As chuvas torrenciais são lágrimas insanas dos deuses. Zeus desaba desespero Monte Olimpo abaixo. Tláloc envia suas águas desde o monte que leva seu nome, inundando Ixtapaluca e Texcoco, no México. Indra, na Índia, cavalga o elefante Airâvata no pico do Monte Meru, na sagrada Amaravati, imprimindo pegadas e poças. Thor descongela as montanhas de Jötunheim, cujas águas percorrem artérias vikings. Sim, o raio que você vê e o trovão que escuta são gerados pela martelada do Mjölnir nas rochas da Escandinávia.
Nos relâmpagos que cortam o céu, vislumbra-se o brilho do vajra, qual um diamante sânscrito de Indra. Mas eis que, na medida em que percorro desvarios celestes, um clarão irrompe pela janela, seguido de um som estupendo que faz tremer o chão. Tu é o barulho intenso que ouço e, confesso, admirado, seguido de certo temor e curiosidade: Pã? Mas o que é isso? Se eu pudesse traduzir, não teria palavras, mas ouso expressar por meio do ponto de exclamação, seguido ao de interrogação, sintetizados na interjeição !? para descrever a fúria no céu, ou como os povos originários do Guayrá, na América do Sul, designavam Tupã.
Foi assim que Antonio Ruiz de Montoya buscou dar significado a um fenômeno climático, associando-o a uma divindade suprema, registrando-a no Tesoro de la Lengua Guarani. A obra foipublicada em Madri no ano de 1639, ainda que tenha sido concebida e escrita quase em sua totalidade na Redução de Nossa Senhora de Loreto, às margens do Rio Paranapanema, hoje identificada ao município de Itaguajé, no Paraná, a 65 quilômetros de Guaraci. Há historiadores que consideram o Tesoro como o primeiro livro escrito em terras brasileiras. Ainda que suscite questionamentos, uma coisa é certa: foi o primeiro livro escrito na região de Guaraci, nas primeiras décadas do século XVII. Nessa região, pouco mais de 400 anos depois, na terça-feira do dia 10 de outubro de 1972, testemunhei que as lágrimas dos deuses podem ser acompanhadas de ira. Na madrugada desse dia, minha família foi despertada por amigos na busca de abrigo. Um vendaval, com incrível força de arrancamento, em que tanto a velocidade quanto a pressão do vento são tamanhas, bastou para destelhar alvenarias, assim como carrear casas de madeiras e barracões, em fração de relâmpago. É como se Zeus lançasse seus raios causando microexplosões, ou Thor provocasse uma frente de rajada de ventos de intensidade poderosa.
Não foi apenas o susto de Tupã. O que poderia ser admiração resultou em aflição, ao vermos a chuva incessante, agravando estragos, pois o sopro dos deuses destelhou casas, e as suas lágrimas inundaram-nas. Aos dez anos, fiquei isolado por dois dias em casa, acompanhado por várias crianças. Diziam que tudo passaria, e eu ouvia o soluço oculto de dona Tiana por ter perdido parte de seus bens. Assim que permitido, andei pelas ruas enlameadas de minha terra natal e soube que uma casa, ao lado do Mané do Foto, havia sido incinerada por um raio, e os moradores haviam sido salvos sem qualquer explicação. Quem os haveria de castigar? Zeus ou Thor? Tupã, não, pois diante da calamidade aflorou o esforço da comunidade. O salão paroquial foi transformado no aconchego do povo, e o povo demonstrou aquilo que, vim a aprender, significa ser humanitário. A reconstrução de Guaraci foi marcada pelo improviso, tendo se dado por mutirões, vizinhos acudiam vizinhos na reedificação de paredes e no conserto de telhados, enquanto voluntários trabalhavam na retirada de árvores e de postes caídos.
Dias depois, presenciei a ajuda de municípios coirmãos na carroceria de caminhões carregados de mantimentos e materiais, como soube que outras cidades do norte do Paraná – Tamboara, Nova Esperança, Atalaia, Uniflor, Marialva e Santa Fé foram igualmente castigadas. Em Santa Fé, a igreja, tempos depois, precisou ser reconstruída. Dois óbitos em Nova Esperança. Foi destruída a antiga balsa de Atalaia, que cruzava o rio Pirapó – o mesmo rio que avizinha a Redução de Nossa Senhora de Loreto na sua foz ao Paranapanema –, como também o foi parte de minha infância. Gados mortos no pasto e mais de 200 feridos na região.
Esse meu relato é um microcosmo diante das 200 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas no Rio Grande do Sul, devido ao acumulado de chuva, entre o final de abril e maio de 2024. As inundações atingiram cerca de 2,4 milhões de habitantes, deixando-nos a saudade de 184 almas. Dilúvio que remete a Noé, mas sem encontrar a segurança do Monte Ararat ou da Serra Gaúcha. E na Serra da Mantiqueira, em Bragança Paulista, em setembro de 2026, o acumulado da chuva apontou volume quase três vezes a média climatológica para o mês, enquanto no Mirante de Santana, zona norte da cidade de São Paulo, esse volume ultrapassou tal marca. Contudo, a chuva não vem só, traz a companhia do granizo e do vento, envergando mortes e enchentes em várias partes do Brasil. A chuva de setembro superou marcas históricas em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso, Goiás e Tocantins. Tornados voltaram a rodopiar destruição no Paraná.
Não restam dúvidas de que a destemperança dos deuses é resultado de mudanças climáticas, sendo imperioso extirpar o negacionismo e abraçar a urgência do desenvolvimento e aprimoramento de políticas públicas de saúde, defesa civil e de planejamento frente a eventos extremos. O futuro próximo vaticina mais de 400 mil mortes em virtude do calor abrasador, algo que remete à tragédia pandêmica que nos assolou há pouco. El Niño está em curso antes de seu tempo. Pescadores do Peru e do Equador perceberam correntes de águas quentes na costa do Pacífico na época do Natal, nomeando o evento de El Niño de Navidad, cujas consequências meteorológicas preocupam. Prefiro essa criança tranquila enquanto símbolo de Esperança, jamais de apreensão. De igual modo a Zeus, não com o raio em mãos para nos punir, mas em chuva de ouro para amar Dânae, paixão da qual nasceu Perseu, aquele que, na montaria do alado Pégaso, atravessou nuvens enquanto epítome de liberdade.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
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