Daguerreotipia captura a arte da luz, a ciência da alquimia e o mistério do retrato

Uma reflexão sobre o processo precursor da fotografia em suas dimensões técnica, filosófica, poética e artística
Daguerreotipia captura a arte da luz, a ciência da alquimia e o mistério do retrato
Uma reflexão sobre o processo precursor da fotografia em suas dimensões técnica, filosófica, poética e artística

Com as nossas retinas acostumadas às imagens bidimensionais dos códigos binários e já habituadas ao imediatismo da imagem digital, que se impõe na velocidade frenética do século XXI, o que levaria alguém a produzir imagens por meio do primeiro processo fotográfico comercialmente viável, criado em 1839, pelo francês Louis Daguerre? Por que fazer daguerreótipo hoje? A fotógrafa e daguerreotipista Simone Rocha de Campos, mais conhecida por Wicca, apelido incorporado à sua assinatura artística, perseguia essa resposta ao propor uma investigação alquímica em sua tese de doutorado no Instituto de Artes (IA) da Unicamp.
Inserida na linha de pesquisa de poéticas visuais, Wicca revisitou o método fotográfico pioneiro, estabeleceu a relação entre ciência, arte e mistério, e, por fim, provocou uma reflexão sobre o processo fotográfico, nos aspectos técnico e pessoal. Para além das dimensões filosófica, poética, física e artística, sua pesquisa também resultou em um manual de procedimento técnico que será publicado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), no âmbito de uma série de livros sobre fotografia.


Para o orientador da pesquisa, professor Edson Pfutzenreuter, esse retorno à materialidade é muito importante “em um momento em que tudo é digital”. “É quase como uma vingança”, diz Pfutzenreuter, que faz referência ao “inutensílio”, neologismo que aparece nas poesias de Manoel de Barros e Paulo Leminski.
“Hoje, quem faz daguerreótipo não faz para ter um retrato, faz por outras intenções, que são estéticas. Assim como a poesia é um inutensílio, que não tem função clara, a imagem do daguerreótipo também não tem, mas há uma importância muito grande em revisitar esse processo. A pesquisa em poéticas visuais visa refletir sobre o que é essa experiência estética”, diz o professor. O objetivo é desvendar não somente a técnica, mas também os desafios atuais, a relevância artística e a ligação surpreendente com a alquimia.


Ao decidir revisitar o processo, Wicca se deparou com barreiras práticas, a começar pela dificuldade de encontrar as placas de cobre revestidas com uma fina camada de prata na qual a imagem se forma no processo de daguerreotipia. Ela mesma teve que produzi-las. Para tanto, foi introduzida em uma rede de daguerreotipistas (no universo digital) espalhados pelo mundo, em diversos países, que a ajudaram com tutoriais e muita troca. Segundo a autora, esse é o maior desafio entre daguerreotipistas: conseguir as placas, que no século XIX eram produzidas industrialmente. Hoje é preciso fazê-las ou comprá-las de fornecedores a preços elevados.
O estudo se desenvolveu a partir das experimentações pessoais da fotógrafa – incluindo a manufatura das peças -, das pesquisas históricas e do relacionamento com estas comunidades muito ativas. “Comecei a fazer interlocução com pessoas de muitos lugares. Os daguerreotipistas são poucos, mas estão espalhados pelo mundo, a maioria nos Estados Unidos. Há também russos, canadenses, coreanos, finlandeses, japoneses, colombianos, mexicanos, argentinos e brasileiros. Meu blog e meu Instagram viraram pontos de convergência. Recebi muito apoio e suporte. São colecionadores, pesquisadores, historiadores, restauradores e pessoas interessadas no processo fotográfico”, descreve Wicca.
O daguerreótipo


O daguerreótipo é uma imagem única formada em uma placa de metal polido. “A imagem fotográfica é feita em cima de uma placa de cobre revestida com uma camada fina de prata. É o suporte no qual a imagem vai acontecer. Essa prata pura que está em cima da placa de cobre é colocada em contato com o vapor de iodo. As partículas têm capacidade de sublimar, ou seja, de mudar o estado sólido para o vapor na temperatura ambiente. Forma-se o iodeto de prata, que é fotossensível. Você coloca essa placa fotográfica dentro da câmera, que precisa ser condizente com o tamanho da imagem que você quer fazer”, explica a fotógrafa.


