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Uma mulher sentada ao lado de um leito hospitalar olha para duas profissionais de saúde que estão de pé à sua frente. A cama tem grades metálicas e há equipamentos médicos ao fundo, como um monitor e um suporte de soro. As duas profissionais usam jalecos brancos e conversam com a mulher sentada, que veste uma blusa vermelha. O ambiente é uma sala de atendimento com bancada e armários.
Simulação clínica no HC da Unicamp: estudos para a institucionalização do treinamento e extensão da capacitação para outros profissionais da área da saúde

Notícias difíceis

Treinamento auxilia profissional de enfermagem na comunicação de intercorrências para famílias de crianças hospitalizadas em UTIs

Notícias difíceis

Treinamento auxilia profissional de enfermagem na comunicação de intercorrências para famílias de crianças hospitalizadas em UTIs

Uma mulher sentada ao lado de um leito hospitalar olha para duas profissionais de saúde que estão de pé à sua frente. A cama tem grades metálicas e há equipamentos médicos ao fundo, como um monitor e um suporte de soro. As duas profissionais usam jalecos brancos e conversam com a mulher sentada, que veste uma blusa vermelha. O ambiente é uma sala de atendimento com bancada e armários.
Simulação clínica no HC da Unicamp: estudos para a institucionalização do treinamento e extensão da capacitação para outros profissionais da área da saúde

A experiência de ficar dez dias com seu filho recém-nascido na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal, em um hospital de Campinas, foi cabal para a enfermeira Camila Cazissi da Silva definir a comunicação de notícias difíceis para famílias de crianças hospitalizadas como tema de pesquisa. “Vivenciei os dois lados: o de profissional e o de mãe”, diz Silva, que, horas depois de dar à luz o seu primeiro filho, Arthur, ouviu de uma médica a seguinte frase: “Mãezinha, o seu bebê não nasceu muito bem. Vamos levá-lo para a UTI.” Sem falar o nome da criança nem o da mãe, a médica foi rápida e saiu sem dar a chance de interação.

Orientada pela professora Luciana de Lione Melo, livre-docente na área de enfermagem na Saúde da Criança e do Adolescente, da Faculdade de Enfermagem (FEnf) da Unicamp, Silva desenvolveu seu doutorado sobre comunicação de notícias difíceis. O estudo foi dividido em duas etapas: a validação do conteúdo de um caso clínico e o treinamento realizado com videoaulas e simulação clínica presencial. O referencial teórico para elaboração do treinamento foi a Teoria da Aprendizagem Significativa, de David Ausubel.

Na avaliação de Silva, o formato do treinamento apresentou eficácia na retenção de conhecimentos sobre comunicação de notícias difíceis. Sua conclusão foi atestada pela Escola de Educação Corporativa da Unicamp (Educorp), que, além de fornecer certificado e vincular à vida funcional dos profissionais participantes, estuda agora a institucionalização do treinamento, com possibilidade de expandir para outros profissionais da equipe multidisciplinar que atua na UTI pediátrica do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp. “Nosso desejo é capacitar toda a equipe, composta por fisioterapeutas, psicólogos, médicos e outros”, defende Melo.

Silva trabalha na UTI pediátrica do HC da Unicamp desde 2011 e defendeu seu mestrado a respeito da presença da família na UTI pediátrica um ano antes de viver a situação traumática. “Foi chocante. Demorou um tempo para eu elaborar tudo. Naquele momento (pós-parto) eu não percebi nada, porque eu estava com os hormônios alterados”, recorda-se a pesquisadora, cujo filho superou as dificuldades dos primeiros dias de vida e cresceu com saúde. A circunstância fez Silva ter um novo olhar e uma nova dimensão sobre a relação entre profissionais da saúde e a família do paciente no ambiente hospitalar, especialmente nos momentos em que as duas partes se comunicam.

De natureza quantitativa e qualitativa, a pesquisa investigou a relevância da simulação clínica no desenvolvimento das habilidades dos profissionais de enfermagem na comunicação de notícias difíceis para famílias de crianças hospitalizadas em Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica. “A simulação proporciona aos profissionais ou estudantes que eles treinem situações reais em ambiente controlado de ensino-aprendizagem. Teoricamente, ali eles podem errar, é o ambiente para isso”, defende a enfermeira.
Trinta profissionais de enfermagem, entre técnicos e enfermeiros, da UTI pediátrica do HC da Unicamp, divididos em seis grupos de no máximo sete pessoas cada, participaram das simulações clínicas, voluntariamente, por meio de inscrição. “Nós simulamos um caso real, que acontece na prática: um lactente, ainda bebê, com quadro sugestivo de bronquiolite, que apresenta piora e precisa ser transferido para a UTI, onde precisará de ventilação mecânica”, explica Silva. Os pais da criança foram interpretados por dois alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp, enquanto os participantes do treinamento simulavam a comunicação à família. “O fato de usar atores tornou a dinâmica mais real.”

