Almí confessou ser poeta em razão de uma desilusão amorosa. “Marcão, foi o emplastro encontrado aos sessenta anos. Tentei de tudo, da Cigana Sete Saias, passando por Lacan, até o Kama Sutra, nada funcionou.”
A curiosidade me fisgou e insisti para que me explicasse seu processo criativo e as virtudes desse fármaco. Almí me revelou que, ao incorporar uma entidade, escrevia possuído por um incontrolável tesão. E cochichou: “Preto Tião abriu meu corpo”.
“Mas, Almí, onde pretende chegar com isso, seu baitola?”, perguntei sem cerimônias.
Ele explicou que, além de curar sua ferida, a entidade africana prometia uma cadeira na ABL. Não compreendi. Isso não fazia sentido. O que o meu poeta ganharia em usar um fraldão?
Almí era um gênio. Ele deu um passo épico ao ser laureado com os prêmios “Sapoti Curumim”, por sua plaquete A Mandioca do Pajé, e “Tamanduateí”, com a obra O Rio dos Tamanduás Ancestrais.
No dia da festa, os amigos lotaram o Teatro Municipal. Como retribuição ao reconhecimento público, Almí recitou “Fala, Cadáver!”, um elogio fúnebre ao Tamanduateí. Assistiu-se a uma comoção jamais vista. Entre palmas e assobios, alguém gritou: “Artistas não passarão!”
Depois da cerimônia, comovido com a justa homenagem, sentei-me em frente ao computador e registrei estas linhas. Levantei-me com uma leve coceira no traseiro. Almíscar tem toda razão: a obra passa, mas o furúnculo permanece.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
Foto de capa:

7v): o advogado (à esquerda) e o menestrel com o instrumento caído (à direita) são intimados pela Morte.