“A imagem parece uma poeira em cima do espelho”, completa Wicca. Tanto é que, se você passar a mão na placa, você tira a imagem. Por isso é preciso fazer o fechamento em caixas hermeticamente seladas, para garantir que não tenha oxidação ou abrasão mecânica. Pegar daguerreótipo na mão é uma coisa rara.”
Diferentemente de outros processos fotográficos em que se tem uma matriz, como um negativo, a partir do qual é possível fazer várias cópias, o daguerreotipo não se reproduz. A própria placa na qual se fez a eletrodeposição tem a imagem final. Wicca montou sua própria estação para fazer o banho de prata e a etapa da eletrodeposição, sobre a qual há pouca literatura. “Pesquisei a joalheria para entender a deposição de prata. Comecei, a partir daí, a fazer interlocução com pessoas que se interessem por processos históricos.”
Transformação pessoal
“A materialidade da imagem sempre me despertou curiosidade. No caso da alquimia e do mistério, tem mais a ver com a transformação pessoal nesse processo. Você transforma os materiais ao mesmo tempo em que você é transformado por eles. Tem essa relação de espelhamento, inclusive, de forma literal”, diz a pesquisadora. “É um jeito muito único de fazer fotografia. Não só porque a imagem é única, mas também pela dificuldade de reproduzir. Para enxergar a imagem, você precisa manipular o objeto, brincar com o jogo de luz e sombra que ele tem. É uma experiência que não existe com uma imagem bidimensional, porque não existe o espelhado.” Para montar uma exposição de daguerreótipo, por exemplo, é necessário criar condições especiais de luz e sombra, do contrário não é possível ver a imagem.
A pesquisadora investigou a materialidade e a técnica do daguerreótipo, com ênfase no método de revelação de Alexandre-Edmond Becquerel (1820-1891), no qual se dispensa o uso de mercúrio, presente na criação de Daguerre, tornando o processo menos tóxico. Paralelamente ao aprofundamento técnico, Wicca olhou para o processo como uma jornada de transformação pessoal e fez uma analogia com a alquimia. A narrativa da sua tese se organiza a partir das quatro fases alquímicas: nigredo, albedo, citrinitas e rubedo. “Os processos alquímicos e a descrição deles relacionados com os processos de produção do daguerreótipo foram uma ótima estratégia para essa reflexão sobre o processo”, afirma o orientador.


A apresentação final da tese foi realizada com uma espécie de oratório (disponível no YouTube: https://youtu.be/CEp0wqSDdeQ?si=svMNej5zs90bZl3I), no qual Wicca criou o ambiente específico de iluminação e de sombra. “Quando você abre o oratório, tem um teto preto para refletir e uma lâmpada ao lado.” Entre os daguerreótipos que ela fez ao longo da pesquisa, foi apresentada a série da mão de madeira em referência à mão alquímica. No texto da tese, a fotógrafa incluiu em cada legenda dos seus daguerreótipos um link com um vídeo. “Acho que dá mais a ideia do que seja o objeto, porque com o movimento a pessoa vai entender melhor.”
A POÉTICA DO FRACASSO E DA IMPERFEIÇÃO
Quando Louis Daguerre fez anúncio público da sua invenção, em 1839, na França, houve grande repercussão. Outros cientistas faziam experimentos semelhantes em outras partes do mundo, inclusive no Brasil, mais precisamente em Campinas, onde Hercule Florence também avançava em um processo fotográfico. O diferencial de Daguerre era o fato de ser comercialmente viável. A França comprou os direitos e cedeu isso para a humanidade.
Um ano depois, em 1840, o cientista Alexandre-Edmond Becquerel (1820-1891), que também investigava a fotografia, descobriu que, ao expor uma placa de daguerreótipo, já fotografada, à luz filtrada vermelha, laranja ou amarela, a imagem tornava-se visível sem usar mercúrio. “Vale lembrar que no começo o tempo de exposição era longo, de 40 minutos a uma hora, dependendo da exposição de luz”, diz Pfutzenreuter.
O impacto chegou ao Brasil. Dom Pedro II era um entusiasta da fotografia e foi o primeiro brasileiro a manipular daguerreótipos. O imperador assistiu à primeira apresentação do daguerreotipo e tornou-se mecenas da fotografia.


Wicca viu um daguerreótipo pela primeira vez no Museu Paulista, em São Paulo. O que mais a atraiu foi a ilusão de tridimensionalidade. A imagem é quase etérea, como se flutuasse. Teve a oportunidade de aprender o método Becquerel nos Estados Unidos, no George Eastman Museum, montado na antiga residência do fundador da Kodak, que dá nome ao museu. A pesquisadora começou com placas bem pequenas, feitas em câmeras para filmes de 35mm.
A experiência a levou à reflexão: “Estou polindo a prata ou tentando melhorar a quem ela espelha?” A ideia de que, ao trabalhar a matéria com tanta intensidade, o artista também se transforma junto, a remeteu para a alquimia, que não era só sobre transformar chumbo em ouro. “Era também sobre a purificação, a transformação do próprio alquimista.”
Dentro do roteiro de sua pesquisa, que Wicca construiu a partir das quatro fases alquímicas, ela ligou a fase albedo à poética dos seus fracassos. Em vez de jogar fora as placas que não deram certo, com falhas na prateação, ela usou para fazer fotogramas aceitando a imperfeição.
Ainda na sua analogia com a alquimia, a fotógrafa concluiu que o processo não é só para obter a prata pura, mas é também para purificar a intenção, aceitar as falhas e valorizar a troca de conhecimentos que ajuda a superar os problemas. A pureza, no caso, vem da resiliência e também da colaboração. Wicca explorou isso na série mão alquímica, fotografando símbolos alquímicos em uma mão de madeira.