A situação acontece em um cenário ambientado, com cama de hospital, monitor, tubo de ventilação mecânica e um manequim (boneco) simulando o paciente. “Procuramos elaborar o espaço de uma UTI pediátrica.” O treinamento durou cerca de 30 dias, dos quais 15 foram de preparação teórica, com videoaulas e leituras.

“O nosso foco era simular uma conversa que acontece no cotidiano: contar aos pais que a criança piorou e que precisava de ventilação mecânica. Os profissionais de enfermagem faziam essa comunicação, depois reuníamos cada grupo e fazíamos o debriefing, momento em que conversávamos sobre os pontos positivos e os que precisavam ser melhorados”, descreve a enfermeira. Os grupos avaliavam a postura, o tom de voz, a linguagem, entre outros elementos da comunicação. “Eles conseguiram se ver”, destaca Melo. ”Uma das profissionais avaliou que falou muito rápido durante a simulação porque estava ansiosa, querendo sair rapidamente da situação.”

Duas mulheres estão sentadas lado a lado em uma sala com mesas e cadeiras ao fundo. A mulher à esquerda gesticula com as mãos enquanto fala, com expressão animada. Ela usa óculos e uma blusa clara. A mulher à direita a observa com atenção, com expressão calma, vestindo uma blusa estampada em preto e bege. As duas parecem estar em conversa.
A enfermeira Camila Cazissi da Silva (à esq.) e a professora Luciana de Lione Melo, autora e orientadora da tese, respectivamente: treinamento de situações reais

Não é só sobre morte

Duas mulheres estão sentadas lado a lado em uma sala com mesas e cadeiras ao fundo. A mulher à esquerda gesticula com as mãos enquanto fala, com expressão animada. Ela usa óculos e uma blusa clara. A mulher à direita a observa com atenção, com expressão calma, vestindo uma blusa estampada em preto e bege. As duas parecem estar em conversa.
A enfermeira Camila Cazissi da Silva (à esq.) e a professora Luciana de Lione Melo, autora e orientadora da tese, respectivamente: treinamento de situações reais

O objetivo do treinamento é também desmistificar a ideia de notícia difícil, sempre associada à morte. “Notícia difícil pode ser qualquer notícia que vai desencadear algum desconforto à pessoa que está recebendo, que de alguma forma desestabiliza. Pode ser desde um acesso venoso até um jejum prolongado, uma morfina ou a própria alta hospitalar, visto que às vezes a criança vai com algum dispositivo e isso impacta negativamente a família. São inúmeras situações, especialmente com crianças cuja situação clínica oscila muito”, exemplifica Silva.

“Nós ampliamos o conceito de comunicação de notícias difíceis”, afirma a orientadora. De acordo com Melo, independentemente do que será executado na criança, todo tipo de comunicação precisa ser estruturada e direcionada. “Eu preciso entender como vou transmitir a notícia para que a família compreenda da melhor forma possível e não fique nenhuma dúvida”, afirma a professora.
Silva também trabalhou com o protocolo Spikes, uma orientação metodológica realizada em seis etapas: preparar o ambiente, perceber a compreensão do paciente, convidar para o diálogo, transmitir a informação, acolher as emoções e resumir. Dentro destas etapas, é preciso, por exemplo, adaptar a linguagem, evitar jargões e termos técnicos e não falar em local público, diz a enfermeira. “Precisa pensar em todos os detalhes, inclusive em quem vai falar”, acrescenta Melo.

Segundo a orientadora, o Conselho Federal de Medicina (CFM) determina que o médico deve passar o diagnóstico ou prognóstico ao paciente, com apoio da equipe multidisciplinar. Portanto, a comunicação de notícias difíceis não é responsabilidade exclusiva do médico. “Por exemplo, se o médico de plantão precisa se comunicar com a família, o ideal é que haja alguém da equipe que a família conheça ou tenha vínculo, para transmitir mais segurança e credibilidade”, afirma Melo.

Para Silva, a comunicação de notícias difíceis feita pela médica que lhe falou sobre o estado de saúde de seu filho poderia ter sido muito diferente: “Ela poderia ter se apresentado, explicado o quadro clínico, dito que logo eu poderia vê-lo, perguntado se eu estava bem – eu estava sem óculos e sem enxergar quase nada – e qual era o nome do bebê. É muito simples e rápido, mas ela apenas falou que meu filho iria para a UTI e saiu com ele. Meu marido foi junto.”

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