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Quem quer ser cientista?

Formamos excelentes cientistas, mas ainda precisamos construir um país onde ser cientista seja uma escolha possível, valorizada e desejável

Nas últimas semanas, provavelmente incentivado por leituras, discussões e conversas com estudantes e jovens cientistas, uma pergunta percorreu minha mente: a academia é uma carreira atrativa na Brasil? Antes de mergulhar em busca desta resposta, proponho olharmos para alguns dados.

Quando pensamos nos desafios da ciência brasileira, é comum falarmos de financiamento, infraestrutura, equipamentos ou bolsas. Mas quem é que fará ciência no futuro? Nenhum sistema científico existe sem pessoas dispostas a dedicar parte importante de suas vidas à produção de conhecimento. Ao passo que laboratórios podem ser construídos, equipamentos podem ser comprados e editais podem ser lançados, cientistas, por outro lado, precisam ser formados. E precisam querer ser cientistas.

Este é problema relevante. Dados organizados pela Unesco em 2023 mostram que, em média, existem no mundo 1.486 cientistas por milhão de habitantes (trabalhando em tempo integral). Os últimos dados coletados no Brasil a este respeito foram em 2013, quando tínhamos 903 cientistas por milhão de habitantes. Dado o considerável crescimento da população de doutores da última década, é possível estimar que o Brasil deva ter hoje uma comunidade científica mais próxima da média mundial. Mesmo que de maneira aproximada, existe uma significativa distância entre o Brasil e as nações que concentram grande parte da produção mundial de conhecimento.

O número de cientistas por milhão de habitantes nos EUA, Alemanha, Dinamarca e Coreia do Sul é de respectivamente 4.937, 5.926, 8.838 e 9.472, sendo o último mais de seis vezes a média mundial. Aproximando mais de nossa realidade, dados disponíveis da Argentina mostram 1.313 cientistas por milhão de habitantes; em alguns dos BRICS, Rússia e China posicionavam-se em 2023 com 2.653 e 2.107 respectivamente, sendo que no csao chinês a cifra provavelmente aumentou significativamente nos últimos três anos. A China, cuja população é quase sete vezes maior que a do Brasil, já tinha 50% mais cientistas por milhão de habitantes do que nosso país [1].

Se quisermos ter uma comunidade científica mais representativa em termos populacionais, precisamos ampliar tal comunidade. E reconheçamos: o Brasil construiu nas últimas décadas um sistema de pós-graduação capaz de formar milhares de pesquisadores altamente qualificados. Em 2024, 25.915 novos doutores foram titulados no país. É uma conquista extraordinária considerando que, em 1998, esse número era de 3.915 por ano. [2]. Feito isso, é preciso agora que estas pessoas enxerguem na ciência uma possibilidade concreta de futuro.

É inevitável considerar que, para tornar a carreira científica atrativa, precisamos de investimento consta, como já defendido nesta coluna em 22 de abril de 2026.  Em 2023, o Brasil destinou cerca de 1,19% de seu PIB à pesquisa e desenvolvimento. Naquele mesmo ano, a China destinou 2,58%, a Alemanha, 3,13%, e os Estados Unidos, 3,42%. Porém, é muito importante observar que, nos países que possuem sistemas científicos mais robustos, uma parcela expressiva desse esforço vem das empresas. O setor empresarial respondeu pelo investimento em P&D de cerca de 2,14% na Alemanha e 2,66% nos Estados Unidos, enquanto no Brasil esse investimento foi de 0,62% [3,4]. Essa diferença ajuda a explicar por que, em muitas economias, a carreira científica não se restringe à universidade e aos institutos de pesquisa governamentais. A pesquisa está também em empresas de diferentes setores econômicos, enquanto no Brasil permanece muito mais concentrada nas universidades e instituições públicas. Não se trata apenas, portanto, de formar mais cientistas, mas de construir uma economia capaz de absorver e valorizar esse conhecimento.

