se definem os contornos da distribuição salarial.

É a partir desse diagnóstico que a tese “Desigualdade salarial e instituições do mercado de trabalho no Brasil”, do economista Erick Ohanesian Polli, orientada pela professora Carolina Troncoso Baltar, no Instituto de Economia (IE) da Unicamp, examina o papel das instituições entre 2012 e 2024. A pesquisa combina reconstrução histórica, leitura setorial e um modelo econométrico de dados em painel que busca identificar o peso específico de sindicatos, salário mínimo, proteção trabalhista e do sistema de profissões na desigualdade salarial brasileira.

O estudo dialoga com duas tradições analíticas que há décadas disputam explicações para a desigualdade. Uma linha associa diferenças salariais a atributos individuais, como escolaridade e produtividade. A outra sustenta que as instituições moldam a hierarquia salarial ao influenciar decisões de contratação, pisos salariais, poder de barganha e requisitos profissionais. Polli articula essas interpretações e mostra que entender a desigualdade implica observar simultaneamente fatores de mercado e mecanismos institucionais. A partir dessa síntese, a tese reconstrói a evolução das instituições do trabalho no Brasil, analisa como setores e ocupações se reorganizaram na última década e, na sequência, estima o impacto dessas estruturas sobre a distribuição dos rendimentos.

Para mensurar o papel das instituições, Polli adapta metodologias comuns em pesquisas comparativas internacionais, aplicando-as a um único país ao longo do tempo. O modelo de dados em painel considera a evolução entre 2012 e 2024 e controla simultaneamente composição educacional, estrutura setorial, demanda por trabalho e diferenças na formalização. Essa escolha permite distinguir movimentos atribuídos a mudanças institucionais daqueles explicados por transformações de mercado.

As variáveis institucionais incluem salário mínimo, sindicalização, proteção trabalhista e sistema de profissões. Cada elemento opera em um ponto distinto da estrutura distributiva. O salário mínimo atua principalmente na base; os sindicatos tendem a organizar faixas salariais internas; a proteção trabalhista cria fronteiras entre vínculos; e o sistema de profissões estrutura credenciais que concentram benefícios em determinados grupos ocupacionais. Esse desenho metodológico prepara o terreno para analisar como essas forças se manifestam no mosaico de setores e ocupações brasileiros.

Um retrato de estúdio, com fundo em degradê azul claro e branco, mostrando um homem de pele clara e careca. Ele tem uma barba curta e escura e veste uma camisa social roxa escura de mangas longas. Ele olha diretamente para a frente, com uma expressão neutra.
Erick Ohanesian Polli, autor da tese: em defesa do fortalecimento da formalização e da valorização do salário mínimo

Contrastes na desigualdade

Um retrato de estúdio, com fundo em degradê azul claro e branco, mostrando um homem de pele clara e careca. Ele tem uma barba curta e escura e veste uma camisa social roxa escura de mangas longas. Ele olha diretamente para a frente, com uma expressão neutra.
Erick Ohanesian Polli, autor da tese: em defesa do fortalecimento da formalização e da valorização do salário mínimo

A etapa descritiva mostra um mercado de trabalho marcado por assimetrias profundas. Setores de baixa remuneração, como a agricultura informal, apresentam alguns dos maiores índices de desigualdade, revelando que baixos salários não impedem grande dispersão interna. Na outra ponta, áreas de informação e educação combinam remunerações médias mais altas com desigualdade igualmente elevada.

Entre os trabalhadores formais, a administração pública concentra as maiores médias salariais e também uma das maiores dispersões. Já setores como comércio, alojamento e agricultura registram salários mais baixos e desigualdade relativamente menor — relação que se altera quando observada a informalidade. A tese evidencia que a heterogeneidade interna aos grupos ocupacionais é central para explicar a desigualdade. Mesmo em atividades semelhantes, vínculos protegidos e não protegidos produzem trajetórias salariais divergentes.

Para Polli, a grande heterogeneidade do setor informal é decisiva para compreender esses padrões. “O setor informal reúne ocupações com jornadas, estabilidade e remunerações muito diferentes, e isso por si só amplia a dispersão dos rendimentos”, afirma.

Como não há piso salarial garantido e a exposição à incerteza é maior, a desigualdade tende a ser elevada mesmo em atividades de baixa remuneração. Segundo ele, a expansão do trabalho por aplicativos e a flexibilização de regras de contratação fora da CLT intensificam essa dispersão, criando trajetórias ainda mais heterogêneas dentro do segmento informal. Essa combinação ajuda a explicar por que, mesmo em setores com renda média baixa, a desigualdade interna se mantém alta e tende a crescer ao longo do tempo.

Os resultados econométricos mostram que aumentos reais do salário mínimo desempenham papel consistente na redução da desigualdade, sobretudo na base da distribuição. O autor observa que o efeito varia entre segmentos: “No setor formal, o trabalhador tem a garantia de receber pelo menos o mínimo; no informal, ele funciona só como referência”, explica. A chamada função “farol” existe, mas com alcance limitado. Por isso, afirma, a expansão da formalização é decisiva, pois potencializa o efeito do mínimo e dos mecanismos de negociação coletiva.

Por outro lado, nem todas as instituições atuam na mesma direção. A sindicalização aparece no estudo associada a maior desigualdade, o que indica que, isoladamente, pode não capturar plenamente os efeitos da negociação coletiva. Como esses ganhos alcançam todos os trabalhadores da categoria, parte do impacto tende a ser absorvida pela própria formalização, e não apenas pela sindicalização em si.

Já a proteção trabalhista, medida pela formalização e por normas de segurança, separa trajetórias entre trabalhadores protegidos e não protegidos, ampliando fronteiras internas em diversos setores. O sistema de profissões, por sua vez, tende a aumentar a desigualdade entre grupos ao organizar credenciais que funcionam como barreiras de entrada. No entanto, quando observados apenas os grupos regulamentados, essa estrutura se associa a menor desigualdade dentro dessas ocupações específicas. Somado aos demais mecanismos, esse desenho reforça distâncias estruturais mesmo quando outras instituições atuam na direção oposta.

Na avaliação do pesquisador, o caminho mais promissor combina duas frentes. “Fortalecer a formalização e valorizar o salário mínimo é o que mais pode alterar a trajetória da desigualdade”, afirma. Ele reconhece que sindicatos seguem relevantes, embora com capacidade desigual entre categorias, e alerta que medidas recentes de flexibilização trabalhista podem reduzir o alcance das instituições que historicamente comprimiram a desigualdade.

Os achados reforçam que as instituições não produzem efeitos homogêneos. Elas interagem com setores, ocupações e vínculos, gerando composições que podem reduzir ou ampliar disparidades. Em um cenário marcado por fragmentação ocupacional e expansão de formas flexíveis de contratação, compreender como instituições moldam rendimentos permanece central para interpretar por que algumas desigualdades se perpetuam — e quais caminhos podem alterá-las.

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