Apresentados todos estes dados, eu gostaria de voltar à minha pergunta inicial: a academia é hoje uma carreira atrativa na Brasil? Iniciemos considerando que a carreira acadêmica não deixou de ser boa. Pelo contrário, poucas profissões oferecem uma combinação de autonomia intelectual e potencial de legado permanente, dada a possibilidade de descobrir algo que ninguém conhecia e de formar novas gerações de mentes pensantes. Ser cientista é intelectualmente estimulante. Mas acho que o problema está em outros lugares, como na trajetória necessária para chegar a essa carreira e na forma como ela é percebida pela sociedade.

Do ponto de vista trabalhista, a carreira acadêmica é longa e forjada sobre períodos de instabilidade no aspecto previdenciário (felizmente em mudança) e de benefícios. Depois da graduação, vêm geralmente o mestrado e necessariamente o doutorado, os quais são frequentemente seguidos de anos de pós-doutorado. A consolidação profissional depende da conquista de bolsas de estudos, projetos e concursos. E todas estas oportunidades que nem sempre são previsíveis, além de sofrerem com as flutuações inerentes do sistema de financiamento da ciência brasileira.

Durante anos, um profissional altamente qualificado pode não saber exatamente onde trabalhará ou se terá condições de continuar fazendo pesquisa. Isso importa porque a academia concorre, em desvantagem, com todas as outras possibilidades profissionais oferecidas a um trabalhador com esse perfil. Isso gera um mercado de trabalho científico restrito, fazendo com que “seguir carreira acadêmica” seja sinônimo de tornar-se professor universitário.

Esta situação é diferente em países onde a ciência é política de estado, já que pesquisar não é uma atividade restrita às universidades. Diferentes setores da economia empregam cientistas em escala considerável, tornando o mercado de trabalho científico mais amplo e atraente, inclusive para os brasileiros. Logo, uma sociedade que deseja ter mais cientistas para se desenvolver mais precisa oferecer mais oportunidades de trabalho aos cientistas.

Afora as questões associadas às oportunidades em si, existe a dimensão do reconhecimento social da ciência e, por conseguinte, de quem a produz. Uma pesquisa realizada em 2024 pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dedicado à comunicação científica (INCT-CPCT), com 2.276 jovens brasileiros entre 15 e 24 anos, encontrou um resultado bastante revelador. Cerca de dois terços consideram que ser cientista pode proporcionar satisfação pessoal. Entretanto, 55% avaliam que os cientistas têm pouco ou nenhum prestígio no Brasil [5]. Vejam a contradição: ao passo que a ciência é vista como uma atividade capaz de proporcionar realização, a profissão não ocupa um lugar de destaque no imaginário dos jovens. Mesmo assim, cientistas desfrutam de elevado grau de confiança. Em levantamento internacional realizado pela Ipsos em 2024, 52% dos brasileiros disseram confiar em cientistas, colocando-os entre as profissões mais confiáveis do país [6].  

Como também já discutido nesta coluna, a ciência não é política de Estado no Brasil. Ela recebe investimentos e avança, mas sofre cortes e recua. As prioridades em torno da ciência mudam segundo diferentes governos e conjunturas. Essa instabilidade, ao lado da falta de educação infantil voltada à ciência, molda a forma com a qual a sociedade exerga a atividade científica. No Brasil, ela não é percebida como uma necessidade permanente, como um componente perene do projeto de país. Logo, não será defendida como essencial. Uma sociedade que não reconhece a ciência como parte estrutural de seu futuro terá mais dificuldade para compreender por que precisa formar e manter cientistas. E, sem esse reconhecimento, será mais difícil criar uma cultura na qual uma pessoa jovem considere pensar: “Quero ser cientista”.

Mas quais são os caminhos para moldar estes rumos e tornar a carreira acadêmica atrativa para as jovens mentes do Brasil? Ao passo que já sabemos formar cientistas, é necessário construir oportunidades para trajetórias profissionais mais previsíveis após a formação, tanto para atuação nas universidades e institutos de pesquisa governamentais como no setor privado. E aqui não considero somente as grandes corporações internacionais, mas o desenvolvimento de empresas de base tecnológica nacional, especialmente associadas a assuntos estratégicos para o país. Para isso, precisamos aumentar o valor social da ciência, pois consequentemente se valorizará quem a produz.

Iniciando então pela valorização, consideremos que “falar sobre ciência” é essencial! Mas não apenas em momentos evidentes, como quando uma epidemia surge, uma vacina é desenvolvida ou uma descoberta ganha as manchetes. Cientistas precisam ser personagens reconhecíveis da vida cotidiana de um país que pretende ser soberano em conhecimento e tecnologia. Neste sentido, pode-se tomar como exemplo a China, que recentemente passou a expor seus cientistas em outdoors nas cidades [7].

Paralelamente, devemos ampliar mecanismos de apoio que tornem menos precária a trajetória entre a formação e a consolidação do cientista. Em São Paulo, por exemplo, a Fapesp tem lançado programas, como o Projeto Geração e o já tradicional Jovem Pesquisador, que vão além do pós-doutorado, reconhecendo que formar cientistas é diferente de construir uma carreira científica [8]. É um ótimo movimento, sem dúvida, mas também é essencial, como já mencionado acima, promover e ampliar a ciência para além da Universidade.

Incentivar o surgimento de novas empresas brasileiras de base tecnológica leva à geração de empregos, conhecimento e, portanto, retorno financeiro, além de permitir lidar com questões importantes para o país. Movimentos assim têm o potencial de ampliar os espaços a serem ocupados por cientistas, para além da academia tradicionalmente conduzida nas universidades. E isso não é ruim, pelo contrário: preservar a liberdade intelectual e científica na universidade é estratégico e essencial para um plano de país.

Ser cientista deve fazer sentido como projeto de vida. A carreira acadêmica não é um caminho fácil, pois a ciência exige, além de curiosidade, muita persistência, criatividade e disposição para lidar com aquilo que ainda não sabemos. A natureza intrinsecamente incerta da atividade científica deve permanecer no âmbito das hipóteses que eventualmente não se confirmam e não extravasar como insegurança de futuro profissional. No Brasil, ao passo que aprendemos a formar cientistas, ainda precisamos trabalhar para que a ciência seja percebida como uma carreira desejável. Se queremos uma sociedade capaz de produzir conhecimento, tecnologia, inovação e justiça social, precisaremos de pessoas que escolham dedicar suas vidas a isso. E as teremos uma vez que valorizarmos, de fato, esta carreira.

Observação: Texto elaborado com auxílio de IA

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.


Referências:

[1] Indicadores de pesquisadores, UNESCO/World Bank
UNESCO 2026 R&D Data Release
World Bank/UNESCO: Researchers in R&D per million people

[2] Formação de doutores, MCTI
MCTI: Indicadores de pós-graduação, Tabela 3.3.4

[3] Investimento brasileiro em P&D, MCTI
MCTI: Dispêndio em P&D por setor, 2000–2024

[4] Comparação internacional de P&D, OECD
OECD: Main Science and Technology Indicators
OECD: Business Enterprise Expenditure on R&D

[5] Percepção dos jovens — INCT-CPCT
INCT-CPCT, O que os jovens brasileiros pensam da ciência e da tecnologia

[6] Confiança nos cientistas — Ipsos
Ipsos, Confiança nas profissões 2024

[7] Revista VEJA: China põe cientistas em outdoors para atrair jovens à pesquisa         
Reportagem Revista VEJA (14 de setembro de 2026)

[8] Apoio à carreira científica — FAPESP
FAPESP, Valores de bolsas no país


Foto de capa:

Pessoa usando luvas azuis e avental branco manipula um frasco com líquido âmbar em ambiente de laboratório, com bancada de trabalho contendo vidrarias, frascos de reagentes e equipamentos diversos ao fundo.
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